Jess Vieira cria séries de telas inspiradas pela confluência do cerrado com a mata e o mar
Jess Vieira em seu novo ateliê, em Salvador – Foto: Divulgação

Uma viagem imersiva aos cânions da Chapada Diamantina, na Bahia, em junho, fez Jess Vieira mergulhar em um trabalho figurativo, com quê de realismo fantástico, por meio da pintura na série “Tudo o que Carrego”, em que explora a tinta acrílica, conchas, costura e materiais têxteis. Sem saber ao certo quantas obras devem ganhar vida, o desenrolar desta coleção segue até o fim deste ano.

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Os trabalhos reflexivos são complementares ao antecessor “Quando o Cerrado Encontra o Mar”, do fim de 2019, resultado de uma visita libertadora a Floripa, em Santa Catarina. “Essa questão da natureza sempre foi muito forte em mim, antes era muito voltada à terra”, explica a artista, natural de Gama, cidade-satélite da capital federal. “Recentemente, entendi por que minhas personagens são avermelhadas. Em Brasília, praticamente todas as minhas roupas e calçados ficavam meio amarronzados porque havia terrenos baldios e ruas de barro vermelho.”

Na nova série de trabalhos, mulheres pintadas em tons terrosos exalam calma. Há sempre um desejo de seguir adiante, mas sem pressa. Por exemplo, uma dessas obras foi muito dolorosa e ela detalha: “Essa mulher carrega um peixe no pescoço, tem flores e fundo em tons arroxeados. Me lembra muito um pôr-do-sol. Ela não está feliz e nem sempre a gente precisa se sentir assim. Nos momentos mais profundos de conexão comigo mesma, estava em tristeza.”

Jess Vieira foge de narrativas óbvias. Prefere explorar elementos simbólicos como complemento à figura humana desconstruída. “Nos corais do brinco, no olhar dela, no cabelo. Dão sua mensagem, mas tem de estar atento”, indica. “O peixe simboliza o renascimento. A gente está se refazendo o tempo inteiro. O mar e a água trazem liberdade, fluidez e sensação de pertencimento a algo muito maior.”

Jess Vieira cria séries de telas inspiradas pela confluência do cerrado com a mata e o mar
Obra “Carrego meu Renascer” – Foto: Divulgação

Flertando com a simbologia do mar, ela traça um paralelo com a individualidade de cada ser humano, muito disseminado pela psicologia junguiana. Em 2022, inclusive, pretende iniciar curso de arteterapia para dar ainda mais significados às criações. Atualmente cursando pós-graduação em Estudos Brasileiros pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), o silêncio da viagem à Chapada também foi curativo para criar.

“Dificilmente, me encontrei comigo mesma estando em um momento de extrema gratidão e alegria. E não digo para não aproveitar, descansar, se deliciar com o ócio. A tristeza faz refletir sobre coisas que não via até ali.” Tal viagem veio para suprir a falta de água doce. “Sobressai qualquer ida ao mar. Quando vou para a cachoeira, sinto uma sensação de limpeza e uma calmaria sobrenatural. E o mar vem com agitação. Como se fosse essa coisa do feminino e masculino. Me vejo muito como uma pessoa solar com essa conexão, mas nada muito roots ou hippie.”

Formada em Letras, não se adaptou à rotina de professora e acabou migrando para o mercado publicitário há alguns anos. “Ambiente tóxico”, em suas palavras. “Em parte da minha vida, não quis ser eu porque não lidava bem com as minhas sombras. Levei muito tempo para incorporar tudo e isso ainda está fluindo”, avalia. “Você fica sequelada pela questão estética ou porque tem uma personalidade que não pode transparecer”. Teve de encarar suas frustrações quando se viu em um mercado de trabalho no qual não se encaixava enquanto mulher preta e “ser sensível”, na capital paulista.

Ouvia as pessoas falarem de liberdade e ela própria se sentia presa para criar, experimentar ou ser ela mesma. Pediu demissão de um trabalho que gostava – depois de se sentir reprimida pelo anterior – para investir nesse acervo recente. Começou em 2018 com uma proposta digital, passou pela aquarela e agora segue com telas, acrílico e pintura acrílica e outras plataformas, que a autodidata vem aprendendo a mexer com curiosidade via internet.

Jess Vieira cria séries de telas inspiradas pela confluência do cerrado com a mata e o mar
A obra “Carrego meus Urucuns” – Foto: Divulgação

No início de 2020 teve a oportunidade de visitar Salvador, experimentando a capital baiana como uma local, graças ao namorado Fabio Sousa (a quem trata por “companheiro”), nascido lá. “Conheci um acolhimento de tempo que até então não experimentei nem em Brasília.” A viagem a fez perceber a urgência das coisas em sua vida e despertou um desejo de mudança. Na calmaria da capital baiana, encontrou refúgio desde março passado, quando se mudou e montou ateliê no próprio apartamento com vista para o Teatro Castro Alves. “Agora quero entender a relação com o mar, com a espiritualidade, essa cidade e onde nasci.” Por lá, encontrou diálogos afetivos e o acolhimento de pessoas da internet.

Para ela, a pandemia teve fases oscilantes, por vezes perigosas, onde se sentiu confrontada com a insegurança de abandonar uma carreira vista como promissora e se arriscar em outras plataformas, como arte têxtil e muralismo. Em suas pinceladas, vê-se inspiração na sutileza da mãe e os vínculos com as avós Maria Demercina e Maria José – esta última, falecida em 2019, a criou boa parte da vida. “Vêem as referências do meu trabalho como ancestralidade, mas gosto de dar nome às pessoas. Olhar esse passado e entender o que vou levar para frente”, diz. Dois conjuntos se entrelaçam e são eternizados nas suas pinceladas. “O que carreguei, o que quero levar, o que estou deixando.”

Em um nicho até pouco tempo atrás fechado para artistas pretos e corpos dissidentes, Jess é um feixe de luz que nos pede um pouco mais de calma ao admirar suas talentosas nuances.

 

Exalando feminilidade e calma, , após viagens imersivas e libertadoras