Foto: Ángel Castellanos

Gabriela Medvedovski. O nome é difícil, mas é fácil se lembrar dela. Desde que estreou em “Malhação – Viva a Diferença”, onde representava Keyla, a jovem mãe da trama, Gabriela, 29 anos, se tornou um ícone, cuja personagem se estendeu para a série “As Five”. Mais recentemente ela foi vista como a médica determinada e resiliente Pilar, em “Nos Tempos do Imperador”, novela de época da TV Globo.

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Assim como nos papéis que interpreta, a atriz tem como objetivo conquistar seus ideais, e aposta no talento para seguir em frente. “O texto de época é sempre um desafio, saímos totalmente da nossa zona de conforto. Mas é também uma ferramenta muito importante para a construção da personagem, porque é mais um estímulo para trazer características e traços de personalidade”, diz.

Gravando as próximas temporadas de “As Five”, ela tem planos de fazer cinema e apostar na música. Suas qualidades vocais puderam ser vistas em “Malhação”, e não são poucas. “Tenho muita vontade de explorar a música na minha carreira sim. Ainda não sei exatamente como, mas eu tenho uma conexão muito forte com o cantar.”

A jovem, que saiu aos 23 anos de casa para estudar teatro, acredita que sua formação como publicitária não era o que queria, e apostou tudo na carreira de atriz. Sente que teve privilégio em poder se dedicar ao que sonhava e agradece à família pelo apoio. “Eu tive a sorte e o privilégio de ter o apoio e auxílio da minha  família, e acho também que o fato de ter tomado essa decisão com 23 anos me ajudou em alguns processos que poderiam ter sido um pouco mais difíceis se eu tivesse saído mais jovem ainda de casa”, completa.

Leia a seguir entrevista que Bazaar fez com Gabriela:

Harper’s Bazaar – Você acabou de se despedir da personagem Pilar na novela “Nos Tempos do Imperador”. O que mais você compartilhou com ela e ela compartilhou com você?

Gabriela Medvedovski – Foi uma experiência muito intensa viver a Pilar, ela tinha características muito presentes que foram muito importantes no processo todo. Para mim uma das coisas que mais me inspirava nela era a sua força e resiliência. Sinto que, muitas vezes, me apoiava na força da personagem e me inspirava nela. Principalmente nos momentos relacionados à Covid-19. Estar trabalhando depois de tanto tempo parados por conta do vírus era um alívio, um privilégio, mas ao mesmo tempo foi um processo muito delicado estar de volta em meio aos protocolos, na iminência de se contaminar por um vírus invisível e longe da minha família e amigos.

Essa novela demorou bastante tempo para estrear, depois de ser gravada durante a pandemia e até antes. Como foi todo esse processo?

Foi um processo longo, eu fiz a minha primeira prova de figurinos no final de 2019, enquanto estávamos finalizando as gravações de “As Five”, mas na verdade já estava envolvida nesse universo, através dos estudos para a personagem muito antes disso, desde o fim de 2018.  A pandemia do coronavírus aumentou mais ainda a nossa trajetória, fazendo com que o processo fosse ainda mais desafiador. Foram sentimentos muito ambíguos, porque ao mesmo tempo que não via a hora de voltar para o set de gravação, com saudades do trabalho e da rotina, tinha muito medo do vírus, muito medo de me contaminar, contaminar os outros e prejudicar as gravações da novela. Com o passar do tempo fomos nos adaptando a essa nova dinâmica de gravação e reaprendendo como trabalhar com os desafios que nos eram impostos diariamente. Foram muitos, a sensação é que muito se perdia, mas tínhamos muita força de vontade de fazer dar certo, muita dedicação e de alguma maneira tivemos um tempo de atenção a cada cena maior do que normalmente teríamos numa dinâmica normal de novela. Então por um lado, se perdeu, claro, mas por outro também se ganhou.

Foto: Ángel Castellanos

O que enxerga que foram os maiores desafios desta personagem? E as maiores glórias?

O texto de época é sempre um desafio, saímos totalmente da nossa zona de conforto. Mas é também uma ferramenta muito importante para a construção da personagem, porque é mais um estímulo para trazer características e traços de personalidade. Para mim, um dos grandes desafios também era conciliar as emoções da Pilar com a racionalidade, ela era uma mulher forte e decidida, mas também era passional e impulsiva, o que de alguma maneira trazia uma complexidade interessante para a personagem. E essa complexidade trazia momentos de grandes glórias, conduzida pela ânsia de ser dona do seu destino, ela acreditava que na luta e na resiliência ela poderia conquistar os seus sonhos. Ela é um exemplo de luta.

Qual foi sua preparação para dar vida a uma médica?

Eu estudei bastante o contexto histórico da Pilar, no que dizia respeito a tudo, desde música, literatura, até a própria medicina em si, e as figuras que ela representaria. Como Maria Augusta Estrela e Rita Lobato, as primeiras médicas brasileiras. Mas tem um momento que precisamos esquecer a teoria, guardar todas essas informações e ir para o set.

Venho de uma família de médicos do interior do Rio Grande do Sul e meu avô foi um médico importante na cidade de Pelotas. Não o conheci, mas a minha vida inteira escutei histórias do meu avô Miguel, das suas condutas no dia a dia de trabalho e compromisso com o ofício e o paciente. Então de alguma maneira, acredito que aquilo também estava no meu inconsciente. Durante a pandemia que passei no Sul, eu ficava com os instrumentos dele de trabalho, carreguei durante as gravações a foto dele comigo e, com certeza, ele foi uma grande inspiração durante esse processo.

Seu papel de maior notoriedade até o momento foi a Keyla, de “Malhação” e depois  em “As Five”. Por ser tão importante, ela segue viva em você?

Com certeza, não só porque ela ainda faz parte da minha trajetória, mas porque ela foi minha primeira experiência com o audiovisual. Aprendi muita coisa ao lado da Keyla e acredito que ela tem muito de mim e eu muito dela. Tem muitas coisas que nos conectam, e ter vivido esses últimos anos com ela, tendo a oportunidade de viver mais ainda com a gravação de mais temporadas, faz com que a nossa conexão só aumente e se fortaleça.

Como se sentiu saindo tão cedo de sua casa para tentar a vida artística?

Não diria que saí tão cedo assim de casa. Quando fui para São Paulo estudar teatro, tinha 23 anos, estava recém-formada na universidade de publicidade e propaganda, já estava no início da minha vida adulta. De qualquer maneira, não foi uma decisão fácil. Tinha medo, foi uma decisão que demorei um pouco para tomar porque racionalmente eu temia muito que não desse certo. Por outro lado, entendia que emocionalmente seria muito infeliz se seguisse no caminho em que estava. Eu tive a sorte e o privilégio de ter o apoio e auxílio da minha  família, e acho também que o fato de ter tomado essa decisão com 23 anos me ajudou em alguns processos que poderiam ter sido um pouco mais difíceis se tivesse saído mais jovem ainda de casa.

Você é muito presente no Instagram, mas aborda pouco as temáticas atuais. Como você enxerga esse movimento das redes hoje? De posicionamentos.

Como a internet é um lugar que gera muita ansiedade, tive que aprender a lidar com isso de uma maneira saudável. Diria que até hoje eu aprendo e reaprendo diariamente. Acho que existe uma cobrança muito grande de posicionamento constante e a internet, às vezes, vira um espaço que demanda e potencializa esse tipo de coisa. Como artista, entendo que temos um papel social que vem atrelado a uma responsabilidade. Enquanto pessoas públicas, muitas vezes é importante que tenhamos uma opinião. Mas entendi também com o tempo que não sou obrigada a me posicionar sobre tudo, que essa demanda tem que ser interna, genuína e que meu posicionamento deve ser para agregar e construir, caso contrário, sinto que não faz sentido.

Assim como a vida é cíclica, minha relação com internet e redes sociais também é. São fases, tem momentos em que me sinto mais confortável em dividir minha vida e me posicionar sobre determinados assuntos, em outros momentos prefiro o silêncio e a escuta. Na internet, muita gente quer falar e poucos estão dispostos a realmente escutar. Sempre entendendo também que em alguns casos, o silêncio é o consentimento, e nesses momentos acredito que é sim válido e necessário se posicionar.  

Foto: Ángel Castellanos

Onde você diria que o feminismo entra na sua vida? E como ele colabora para uma sociedade melhor?

Acredito que o feminismo está presente em todos os momentos. É muito abrangente, é teoria, prática, política, o fato de eu existir enquanto uma mulher branca dentro da sociedade consciente do espaço que eu ocupo, para mim já faz parte do feminismo. Acredito no feminismo como uma ferramenta de diálogo, uma proposta de luta para questionar a maneira como a sociedade opera e que propõe outras políticas de sobrevivência. Mas para mim, a base de tudo deve ser o diálogo, o lugar de fala mas também o de escuta, a troca que é capaz de fortalecer a luta.

Você se considera uma feminista exausta? Por quê?

Ah, me considero, sim. Tô exausta desse sistema patriarcal, desse machismo enraizado, de uma sociedade que foi organizada a partir de uma estrutura que favorece uns e oprime outros. Estar exausta não tem nada a ver com desistir, é sobre não aguentar mais uma ordem de crenças limitadas que perpetuam a superioridade masculina, que exclui a existência de outros gêneros que não sejam os dois sexos considerados “normais” (homem/mulher) e que não respeita outras orientações sexuais que não sejam a heteronormatividade. Na minha opinião, estar exausta é se colocar a favor de uma revolução contra tudo isso.

Quando pensa no seu futuro artístico, o que vem de desejos?

Tenho muita vontade de trabalhar mais com cinema, é uma linguagem ainda mais distante de mim e que tenho muito desejo de explorar. Assim como também tenho muita vontade de frequentar mais o universo da música, através do canto.

Quais são seus próximos projetos? Pode nos contar?

Estou me preparando para retomar meu trabalho com “As Five”, vamos gravar a segunda e a terceira temporadas durante os próximos meses.

Foto: Ángel Castellanos

Você já fez musicais. Tem vontade de ter um spin off musical na sua carreira? EP, álbum, singles ou coisa do gênero?

Tenho muita vontade de explorar a música na minha carreira, sim. Ainda não sei exatamente como, mas tenho uma conexão muito forte com o cantar. A música, assim como a dança, é meio transcendental para mim, são terapêuticas até, e me conecta muito com um eu profundo. Então, se acontecer em algum momento, quero que seja especial.