“Café da Manhã” – Foto: Divulgação

Por Helena Vieira

 “Nem toda brasileira é bunda.” (Rita Lee)

Nesta semana, o vídeo de “Café da Manhã”, novo clipe das artistas brasileiras Ludmilla e Luísa Sonza, foi retirado do ar no YouTube devido a denúncias que consideravam o conteúdo impróprio e pornográfico. Além disso, outras tantas discussões têm tido os shows e apresentações de Luísa como sendo excessivamente sexualizados, apelativos, e, para alguns, até mesmo pornográficos. Tenho a impressão que tais análises parecem recheadas de conservadorismo. Um sutil moralismo que funciona como pano de fundo na sustentação destas críticas, umas tantas vindas até mesmo do campo progressista.

Dizem os críticos que Luisa precisaria “mostrar o corpo” para vender e para ser ouvida, para fazer sucesso. Eu me pergunto: no capitalismo qual o trabalho que não está vinculado a formas variadas de exploração do corpo? Ora, o corpo é a condição de possibilidade de quaisquer formas de exploração. Algumas formas de exploração reificam, transformam o corpo alheio em coisa, em máquina e o fazem superexplorando os sujeitos com salários ruins, condições insalubres etc. Por favor, não tratem a crítica a exibição de um corpo como se ela pudesse ser, imediatamente, algo nefasto, isso revela apenas o compromisso com uma cultura que nega a corporalidade para melhor explorá-la. Que nega o corpo e faz dele território de virtudes que são, a bem da verdade, horror ao corpo e a tudo que lhe diga respeito.

Além disso, a afirmação de que “Luísa Sonza precisa usar o corpo para fazer sucesso” me parece fundada em uma redução do talento e capacidade artística da cantora, o que é bastante irônico, afinal aqueles que julgam defender o corpo de Luísa, o fazem através da secundarização de seu trabalho artístico. Seria interessante perguntar a estas pessoas: “Quais são os artistas que conseguiram fazer sucesso sem recorrer à erotização?”, não duvido que a resposta viria repleta de um ranço moralista que apresentaria nomes que ou já estão consolidados no mercado ou que fazem a famosa música “boa”, a música “culta”. Não há nada aí além de um elitismo moralista disfarçado de defesa do corpo das mulheres… ou seria “defesa da honra”? (já vimos defesa da honra em outras épocas, né? Fiquemos atentas).

Tenho a impressão de ter ouvido críticas semelhantes vindas de beatas e religiosas com relação ao funk, a Tati Quebra Barraco, a Valeska, a Anitta, quase sempre acompanhadas de uma condenação ao estilo musical, à carreira, a uma suposta vulgaridade percebida.

“Café da Manhã” – Foto: Divulgação

Concordo que a representação sempre erotizada do corpo das mulheres colabora com os processos de objetificação e, portanto, com uma gama quase infinita de violências e práticas desumanizadoras. Contudo, é preciso situar os fenômenos sociais e as práticas de representação em seus contextos e significados. A nudez erotizada por si mesma nada significa. As danças sensuais de Luísa e a exibição de seu corpo são, neste caso, empreendidas pela artista, não como acessório da sedução e do desejo masculino, mas como expressão artística, o que se vê naquele clipe são duas mulheres dançando. Equiparar isso com os antigos comerciais de cerveja ou com as dançarinas de programas de auditório é um equívoco imenso e prejudicial à compreensão das dinâmicas da realidade.

Luísa Sonza, cultura pop e feminismo

 Jack Halberstam, homem trans e importante teórico queer, em sua obra “Gaga Feminism: sex, gender and the end of normal” propõe a figura pop de Lady Gaga como uma metáfora através da qual podemos compreender uma série de dinâmicas e transformações no tempo, no capítulo 3 “Gaga Sexualities: The End of Normal” o autor discorre sobre uma série de transformações da sexualidade, do gênero e do desejo reveladas ou representadas por esse “Gaga feminism”, a questão central é que uma destas transformações são as mulheres que desejam, é a retirada do desejo do campo da heterossexualidade. No clipe de Luísa Sonza o que percebemos é justamente o contato sensual entre duas mulheres, em uma música cujo eu-lírico é partilhado por ambas.

Há quem possa argumentar que a representação sensual do contato entre duas mulheres, na cultura mainstream, serve ao desejo masculino, como se vê em uma gama de conteúdos pornográficos. É importante lembrar, não apenas quanto a Luísa, mas acerca da cultura pop de modo geral, que ela é consumida majoritariamente por homens gays e mulheres cis hetero. Como a erotização entre duas mulheres poderia fazer com que Luísa vendesse mais, se, e eu afirmaria com algum grau de segurança, seu público é majoritariamente gay?

Quando pensamos nas mulheres que cantam pop, as famosas divas pop, como Madonna, percebemos com frequência a exibição sensual do corpo. Perceba que tal forma de exibir tem mais a ver com revelar ousadia e coragem e com uma afirmação da possibilidade do desejo.

É importante lembrar ainda que a cultura pop e suas manifestações estão intimamente ligadas a transformação das práticas de representação do sexo e da sexualdade femininas. Destaco aqui a performance de “Like a Virgin” na turnê “Blondie Ambition” de Madonna em 1990. Ela começa vestida de dourado, com dois cones nos seios, dançando lentamente, em cada lado da cama havia um dançarino homem, também vestidos com cones. Aos poucos a dança se torna mais erótica até que ao fim a música se agita e os movimentos se tornam mais velozes e explicitamente masturbatórios, em dado momento Madonna é puxada prazerosamente por um lado e outro por seus dançarinos, até que, no ápice da cena, as luzes se apagam.

“Café da Manhã” – Foto: Divulgação

Essa turnê é um marco da música e cultura pop, mas também de toda a iconografia do corpo das mulheres que vêm depois.

Destaquei “Blondie Ambition”, mas poderia ter tomado outros exemplos. Não estou aqui comparando as duas artistas, longe disso, o que quero destacar através deste exemplo é que a representação erótica feminina na cultura pop não pode ser associada à objetificação feminina ou a uma cultura pornográfica de consumo masculino, tais associações são equivocadas e desmerecem o impacto do pop sobre mulheres e outros sujeitos subalternizados em termos de sexo e gênero.

Pornografia e as dinâmicas contemporâneas

 Como se não bastasse toda a discussão já feita, vi algumas associações (inclusive a retirada do clipe do YouTube) entre as apresentações de Luísa e a pornografia.  Confesso que não me fez muito sentido, isso porque o argumento se situa na existência de uma cultura pornográfica constantemente alimentada pelo capitalismo, pela cultura pop e pela mídia, constatação com a qual eu não tenho discordância. Minha impressão, ao contrário, é que associar a excitabilidade possível do clipe de Luísa como se algo de especial tivesse faz parecer que é novo. Ora, se tomarmos a pornografia como uma linguagem que faz ressoar na carne suas técnicas e tecnologias e que, em nosso tempo, ela corresponde a um fluxo de excitabilidade e frustração ininterruptos, teremos afetos pornôs em todo tipo de transação humana: das dancinhas de TikTok, à moda, passando pelas campanhas eleitorais. A cultura pornográfica funciona como aparato onde as relações acontecem, em que os fluxos de imagem e gozo operam produzindo desejos e gerando movimento de mercados e até mesmo de vida.

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Não vejo nenhum sentido nesse engolfamento moralista sobre o clipe de Luísa e Ludmilla e sobre a performance de Luísa. Precisamos, ao contrário, nos apropriar da cultura pop e da forma como ela dialoga com afetos geracionais. Luísa, minha querida, me ensina a coreografia? Dancem, gente, como diria a Hilda Hilst, às vezes é preciso ser leve, abrir mão das coisas que cansam.

Helena Vieira é pesquisadora, transfeminista e escritora. Estudou Gestão de Políticas Públicas na USP. Foi colunista da Revista Fórum e contribuiu com diversos meios de comunicação como “Revista Galileu”, “Cadernos Globo”, “Revista Cult” e “Blog Agora É que São Elas”, da Folha de São Paulo. Foi consultora na novela “A Força do Querer”, da Rede Globo. Recentemente, foi coautora dos livros “História do Movimento LGBT”, organizado por Renan Quinalha e James Green; ” Explosão Feminista”, organizado por Heloísa Buarque de Holanda; “Tem Saída? Ensaios Críticos sobre o Brasil”, organizado por Rosana Pinheiro Machado e ” Ninguém Solta a Mão de Ninguém: Um manifesto de resistência”, da editora Clarabóia. Dramaturga, fez parte do projeto premiado pela Focus Foundation na categoria Artes Cenicas”, da Brazil Diversity, em Londres, com a peça ” Ofélia, The Fat Transexual”. Desenvolveu, junto ao Laboratório de Criação do Porto Iracema das Artes, pesquisa dramatúrgica intitulada “Onde Estavam as Travestis Durante a Ditadura?”. Atualmente é assessora para a Cultura da Diversidade na Escola de Arte e Cultura Porto Iracema das Artes no Ceará.