Foto: divulgação
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Por Mariane Morisawa

Jane Fonda tinha 17 anos quando pisou num palco pela primeira vez, ao lado do pai, numa montagem beneficente da peça The Country Girl. Nunca mais saiu dos holofotes. Aos 78, a atriz e ativista está mais relevante do que nunca. Em janeiro, concorreu ao Globo de Ouro pela 12ª vez por A Juventude, do italiano Paolo Sorrentino – sua última indicação tinha sido em 1985. Perdeu o prêmio de atriz coadjuvante para Kate Winslet (Steve Jobs), mas é um feito e tanto: sua Brenda Morel, uma diva decadente do cinema, aparece apenas em duas cenas, no terço final do longa-metragem. Nos últimos dois anos, arrasa sempre no tapete vermelho, com escolhas ousadas. E não deixou seu ativismo de lado, escrevendo sobre feminismo na newsletter Lenny, de Lena Dunham, e discursando contra o pré-candidato à presidência dos Estados Unidos Donald Trump.

Agora, ela estreia a segunda temporada de Grace and Frankie, a bem-sucedida série da Netflix produzida por Martha Kauffman (Friends) e Howard J. Morris e coestrelada por Lily Tomlin. “Nunca tive de ir a um estúdio todos os dias por cinco meses. É incrível”, diz a agora atriz de streaming no painel da Television Critics Association.“Estou amando ter um emprego estável como atriz assim, com esta idade.”

No programa de TV, ela interpreta Grace, que sempre fez de tudo para ser a esposa perfeita de Robert (Martin Sheen). Mas seu mundo cai quando descobre que ele decidiu sair do armário e vai abandoná-la para ficar com seu grande amigo e sócio no escritório de advocacia, Sol (Sam Waterston), que, por sua vez, está se separando de sua mulher, a esotérica Frankie (Lily Tomlin). Grace e Frankie nunca se deram bem, mas precisam conviver na casa de praia que têm em comum, gerando momentos de drama e comédia. Por trás das câmeras, a história é bem diferente. Fonda e Tomlin são amigas há quase 40 anos. “Temos um laço especial. Ela é engraçada”, comenta Jane.“Venho de uma família de deprimidos, então é muito bom conviver com alguém assim. Para mim, é uma catarse.”

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Jane Fonda sabe uma coisa ou duas sobre separações. Foi casada três vezes: com o cineasta Roger Vadim, pai de sua filha Vanessa, entre 1965 e 1973, com o ativista Tom Hayden, pai de seu filho Troy, entre 1973 e 1990,e com o empresário e fundador da CNN Ted Turner, entre 1990 e 2001, que descreve como seu ex-marido favorito. “’É horrível, você acha que sua vida acabou”, conta em conversa com Bazaar. “Mas, depois de um tempo, você pensa: ‘Se não tivesse acontecido, estaria presa nessa situação’. Agora, estou livre para me tornar outra pessoa. O que fiz muito!”

Jane Seymour Fonda é filha de um dos maiores atores da história de Hollywood, Henry Fonda (1905-1982), e da socialite Frances Ford Seymour, que cometeu suicídio quando a menina tinha 12 anos. Muitas vezes, a atriz falou sobre o relacionamento difícil com o pai. Em um texto para a Lenny, escreveu: “Ele mandava minhas madrastas me dizerem para eu perder peso e usar saias mais compridas. Uma delas disse tudo o que eu precisava alterar fisicamente se quisesse ter um namorado. Enquanto isso, eu meio que… ia ficando vazia”.

Durante um bom período, lutou contra distúrbios alimentares. “E, instintivamente, escolhi homens que jamais perceberiam nada disso por causa de seus próprios vícios e ‘problemas’. Ah, mas eles eram interessantes, carismáticos, machos alfa e me legitimavam. Se estavam comigo, é porque eu deveria ser alguém”, escreveu. Acrescenta que, na verdade, deveria ter ganhado alguns Oscar por sua vida pessoal. Na carreira, foram duas estatuetas douradas, por Klute – O Passado Condena (1971), de Alan J. Pakula, e Amargo Regresso (1978), de Hal Ashby. Ela também concorreu em outras cinco ocasiões, inclusive por Num Lago Dourado (1981), de Mark Rydell, que fez para se reaproximar de seu pai. Pelo trabalho no filme, Henry Fonda levou seu único Oscar, recebido pela filha – o ator morreu poucos meses depois da cerimônia. No velório, um maquiador contou como Henry falava com orgulho de Jane.“É estranho saber pelos outros o quanto seu pai te amava”, diz a atriz, lutando para segurar as lágrimas.

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Levou um tempo, admitiu à Lenny, para entender o feminismo, que considerava uma causa menor em relação às outras. Nos anos 1970, prejudicou sua carreira ao visitar o Vietnã do Norte na época da guerra contra o sul, apoiado pelos Estados Unidos.Ainda é chamada de traidora por alguns por causa disso. Nos anos 1980, reinventou-se ao se tornar musa fitness com seus vídeos de aeróbica. Em 1990, época em que se casou com Ted, abandonou a carreira, retomada apenas em 2005, com a comédia A Sogra, de Robert Luketic.

Agora, considera o feminismo uma luta fundamental.“Não se trata de passar de um patriarcado para um matriarcado, mas de um patriarcado para a democracia. Feminismo significa democracia real”, escreveu na Lenny. Faz um tempo, parou de se preocupar com o que os homens acham ou deixam de achar.“Nunca vou me casar novamente”, disse recentemente à imprensa britânica.“Na minha idade, para quê? Para manter o amor vivo? Depois de três casamentos, obviamente não tenho muito talento para isso!”

Ela divide a casa com o produtor musical Richard Perry, seu namorado há seis anos. Lá, promovem festas dançantes animadas, que já contaram com a presença de atrizes como Elizabeth Banks e Ellen Page e o apresentador Bill Maher.“Espiritualmente e energeticamente, me sinto mais jovem do que quando tinha 20 ou 30 anos”, revela. “Tem tudo a ver com atitude, como você encara a vida. Naqueles tempos, eu estava deprimida, não era feliz. Hoje, vejo meu passado, mas também um futuro – e sinto que vai ser bom.”