Por Luciana Pareja Norbiato

Regina Silveira. Foto: Rafael Assef
Regina Silveira. Foto: Rafael Assef

QUANDO ASSUMIU a joalheria que a mãe, Terezinha Géo Rodrigues, fundou em 1990, Jacques Rodrigues já estava à vontade no métier. O processo de desenvolvimento de joias foi assimilado naturalmente, vendo a mãe trabalhar. De professora, a mineira Terezinha tornou-se designer e passou a criar peças únicas, executadas por ourives que mantêm viva as técnicas da joalheria tradicional feita à mão.“ATalento impregnou nossa família.

Quando entramos na empresa, eu e minhas irmãs,Vanessa e Maria Tereza, já estávamos familiarizados com todos os processos, da procura pelas gemas mais raras aos desenhos, da produção à distribuição”, conta Jacques. A atuação em família só reforçou a meta da Talento: criar peças exclusivas que marcam momentos únicos, como o nascimento de um filho, a formatura, o casamento. Para isso, as joias têm de ser impecáveis, do design ao caimento. Até mesmo as tarraxas de brincos ganharam desenho próprio, mais largo, batizado de cashmere, para dar mais conforto e melhor sustentação.

Além das peças desenhadas por Terezinha e atualmente também por Vanessa, em 2015 Jacques procurava algo para comemorar os 25 anos da marca. Qual o próximo passo para uma grife em que a excelência é parte do DNA? Foi durante uma viagem ao instituto Inhotim que surgiu o estalo que faltava para abraçar o projeto Joia de Artista, criado pelo curador de design Waldick Jatobá.“Em Inhotim, percebi a sinergia entre o que fazemos e o que a arte propõe. Nossa visão é a de perpetuar técnicas e profissões que as novas gerações estão perdendo de vista, como o ofício dos artesãos”, explica o empresário.Tudo a ver com o projeto que traz anualmente, até pelo menos 2020, uma joia assinada por um artista, com tiragem limitada de dez peças.“Esse projeto é um antigo sonho que tenho. Não existia, até o momento, nada igual ao que já é feito no exterior”, diz Waldick. Ele se inspirou em galerias como a de Louisa Guinness, que conta entre suas peças com assinaturas de nomes como Ed Ruscha, Lucio Fontana e Anish Kapoor. Numa joalheria marcada pelo women power de sua fundadora, todas as obras do Joia de Artista serão assinadas por mulheres. “A Talento é uma empresa feminina, criada por uma mulher e com foco nas mulheres”, define Jacques. A estreia, no ano passado, lançou o mítico colar de Lina Bo Bardi, um turbilhão de pedras brasileiras em delicados engastes sobrepostos ao colo.

Joia em ouro branco com pedrasde coral cabochão e lápis-lazúli. Foto: Almir Pastore
Joia em ouro branco com pedras
de coral cabochão e lápis-lazúli. Foto: Almir Pastore

Agora, em 2017, é a vez de Regina Silveira imprimir sua marca. “O universo do design tem estado próximo à minha obra, especialmente por derivações diretas de meu trabalho gráfico. Na última década, tive boas parcerias com a moda e também pude desenvolver algumas joias, como o pequeno pendente luminoso que realizei para a abertura da Galeria Carbono, entre outros”, diz a artista. Ícones da obra de Regina Silveira, os labirintos deram forma ao bracelete em ouro amarelo, branco ou negro, com duas pequenas pedras de coral cabochão e lápis-lazúli engastadas. “Quase como dois personagens, a pedras podem se aproximar ou desencontrar nos caminhos labirínticos que percorrem toda a peça.

A ideia da interação e do jogo apareceu já nos primeiros desenhos”,conta Regina. Em formato helicoidal, o modelo, que envolve o braço assimetricamente, ganhou exposição na Luciana Brito Galeria, representante da artista, em São Paulo. Terminada esta edição, é a vez da dupla pensar na próxima escolhida do projeto. Segundo Waldick, “chego a uma short list de nomes e, com Jacques, analiso o perfil das artistas. Nem todas conseguem ultrapassar a barreira do bidimensional para o tridimensional. Devemos chegar a uma decisão em novembro. Surpresa até lá!”.