Foto: Rodolfo Magalhães

Iza quer ser vetor de mudança ao abrir ainda mais caminhos para que mulheres incríveis consigam conquistar espaços na sociedade. Ela pontua que muitas coisas que as pessoas têm consumido na cultura pop derivam de um lugar de invisibilidade, o chamado gueto, que empresta nome ao seu novo single, que chega nesta sexta-feira (04.06) às plataformas. “É para eu não esquecer das minhas origens”, reflete. “Estar ali sentada no horário nobre, eu sou a bandeira. Já estou falando muita coisa só de estar ocupando (aquele espaço). Nada do que eu falo é proposital. Acabo falando sobre racismo porque vivi, não tem como fugir”, diz ela sobre pautas identitárias abordadas por vezes no “The Voice Brasil”, da Globo.

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A cantora se considera a ponta do iceberg, sabe que não representa todas as mulheres pretas (em especial as pretas e gordas), mas vem traçando um legado, puxando outros profissionais tidos como minoria a ocupar posições de destaque. “Todas as vezes que sou contratada por uma empresa, ela sofre mudanças internas porque é necessário”, explica ela que, ao trilhar esse caminho, abre-se uma porta em que outras pessoas iguais possam ocupar este espaço e “sentar-se à mesa”. Prossegue: “Quem nunca viu aquele cartaz: ‘mãe, eu tô na Globo?’ Não é sobre a emissora, mas sobre eu estar lá. Uma mulher negra! Quando eu falo do contrato, é sobre a mudança social que a empresa resolveu fazer.”

Foto: Rodolfo Magalhães

O single “Gueto” abre-alas para uma nova fase com álbum a caminho em que a cantora fala desse sucesso, incluindo o cargo de apresentadora (a quem menciona na faixa como “plim-plim”), os contratos publicitários e as grifes internacionais. “Comecei a me vestir na feirinha de Olaria”, relembra ela, que compunha os looks para as festas, em uma outra realidade, acompanhada das amigas. No vídeo, essa periferia colorida surge a partir de suas vivências da infância, em Olaria (Rio de Janeiro). Sob direção de Felipe Sassi, foi gravado no mês passado em São Paulo e no Rio, com locações que incluem a Igreja da Penha.

Entre as passagens, dançarinos aparecem pintando a bandeira do Brasil no chão, em alusão à Copa do Mundo nas periferias. “Não entrava muito bem na minha cabeça como que, naquela época do ano, estava liberado pintar o chão, não deixar passar carro… Daqui a pouco, você descobria os vizinhos que sabiam desenhar. De repente, estava todo mundo pintando a bandeira mais bonita. Nossa bandeira é linda. E ela é nossa”, sintetiza. “Orgulho de ser parte deste lugar por mais que estejamos vivendo um momento tão complicado.”

Foto: Rodolfo Magalhães

O lead single puxa um lado dançante de Iza, mas ela não quer se fechar a apenas um gênero no novo ciclo. Com quase todas as músicas finalizadas, está em fase de escolha das gravações para formar o álbum de inéditas, e adianta que as faixas até agora têm pegada dance, reggae, R&B e trap. Mas só depois do conjunto escolherá um nome para o sucessor de “Dona de Mim” (2018). “Não sei se é pop, mas tem muito a minha cara”, desconversa. Quem acompanha seu trabalho de perto, sabe que ela gosta de passear pelos estilos brasileiros com referências gringas, que já é sua assinatura.

Ela não nega as parcerias, ia “amar” colaborar com Ludmilla, com quem está em conversas. “Na minha opinião, a maior cantora negra do País. Sou muito apaixonada pelo trabalho dela, que me inspira muito.” Sobre uma possível colaboração com Sam Smith, ela nega veementemente. O fato de ele tê-la seguido no Instagram causou um “delírio coletivo”, mas não tem nada confirmado.

Aos 30 anos, pela primeira vez, Iza toca em pontos pessoais e de ancestralidade, assuntos que a confrontaram durante esse momento de pandemia. “Olhando para mim dentro de casa, enfrentei muita coisa que estava empurrando para debaixo do tapete”, comenta. “Não tem como falar para onde estou indo se não sei de onde vim. Debaixo da trança tem muitas histórias de sobrevivência”.

Foto: Rodolfo Magalhães

Mais maduras, as faixas terão recorte especial sobre vivências, não necessariamente de forma politizada, bastante influenciada por Black is King, de Beyoncé. “Me encorajou a falar de onde vim e ter orgulho para ter impacto na vida das pessoas.” Nesse momento de reclusão, Iza diz ter trocado a procrastinação pela paciência, aprendendo que cada coisa tem um momento certo para acontecer.

Mencionada recentemente como uma das líderes da próxima geração na revista americana “Time”, ela costuma dizer que não trabalha para ganhar prêmios, mas recebê-los é motivo de orgulho. “Quando a gente recebe um tapinha nas costas, dizendo que a gente está no caminho certo, tudo muda. Me sinto abençoada e é muito lindo receber esse reconhecimento. Principalmente nesse momento tão difícil para se fazer arte”, finaliza.