Joan Didion: a trajetória da autora que revolucionou o jornalismo literário
Foto: Brigitte Lacombe/Divulgação

Por Matheus Lopes Quirino

Depois de uma crise literária e um bloqueio criativo pesado, Joan Didion presenteou o mundo, em 1968, com uma das mais cultuadas reportagens sobre a juventude norte-americana. Narrou, entre outros, o movimento dos cabeludos que escandalizavam a América, no verão de 1967, em São Francisco, na Califórnia. Revolução de costumes que ficou eternizada na tríade: sexo, drogas e rock and roll.

SIGA A BAZAAR NO INSTRAGAM

O ensaio, publicado no The Saturday Evening Post, é venerado até hoje e empresta o nome ao livro “Rastejando até Belém” (editora Todavia), coletânea de seus mais célebres textos, lançada no Brasil em fevereiro. Em matéria de lide (os mandamentos clássicos de uma reportagem), Joan foi além: quebrou o mito da imparcialidade por meio de observações sagazes e texto refinado.

Com escrita delicada, Didion se agigantou como uma crítica dos costumes da sociedade norte-americana, retratando o movimento hippie e a contracultura com uma narrativa elegante e antenada às vanguardas e modas de seu tempo.

Cheia de personagens icônicos, a publicação traz a história das tietes com quê de Lolita aos roqueiros do Grateful Dead, que mais lembram uma desengonçada banda de garagem – à época chapando nos arredores do Golden Gate Park, venerados por outros destrambelhados. Ainda traça o perfil do “camarada” Laski, tipão atemporal que simboliza o amante do marxismo. Em uma ode ao Havaí, a escritora dá ares cinematográficos que remetem a Shangri-lá, do filme “Horizonte Perdido”. Também revisita a Alcatraz, de Al Capone, literalmente desértica e fadada aos escombros, anos após a prisão ser desativada.

Didion sempre foi uma observadora sagaz da política e da cultura, tendo colaborado ao longo de décadas com diversas publicações, entre elas as revistas Time e The New Yorker e Harper’s Bazaar. Quase sempre com um toque de humor, sua presença se funde aos acontecimentos e transforma tudo em literatura. Ainda que como testemunha ocular de fatos absurdos.

Camaleônica, infiltrou-se de gabinetes a passeatas, dando ares literários a situações banais do cotidiano. Ela estava no Golden Gate Park, subindo as colinas do Castro, bairro ícone de São Francisco que primeiro levantou as bandeiras humanistas e abraçou a diversidade. Também captou a essência de eventos singulares nas grandes cidades.

“Entre nove da noite e meia-noite do dia 26 de agosto de 1965, uma quinta-feira que teria sido comum, mas que, por ordem do presidente, foi o último dia em que alguém, simplesmente por se casar, poderia ser dispensado do serviço militar”, narra a jornalista, em um dos ensaios da publicação. Ali, 171 casais foram declarados marido e mulher no condado de Clark, em Nevada, 67 deles por um único juiz de paz.

Joan Didion: a trajetória da autora que revolucionou o jornalismo literário
Joan Didion ao lado do marido, o escritor John Gregory Dunne, e da filha Quintana, nos anos 1960 – Foto: Divulgação

A vida da menina de Sacramento que fez carreira nas redações de Nova York é marcada por tragédias. Do amor à filha Quintana, que veio a falecer nos anos 2000, aos escândalos que presenciara de perto, como o assassinato da atriz Sharon Tate, então mulher do cineasta Roman Polanski. “Muitas pessoas que conheço em Los Angeles acreditam que os anos 1960 terminaram abruptamente em 9 de agosto de 1969, no exato momento em que foi ao ar a notícia ‘Assassinato na Cielo Drive [residência dos Polanski]’, que incendiou o público em geral”, concluiu a escritora, à época. Vizinha de Sharon, ela escrutinou o caso, escrevendo sobre a vítima de Charles Manson e sua seita no livro “O Álbum Branco”, de 1979.

No campo jornalístico, infiltrou-se em manifestações icônicas de pautas progressistas, como a Marcha Pela Paz, em 1970. Freelancer full time, é expoente do New Journalism, ao lado de Janet Malcolm e Truman Capote, mas até hoje não se considera uma boa repórter: tem pavor de telefones e credita seus sucessos à baixa estatura e à temperança.

Discreta, prefere se distanciar dos holofotes, o que facilita o trabalho de um jornalista investigativo. Tem 16 livros publicados e seu best-seller, “O Ano do Pensamento Mágico”, recebeu o National Book Prize, em 2005.