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FIT Museum: um giro pela exposição “Fabric in Fashion”

Mostra discute o uso de tecidos na construção de distintas silhuetas e sua importância para a história da moda e cultura contemporânea

by Felipe Stoffa
Vestido-casaco de Mila Schön de 1968 - Foto: Divulgação

Vestido-casaco de Mila Schön de 1968 – Foto: Divulgação

O tecido foi, por muitos séculos, um bem de luxo trazido do Oriente para o Ocidente. A famosa Rota da Seda era um importante trajeto por onde pilhas do material saíam da China para ser comprados por comerciantes na Europa e usados pela nobreza e a burguesia. Adquirir as melhores peças de tecido era, desde aquela época, uma forma de distinção social.

Agora, o material é ponto de partida para a “Fabric in Fashion”, exposição que está em cartaz FIT Museum, em Nova York, que apresenta os diferentes tecidos existentes no mercado. A mostra também aponta a transformação das silhuetas pela necessidade de manuseios desses materiais, como algodão e seda.

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Peça do estilista Issey Miyake (1982) - Foto: Divulgação

Peça do estilista Issey Miyake (1982) – Foto: Divulgação

“Quando estudava moda, aprendi sobre tecidos por duas maneiras: seu nível científico e químico, e também pela produção das roupas. Achava as duas formas extremamente interessantes, e uso frequentemente esse conhecimento como compradora”, diz a curadora Elizabeth Way. “Muitas pessoas não sabem como as fibras se comportam, ou até mesmo o que são.”

Após um ano e meio de pesquisa, Fabric in Fashion reúne 65 peças: casacos, vestidos de época (desde o século 16 até os dias de hoje) e amostras soltas.

Sari indiano de Traina-Norell (1955) - Foto: Divulgação

Sari indiano de Traina-Norell (1955) – Foto: Divulgação

A ideia é poder tocá-las, sentir o material, a textura, e compreender um pouco mais como e onde são usados. “O movimento do tecido ao redor do mundo ajudou a moldar nossa cultura e a sociedade contemporânea”, diz Elizabeth.

Entre os itens da exposição, cinco foram adquiridos recentemente, e algumas raridades do acervo são apresentadas pela primeira vez ao público. “Tive a oportunidade de passar muito tempo dentro da coleção, apenas olhando para o que tínhamos e escolhendo algumas roupas de tirar o fôlego”, conta.

Vestido de organza (1825) - Foto: Divulgação

Vestido de organza (1825) – Foto: Divulgação

Para a curadora, a mostra está repleta de peças favoritas. “Mas minha maior paixão são os vestidos históricos”, diz, como no caso de uma vestimenta de organza costurada em meados de 1825. Outra predileta é uma das novas aquisições do museu: o vestido muçulmano com prata, de 1795, feito de algodão proveniente da região de Bengala, na Índia. “É surpreendente como algo tão delicado pôde durar tanto tempo”, reflete.

Ela enfatiza que procurou abordar dois pontos em sua curadoria: a exploração do mecanismo dos tecidos e como eles trabalham na modelagem. Por outro lado, a mostra acaba oferecendo um ótimo passeio pela história da moda a partir dos quatro tecidos mais usados na produção de vestuário: fibra, lã, sintéticos e o algodão – este acaba ganhando destaque especial e mais polêmico, pois sua comercialização, nos Estados Unidos, foi um dos maiores fatores para o desenvolvimento da escravidão na região.

Detalhe de um vestido de seda inglês (1760)  - Foto: Divulgação

Detalhe de um vestido de seda inglês (1760) – Foto: Divulgação

Além das peças históricas, alguns dos destaques ficam por conta de obras de grandes mestres, como uma dramática capa feita pelo couturier Cristóbal Balenciaga, em 1962. Dos vestidos mais recentes, vale perder tempo na peça de Issey Miyake, com babados de metal sintético.

Outros mestres da costura ganham espaço: as roupas artsy de Elsa Schiaparelli, Mila Schön (um lindo vestido-casaco de lã com face dupla, de 1968), Romeo Gigli, Isabel Toledo, Azzedine Alaïa, entre outros.

Vestido de Yoshiki Hishinuma (2000) - Foto: Divulgação

Vestido de Yoshiki Hishinuma (2000) – Foto: Divulgação

O impacto das novas tecnologias, a partir dos anos 2000, é também explorado, no caso o uso de modelagens 3D e diferentes tipos de corte. “O tecido é a base da moda, como qualquer designer sabe”, diz a curadora. “Mas a moda é tão interessante e dinâmica que consegue contar inúmeras histórias ao mesmo tempo. Nesta mostra, quis jogar o foco lá atrás, para os próprios materiais. Vivemos em um mundo inundado de materiais de todos os tipos. Ao olhar para a história dos tecidos e seus significados culturais, acredito que podemos apreciar e selecionar melhor aquilo que nós mesmas consumimos”, defende Elizabeth.

Até maio de 2019 no FIT Museum 

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