Busca Home Bazaar Brasil

Gal Costa: “A vida é para quem tem coragem”

Em entrevista exclusiva, ela fala sobre a nova turnê, que começa em dezembro

by redação bazaar
Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Por Ana Ribeiro

Para conversar com Gal Costa sobre tudo: começar. Para entediar Gal: política. Para ver seus olhos brilharem: Gabriel. Para cantar sempre: o amor. Para ouvir Gal cantar ao vivo: o palco. Uma coisa que não vai ecoar na casa dela é a sua própria voz. “Não canto para mim, nem no chuveiro”, diz a cantora.

Lá atrás, quando tinha 13 anos (agora está com 73), ouviu João Gilberto pela primeira vez. “Ele virou o meu mundo. Eu não gostava de mais nada, tinha de ser bossa nova”, relembra.

Aí sim, se trancava no banheiro e praticava canto, com uma compreensão intuitiva que ia muito além de seu conhecimento formal sobre técnica vocal. “Sabia instintivamente que a voz tinha de vir do diafragma”, explica, enquanto faz com a mão o gesto de apertar a barriga. “Sabia naturalmente como controlar minha respiração.”

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Hoje, se assusta com a paixão e a intensidade com que João Gilberto soou pelo rádio em seus ouvidos de menina. “Incrível como eu era madura”, exclama. Gabriel, seu filho único, está com a idade que Gal tinha na época. “Ele gosta de rap, de música dos anos 1970, Earth Wind and Fire, Gloria Gaynor”, enumera.

Foi por influência dele que resolveu colocar um pouco de música para dançar no disco novo que lançou no final de outubro, “A Pele do Futuro”. “Sempre tive vontade, e chegou a hora de gravar alguma coisa de dance music.”

Gabriel é uma de muitas presenças jovens que Gal tem ao seu redor. “Gente jovem por perto me recicla, aumenta minha energia, traz frescor e ideias novas. Trabalhar democraticamente com um grupo de músicos jovens gera coisas maravilhosas, surge um arranjo inesperado e eu sigo junto. Sou aberta, gosto de mudança, deixo as novidades acontecerem.”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Gal Costa é suave e firme. Conversa olhando nos olhos e não foge das perguntas. Não gosta especialmente de dar entrevistas. “Me acostumei”, explica. Mas, às vezes, se surpreende quando a conversa flui e uma pergunta a instiga e faz pensar. “Algumas entrevistas são estimulantes”, concede, sentada de pernas cruzadas no sofá.

Fez terapia durante 10 anos, na década de 1980, e depois parou. “Pagava as sessões e não ia, meu terapeuta me disse que eu estava me dando alta.” Gosta, sim, de fazer shows e da vida “na estrada”. É o que vem agora após o lançamento do atual disco. “Minha rotina vai mudar, vai ser legal, gosto de viajar.”

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

No dia a dia, a vida de Gal é como a de qualquer mãe que vive nos Jardins, em São Paulo. “Fico muito em casa, saio mais de dia, vou almoçar fora, jantar nunca”, diz. “Gosto de ver novela, filmes e séries na Netflix. Não tenho problema de ficar sozinha, gosto de ficar quietinha.”

Quase todas as músicas de “A Pele do Futuro” falam de amor. “O amor é a coisa mais fundamental que existe, ainda mais em tempos obscuros como estes. O amor é o que move as pessoas, o que move o mundo, acho que tudo devia ser em nome do amor, da tolerância, do respeito às diferenças, da admiração, do entendimento.”

Tirando Gabriel (“a alegria da minha vida”), Gal prefere não falar dos objetos do seu amor: “Sou reservada”. Cuidar da voz nunca foi uma grande preocupação, mas, agora, com a proximidade dos shows – a estreia da turnê será em São Paulo, em 1º de dezembro, no Tom Brasil, e depois vem o Rio, no dia 17, no Vivo Rio –, está tentando não falar muito, dormir bem e descansar.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

“Não tomo gelado e nem nada com muito gelo. Nem gosto de água gelada”, completa. Gal se preocupa com o futuro: “Parece que a gente está no final dos tempos”, exagera. Não planeja mais sair do Brasil. “Bem lá atrás, pensei em morar nos Estados Unidos, tive apartamento lá e queria morar um tempo, cantar em inglês. O universo conspirou contra e desisti.”

Muitas vezes, o que a assusta mesmo é a sua idade. “O tempo cronológico da minha alma, do meu espírito e da minha disposição física não combina com esse número a que cheguei. Às vezes, dou um salto, faço algo perigoso, depois penso que poderia ter me machucado.”

Se vê no espelho como uma mulher bonita. “Mas sinto saudade daquele corpinho jovem que eu tinha”, diz. No fim, tudo faz parte do mesmo pacote. “A vida é para os valentes, os que têm coragem. Viver é para os fortes.”