Heloisa Jorge – Foto: Marcia Otto

Por Baárbara Martinez

Atriz refugiada é somente uma das várias facetas de Heloisa Jorge, que aos 12 anos teve que fazer do Brasil o seu país de morada. Natural de Lunda Norte, a atriz fugiu de Angola em meio à guerra civil. Vinte e cinco anos se passaram e hoje ela é uma das atrizes mais presentes nas telas nacionais: vive uma imersão profunda nas plataformas de streaming. Atualmente, pode ser vista na série “Sentença”, produção original da Amazon Prime, dirigida por Marina Meliande e pela argentina Anahì Bernere. Lançada, simultaneamente, em 240 países, a série chegou ao número um no ranking de mais assistidos da plataforma.

Na Star Plus, Heloísa estará em um capítulo de “How to be a Carioca”, criada por Carlos Saldanha e Joana Mariani, na qual reencontra um episódio de sua vida ao interpretar uma angolana que chega ao Rio de Janeiro. “Retomei meu sotaque natural, me coloquei em contato com muita música angolana, com a literatura de lá”, entregou, cheia de orgulho.

Já na Globoplay, onde atuou em “Sob Pressão”, a atriz está escalada para a série “Fim”, criada por Fernanda Torres e dirigida por Andrucha Waddington.

Com o currículo agitado, a atriz comemora, e muito, o mercado inquieto dos streamings, que anda agregando cada vez mais nomes marcantes da televisão brasileira. “É uma possibilidade de a gente se experimentar em lugares que não estivemos ainda. Isso está ficando cada vez mais horizontal”, conta.

Assim que chegou ao Brasil, Heloisa morou em Minas Gerais e em Salvador, onde cursou Artes Cênicas na Universidade Federal da Bahia, e fez parte de grupos de teatro importantes de lá. Após ganhar o reconhecimento do tão desejado eixo Rio/São Paulo, ela continuou seguindo no teatro, onde protagonizou o musical “Dona Ivone Lara”, em que interpretou a dama do samba em sua fase jovem. Por mais que o palco tenha aberto todas as portas em sua carreira, Heloisa nunca quis ser definida apenas como “atriz de teatro”. “Temos a mania de sedimentar as pessoas. Fulano é atriz de teatro, ciclana é global, outra é digital influencer“, disse ela, que acredita na confluência de vários papéis.

Com essa vontade de transitar, a angolana foi parar nas telinhas da TV Globo. Fez parte do elenco das novelas “Gabriela”, “Liberdade, Liberdade”, “A Lei do Amor” e “A Dona do Pedaço”. Querendo ou não, esse reconhecimento possuiu um significado diferente em sua vida, tendo como referência a reação de sua família ao vê-la na tela. “A primeira vez que apareci na televisão, foi como se todo o esforço, toda a história da nossa família fosse compensada por aquele momento ali”, relembrou.

Foi difícil deixar para traz o seu país natal, sob uma guerra triste e sangrenta, e somente depois de muito tempo, ela conseguiu ressignificar esse episódio marcante como um motivo de orgulho e reconhecimento. Aos 37 anos, a artista conta que, anos atrás, não gostava de permanecer nessa “caixinha muito específica”. “Hoje, eu tenho mais é que abraçar esse rótulo e tantos outros, porque isso me constitui”, contou à Bazaar, do Rio de Janeiro, onde mora.

Mesmo presente nas principais obras produzidas no Brasil e exportadas para o mundo, Heloisa confessa ainda ser vítima de um País racista, mas até para esse enfrentamento ela procurou evolução. Depois de anos na profissão, aprendeu a “colocar luz” sobre o crime, o que não fazia antes por medo de perder espaço na dramaturgia. “Esse tempo de ter receio de expor, acabou”, diz ela, que revela já ter sofrido preconceito diversas vezes, principalmente no audiovisual.

Essa confiança e a determinação visíveis de Heloisa são algo recente. Passando a se olhar com mais afeição, a angolana se enxerga agora com beleza, admiração e, principalmente, sem se comparar com outras pessoas, o que costumava fazer. “Agora que alcancei isso, ninguém me segura, porque é um bem-estar, um bem querer, uma vontade de me cuidar absurda.” É um dom adquirido, ela conclui.

Tenta a todo o custo evitar a palavrinha empoderamento, que embora ela considere clichê, ainda não ganhou substituto à altura. E, portanto, empoderada segue sendo vocábulo cada vez mais usado em seu dicionário – o da vida pessoal e profissional. E é, assim, a sua receita perfeita para voos mais altos.