Foto: reprodução
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Por Rosana Rodini

Blusa de crochê, shortinhos jeans e coroa de flores na cabeça. E não se esqueça da rasteirinha para compor com a paisagem desértica. Mas isso ela não gosta. “Mataram o Coachella”, explica. “Tenta um # pra ver.” Tentei. São 2 milhões de fotos não perecíveis do festival californiano: o look é o mesmo, os tempos são outros. Em 2011 ela ia. Mas em 2011 era mara, teve Arcade Fire e Kanye West, lembra? E teve ela, de coroa de flores na cabeça e hot pants, porque ela tava magra e aquele ano tava quente. E hot pants mais a passagem desértica de fundo… baita foto. Tá, voltou em 2012, mas, cara, teve Snoop Dogg e o holograma do Tupac. Histórico! E teve ela, de coroa de flores na cabeça e poncho com motivos peruanos, porque tava frio aquele ano e poncho tava na moda, motivos peruanos também, e poncho com motivos peruanos mais a passagem desértica… baita foto. “Mas mataram o Coachella.” E ela, doente de FOGO, foi afogar as mágoas num outro festival, lá no deserto de Vegas, do tipo que mistura música e meditação, porque o momento é zen (parece que a coroa de flores voltou) e o Burning Man tá queimado, povo só vai pra postar o look, sabe? “Ela” sofre da nova fobia pós-moderna que vem assombrando não só, mas principalmente, a turma do sempre à frente. Deu no NY Times: FOGO, o tal fear of going out, refere-se à sensação de que frequentar os eventos que todo mundo posta parece muito mais assustador do que atraente. Mal dos novos tempos, que atinge quem vive conectado. Maldito overpost. Ou seja: é o oposto do FOMO, o fear of missing out, outra fobia pós-moderna que ganhou voz com o mesmo Coachella. Mas isso era 2011. E em 2011 teve Arcade Fire e Kanye West, lembra? E coroa de flor na cabeça ainda era mara, e falar mara ainda era mara. Como será que se fala agora?
Quem sofre de FOGO não quer ir a St. Barths, e não, não é recalque. “Vai na # pra ver”, me desafia ela, que optou por pular (ok, nem foi convidada) o casamento da blogueira no Caribe – 2.602 posts, apenas na # mais famosa. #FOGO! Casamento postável só se for na Normandia. Licença cibernética para as mil e uma noites de amor (as fotos não passam de mil, importante para se manter o desejo virtual). No réveillon, vai pular Trancoso, porque, você sabe, né, só tem hippie de butique que vai ao Quadrado com bolsa Chanel e coroa de flores. Um horror. Ela ia, eram outros tempos. E nunca, nunca usou uma bolsa Chanel por lá, embora tenha várias, herança de família. Já a coroa… Este ano estava pensando em ir pra Chapada, a dos Veadeiros, é alucinante e tá cheio de gringo fazendo da cachoeira sua casa. É que o mundo tá numa fase paz e amor. Mas, sério, deu overpost no Corpus Christi. E mais é menos, sempre, pelo menos agora. Ela foi antes, pra Chapada, digo. Agora vai para um destino afrodisíaco com a sua turma. Fora do Brasil. Mas o lugar ela não fala. Imagina se cai na boca do povo? Aí é FOGO na certa.
No mais, fuja pro Atacama e poste vídeo em slow motion da lhama. No verão europeu, Ibiza ainda vale, mas é “outra Ibiza”. Tem de conhecer as pessoas certas pra não sofrer de FOGO (nem causar, importante frisar), curtir o pôr-do-sol sem queimar o filme e a rede. Pode postar, melhor se for foto de costas, moldura quadrada. Mykonos ainda rola, tem tanta praia foda fora do circuito. Se fizer o roteiro certo, passa incólume às tatuagens temporárias e correntinhas de ouro em cinturinhas de pilão. Mas note: é bom ter cinturinha de pilão (sem corrente), porque in mesmo é fazer nudismo. E o corpo tem de corroborar (não por uma questão estética, mas é que, com a onda dos orgânicos plus exercícios funcionais ao ar livre, ser gostosa é consequência, não objetivo). Portugal também pode. Além de Comporta, claro. Tentei ligar pra saber qual a praia, mas ela, que anda numa fase xamânica, tava sem sinal. Sem sinal é super in. Quando voltar, vai postar só uma foto, sem localização, porque vai que cai na boca do povo! Pra falar a verdade, quando isso acontece, ela até gosta. Não assume, mas sabe que é tipo a roda viva do hype (não é mais hype que fala). Ela descobre, mostra pro resto, o resto vai, ela reclama. Mas aí já tá longe, tomando ayahuasca e abusando dos acessórios indígenas – se for esperta, faz uma coleção, já que joia agora é amuleto, e ainda ganha uma grana com isso. Em comum, ela e os outros têm o vício pelo post, um é velado, o outro, descontrolado. Mas tudo bem. Quando descobrir que seu último destino foi tomado (#FOGO!) e que bolsas Chanel (ops, Mansur Gavriel) andam frequentando seus centros xamânicos, já vai estar em outra – possivelmente, numa casa, porque, indoors é o melhor antídoto contra o #FOGO. E, na dúvida, vá pra Piracanga, sempre. Porque João de Deus tá fogo…