Foto: Fernanda Candido

Jeniffer Dias, 30 anos, nunca tinha pensado em ser atriz. Nascida e criada na comunidade Coronel Leôncio, em Niterói (RJ), achava a profissão uma realidade muito distante e não se sentia representada na TV. Estudou até a oitava série em escola pública, quando conseguiu bolsa integral na escola particular em que era atleta de ginástica rítmica. Com o sonho de ter um emprego estável, se formou em gestão ambiental, começou a trabalhar e emendou no curso de engenharia ambiental para crescer na empresa.

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Foto: Fernanda Candido

Só que Regina Casé, ao vê-la em uma roda de samba em Bento Ribeiro, a convidou para um teste para o programa “Esquenta”, e em 2012 Jeniffer começou a trabalhar na TV e trancou o curso de engenharia no sexto período. “Foi uma decisão muito difícil porque na minha cabeça a engenharia era a garantia de um futuro tranquilo pra mim e pra minha família. Mas estar no programa era o que me fazia feliz. A partir do convite dela vi um mundo de possibilidades e vi que podia fazer parte desse universo”, conta.

A geminiana Jeniffer começou a estudar teatro. Fez a Escola de Atores Wolf Maya, Escola Sesc de Teatro, em 2016 foi convidada para a Trupe Cena, projeto de teatro da Globo, e em 2017 para o Afrobrasilidade, workshop ministrado por Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas, também na emissora. Logo depois, fez a personagem Luana na novela “Novo Mundo”. “Foi no teatro que descobri o quanto sou artista. Sempre gostei de cantar e dançar”, explica.

Em 2018, a atriz chegou em “Malhação – Vidas Brasileiras” como Dandara, causando um reboliço no colégio Sapiência. Filha do diretor da escola, era uma menina superempoderada, forte e ativista de várias causas, que não tolerava gente ignorante e preconceituosa. A personagem deu o que falar. Após a novela, Jeniffer se jogou no cinema. Filmou “Medida Provisória”, a convite de Lázaro Ramos, e a comédia “Ricos de Amor”, da Netflix.

No final de 2019, Jeniffer começou a se preparar para gravar a segunda temporada da série da Globo “Segunda Chamada”, em que vive Antônia, aluna da Escola Estadual Carolina Maria de Jesus. A personagem trabalha durante o dia, estuda à noite e está ligada aos diversos problemas da questão feminina e preta, assim como a atriz.

Com a paralização do trabalho devido à pandemia e à quarentena, Jeniffer e o namorado, o comediante Yuri Marçal, produziram em casa um média-metragem, uma comédia romântica, com uma equipe majoritariamente preta escolhida por eles. Além de produzir, a atriz dirigiu e protagonizou com Marçal o filme, que está na fase de edição.

Jeniffer é ainda uma das idealizadoras do Projeto 111, uma proposta de resistência artística onde a arte é respeitada e valorizada, a partir do encontro de artistas de diversas localidades e vertentes. “Nosso diferencial é juntar novos artistas de dentro e de fora da periferia e induzir de alguma forma que esse encontro gere frutos”, diz. O projeto já teve cinco edições.

Leia a seguir entrevista da artista dada à Bazaar.

Foto: Fernanda Candido

Você e Yuri Marçal moram juntos? Há quanto tempo estão namorando?

Moramos juntos e estamos namorando há um ano e sete meses, noivos há um mês.

Quantos anos tinha quando foi convidada para o extinto “Esquenta”, de Regina Casé?

22 anos.

Foto: Fernanda Candido

E quando passa a se interessar por teatro? Com quantos anos foi se preparar para os palcos? Como foi começar no teatro ao largar engenharia ambiental?

Eu realmente não pensava em ser atriz porque era uma realidade muito distante da minha, não me sentia representada na TV, não via ninguém parecido comigo. Então, na minha cabeça, era um lugar em que pessoas como eu não tinham espaço. A única coisa que eu queria era ter estabilidade financeira. Quando passei no teste para o “Esquenta”, comecei a trabalhar com a Regina [Casé] no programa, em 2012, e decidi trancar a engenharia. Foi uma decisão bem difícil porque, na minha visão, a engenharia era a garantia de um futuro tranquilo para mim e para minha família. Mas estar no programa era o que me fazia feliz, de fato. Foi a partir do convite da Regina que vi um mundo de possibilidades, e vi que eu também podia fazer parte daquele universo todo. Comecei a estudar teatro e foi lá que descobri o quanto sou artista. Sempre gostei de cantar e dançar, desde pequena. Minha mãe sempre amou escola de samba e meu padrasto, o Ernani, um cara incrível que eu tenho a sorte de ter perto, fazia parte de um grupo de pagode, o grupo Pirraça. Ele toca violão e cavaquinho, e eu tive contato com esses instrumentos em casa. Lembro dele tocar as músicas no violão e eu acompanhar no canto. Sempre gostei disso.

Pretende terminar o curso em algum momento?

Não, não tenho vontade, não tem mais nada a ver. Rs Qualquer curso que eu vá fazer, provavelmente, deve ser ligado à arte.

Foto: Fernanda Candido

“Malhação – Vidas Brasileiras” foi um divisor de águas na sua carreira?

O processo foi todo muito rápido. Fiz o teste, passei, experimentei o figurino e comecei a gravar em duas semanas, com a trama já em andamento. A visibilidade de “Malhação” é incrível e foi a produção que me abriu portas, com certeza. Dandara era uma personagem forte, que falava de assuntos importantes. Isso, de alguma forma, abre a consciência do telespectador (que falando de “Malhação”, tem um público bem abrangente) para o que está acontecendo na nossa sociedade, e levanta discussões ótimas. Para mim, esse é um grande poder da dramaturgia, transformar pessoas e levantar discussões.

Como está o seu Projeto 111?

Assim que a pandemia passar pretendemos realizar uma edição presencial, não achamos seguro voltar e colocar nossas vidas em risco.

Como ele funciona exatamente?

O projeto 111 começou de uma vontade de movimentar os circuitos artísticos com diversidade de cultura e com experiência de troca. Ele se consolidou enquanto resistência, onde a arte é respeitada e valorizada, a partir do encontro de diversos artistas, de diversas localidades e vertentes. Nós não estipulamos um valor fixo de entrada, pois acreditamos  que investe no projeto aquele que tem recurso pra isso. Quem no momento não pode investir financeiramente, agrega de outras maneiras possíveis. Nós entendemos a arte como um agente transformador e até pedagógico, sendo indispensável numa construção social que pretende ser inclusiva. Nosso diferencial é juntar novos artistas de dentro e de fora da periferia e induzir de alguma forma que esse encontro gere frutos. O evento tem debates, shows, poesias, artistas plásticos e exibição de produções de coletivos marginais da cidade.

Foto: Fernanda Candido

Tem algum convite para novela, filme, série?

Finalizei as gravações, no Rio de Janeiro, de um filme para uma plataforma de streaming (ainda não posso contar detalhes), e já emendei nas filmagens de “Rensga Hits”, série da Globoplay. Serei uma cantora sertaneja que canta desde pequena e que tem um irmão gêmeo. Nossa referência é a dupla Sandy e Junior. Foi uma delícia trabalhar com música (eu amo) e com um time supertalentoso e competente. Acabei de finalizar as gravações da série também.

Fale de sua personagem Antonia, em “Segunda Chamada”?

Antônia é guerreira como várias mulheres brasileiras. Trabalha de manhã (entrega comida por delivery, de bicicleta) e estuda à noite na esperança de ter uma vida melhor no futuro. Ela é do tipo que está muito ligada aos diversos problemas em torno da questão feminina e preta. Não precisei ir muito longe para construí-la. Eu nasci numa favela chamada Coronel Leôncio, em Niterói. Saí de lá ainda pequena. Minha mãe, por ter sido mãe muito jovem e não ter conseguido concluir os estudos, fez de tudo para que eu visse outros horizontes, e trilhasse um caminho diferente. Ela até chegou a cursar o ensino fundamental e médio numa escola EJA – Educação de Jovens e Adultos – (como a que Antônia estuda em “Segunda Chamada), trabalhando de dia e estudando à noite (assim como Antônia também). Eu acompanhei o processo, e não era nada fácil. A vontade que ela tinha de ter um diploma era o que a motivava na época. Assim como minha mãe, minhas tias tiveram uma realidade parecida. Eu cresci observando tudo isso e querendo ir além. Minha mãe, minha rainha, sempre me apoiou em tudo! E a história da minha família era o que me impulsionava. Me formei na faculdade, fui a primeira da família, e toda vez que falo isso me bate um grande incômodo, porque, infelizmente, as pessoas que eu mais amo não tiveram oportunidade e acesso à uma boa educação. Não tiveram acesso ao básico! E Antônia tem a história da minha mãe, das minhas tias, da minha avó, a minha história, e de tantas mulheres desse Brasilzão. O seu senso de justiça também vem daí. Uma justiça que é muito mais emocional do que racional. Visceral e urgente. De quem aprendeu sozinha que o certo é o certo sem pensar muito nas consequências.

Em que pé está seu filme com Marçal? Quando deve ser lançado e de que maneira?

Ainda estamos em fase de edição. Assim que estiver bem lindo, do jeito que queremos mostrar, lançaremos. Sem pressa.

Foto: Fernanda Candido

Como se vê como produtora e diretora?

Não me cobro muito e estou sempre estudando.

Como cuida da beleza, tem algum ritual? E o cabelo, está fazendo algo diferente neste momento?

Eu acabei de viver um personagem que em cada cena tinha um penteado diferente. A Thamyres, da série “Rensga Hits”. Então estou mantendo meu cabelo natural, hidratado, para que eu possa ter o cabelo que a personagem pede.

Foto: Fernanda Candido

E do corpo, como cuida? Gosta de esportes ou academia?

Procuro me exercitar todos os dias. Amo meditação e exercícios de equilíbrio com força. Se estou em algum hotel que tem academia, vou até a academia. Se não, faço em casa mesmo. Tenho um irmão personal que sempre faz umas séries pra mim.

Você é ligada em redes sociais? Como lida com elas?

Eu não sou muito ativa. Posto mais sobre trabalho, acontecimentos importantes do dia. Porque quando estou trabalhando em uma série ou em um filme, as redes sociais tem a tendência de me tirar um pouco do foco. É muita informação, né? E se a gente não filtrar legal, a gente se perde.

Foto: Fernanda Candido

O que tem lido e assistido?

Estou lendo “Torto Arado”, do Itamar Vieira Junior e assistindo “Insecure”, de Issa Rae. Indico a leitura e a série. São dois conteúdos super importantes. Estou no meio do livro, mas ele já venceu vários prêmios e fala de um jeito bem específico, do nosso povo. E a série é o meu xodó. Fala, entre outras coisas, da insegurança de uma mulher negra.

Créditos

Fotos: Fernanda Candido.

Vídeo: William Liborio.

Styling: Samantha Szczerb.

Beleza: Titto Vidal.

Trancista: Larissa Garcia.

Agradecimentos: Santuario Botafogo, Atelier Silvio Cruz, Inti e Segheto.