Attílio Baschera e Gregório Kramer – Foto: Divulgação

Por Matheus Evangelista

Como explorar o design de interiores nacional se os dois grandes nomes por trás da ascensão do décor no País não tinham sequer um livro para chamar de seu? Peças-chave para entender a casa brasileira e seus luxos, fãs de Attílio Baschera e Gregório Kramer podem agora festejar: “Attílio e Gregório” (240 páginas, R$149), do arquiteto e pesquisador Rica Oliveira Lima, acaba de ser lançado pela editora Olhares.

“O livro demorou quase cinco anos para ser feito. Comecei em 2015, em uma pesquisa na FAU-USP, quando ainda estudava arquitetura. Eu já trabalhava com design de interiores e me incomodava que não houvesse pesquisas que ensinassem sobre a evolução desse campo no Brasil; sabia que Attílio e Gregório, amigos da minha mãe e meus vizinhos em Higienópolis, eram protagonistas dessa história”, explica Oliveira, que começou então a fomentar o projeto de forma intimista e quase investigativa.

Estampas feitas pela dupla – Foto: Divulgação

Attílio e Gregório se conheceram em 1968. Gregório, filho de judeus refugiados na Argentina, se apaixonou à primeira vista por Attílio em um jantar no extinto Hotel Claridge. O primeiro diretor de arte da Editora Abril era casado, descendente de uma família italiana à frente da loja de departamentos Mappin. A partir desse match, resolveram juntar as forças criativas – pode-se dizer que tudo começou em um apartamento no centro de São Paulo, onde, no chão da cozinha, a dupla estampava tecidos.

Juntos, fundaram em 1971, a Larmod, loja de tecidos decorativos que inaugurou um novo mercado de luxo no País do “milagre econômico”, naquela época recém-fechado às importações. Não precisa ser gênio para saber que a marca e seus proprietários se tornaram verdadeiros ícones – e darlings! – do design nacional no último terço do século 20, por meio da combinação de talento artístico, faro para negócios e a posição prestigiosa que galgaram junto à mídia especializada e ao society brasileiro.

Estampas feitas pela dupla – Foto: Divulgação

Em uma das passagens do livro, Attílio, hoje com 87 anos, traduz em poucas palavras suas ambições e vontades: “A grande coisa do nosso trabalho era uma vontade de dar vazão à nossa origem, a tudo aquilo de que a América do Sul não queria saber: nossa origem portuguesa, nossa origem africana. Mas não foi algo pensado para ser revolucionário.”

Já Gregório, completou, categórico, em uma das entrevistas que deu ao autor, antes de morrer, em 2109, aos 80 anos: “Nada disso do nosso trabalho foi feito de caso pensado. Foi um grito! A gente queria o verde das folhas, o amarelo do sol, o laranja do fim de tarde em Copacabana – não o verde-cocô e o amarelo-diarreia das casas da época.”

“Eles começaram a me receber semanalmente no seu apartamento, na Praça Buenos Aires, para tomar um café na copa. Não consigo nem dizer quantas dezenas de vezes nos encontramos – sem falar nas 21 outras entrevistas que complementaram minha pesquisa”, explica o autor. “No entanto, o mais desafiador não foi transformar todas essas gravações em texto, foi ler e organizar as centenas de materiais sobre eles desde os anos 1970, que precisei caçar nas revistas de decoração espalhadas por uma dúzia de bibliotecas”, conta.

Estampas feitas pela dupla – Foto: Divulgação

Com leitura rápida e inteligente, o livro nos convida a participar do bate-papo de Attílio e Gregório, que expõem sem embaraços suas visões de mundo, relacionamento e obra, com centenas de fotografias, desenhos, estampas e divertidas matérias de decoração dos anos 1970 e 1980. E como em uma festa entre amigos, os “anfitriões” são interrompidos por 13 entrevistas com profissionais destacados da área. Entre eles, Sig Bergamin, Glória Kalil, Vânia Toledo, Fabrizio Rollo e Patricia Carta. Além disso, o prefácio é assinado pela dupla Maria Cecília Loschiavo dos Santos, professora titular de design da FAU-USP, e o jornalista Raul Juste Lores.

Capa do livro “Attílio e Gregório” (240 páginas, R$149), do arquiteto e pesquisador Rica Oliveira Lima – Foto: Divulgação

“Quando vivo, Gregório desejava que a publicação fosse ‘um livro que as pessoas botam na sacola e levam para a praia'”, finaliza Rica. Longe do peso e da inacessibilidade de um coffee table book, este tem capa mole e é menor que uma revista normal, ideal para aquela leitura leve e deliciosa de verão. Bem ao estilo da dupla.