Foto: divulgação
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por Ana Carolina Monteiro

Para dar à luz, Helen Beltrame-Linné teve de viajar por uma hora com contrações até uma balsa, atravessar para a ilha vizinha e só então pegar a estrada ao hospital mais próximo. No passaporte da pequena Liv, no entanto, consta como local de nascimento Farö, minúscula ilha na Suécia com cerca de 500 habitantes, sem hospital, delegacia ou banco e onde Helen escolheu morar. Para entender como ela foi parar lá, voltemos aos seus 17 anos, recém-chegada de Ribeirão Preto para São Paulo e indo ao cinema ver Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Começava ali uma obsessão por cinema e pelo diretor sueco. “O filme mexeu muito comigo, porque nunca tinha visto um roteiro em que houvesse tanta liberdade para se falar sobre ‘nada’”, diz Helen à Bazaar. Ela conta ainda que chegou a ir a Estocolmo, em 2002, para ver uma peça de teatro dirigida por ele – sem falar sueco.

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Advogada bem-sucedida no Brasil usava suas férias para ir a festivais de cinema pela Europa. Acabou conhecendo o diretor de teatro Felipe Hirsch e o cineasta José Padilha, que a afastaram do Direito e para quem realizou trabalhos de produção. Daí começou a idealizar uma vida como roteirista e, em 2012, alugou uma casinha em Farö para escrever para cinema e TV, tranquilamente, “por três meses”. Até que conheceu Jonas, jornalista sueco e futuro marido. A paixão pela obra de Bergman (e o sueco fluente) a rendeu um convite para ser a diretora do Bergman Center, fundação dedicada a preservar a memória do diretor. A ilha “bomba” no verão: duas mostras abrem agora em maio.

Em junho, o centro realiza a Bergman Week, com palestras, concertos, dança, teatro. Cenário de muitos dos filmes do cineasta, Farö abriga a casa onde ele morou (e rodou Cenas de um Casamento), na qual a brasileira se hospedou até entregar o local para residências artísticas. O agito não faz falta. “Quando você elimina as distrações de uma cidade como São Paulo, o que sobra é tudo o que importa nesta vida”, avalia, aos 35 anos. O nome da filha é uma homenagem a Liv Ullmann, uma das musas de Bergman e de quem a residente mais nova de Farö já recebeu até bilhetes escritos a mão.

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