Foto: Vince Aung

Por Allan Tolentino

A proximidade com que escreve sobre sentimentos é o que permite Julia Michaels deixar sua marca na música. Nos últimos anos, conquistou duas indicações à maior premiação da indústria, o Grammy – como a de artista revelação em 2017 e canção do ano, neste 2021, pelo single If The World Was Ending, colaboração com o músico canadense JP Saxe. Espécie de acampamentos para fazer música são comuns lá fora, onde o foco nos sentimentos são a tônica para as composições. O de 2019, em especial, lhe rendeu mais do que tracks boas, mas também um relacionamento com o músico canadense, que serviu também de inspiração para o álbum Not in Chronological Order, lançado em abril. Juntos, deram vida à Little Did I Know, que a fez perceber que escrever uma canção não depende de sentimentos amargurados ou relações tóxicas.

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O conforto de um relacionamento também pode inspirar, mas não apenas isso. Como ela bem explica: “estar apaixonada e feliz não significa que não tenha mais coisas que me atrapalham todos os dias, como ansiedade ou depressão”. Apesar dos feitos, Julia dribla sentimentos tão comuns a quem sofre de síndrome do impostor. No recém-lançado álbum, um universo se abre para quem vive as coisas de forma honesta e, ao mesmo tempo, vulnerável. As faixas vão de uma pegada mais romântica ao piano, como a composição com o namorado, a um som mais dançante, influenciado pela House Music dos anos 1990 de Lie Like This. “Esse álbum foi desafiador porque sempre achei que precisava fazer música derivada da toxicidade para que ela fosse grande”, conta.

Não importa a estética, Julia é sempre direta em suas músicas para lá de pop. Assinatura desde o primeiro sucesso da carreira solo, a faixa Issues (2017). “Sempre fui atraída por músicas que parecem conversas, tento trazer essa sensação como falar com alguém que está ao seu lado no sofá, te contando algo”, narra à Bazaar por telefone. Nomes dos mais influentes da última década da música pop, suas estrofes são verborrágicas, suas letras emocional. E vale lembrar que ela tem apenas 27 anos. De um lugar muito respeitado na indústria da música, seu portfólio inclui Sorry, de Justin Bieber, e Lose You To Love Me, de Selena Gomez, além de participações em faixas com Niall Horan, Maroon 5, Lauv e Shawn Mendes. Confira a íntegra da entrevista:

Já faz quase dez anos que você escreve com e para outros artistas. Os parâmetros de sucesso da música mudaram com as plataformas de streaming e o Tik Tok. Nessas sessões de composição em Los Angeles, você sente que tem uma tendência – ou uma pressão – de fazer um hit viralizar?
É uma boa pergunta! Não faço isso [de escrever para viralizar]. Mas deveria, provavelmente! Ainda tento fazer música que toque as pessoas. Não faço, mas eu deveria sim!

Alguns artistas têm um certo julgamento de quem faz isso, né? Você não pensa assim então?
Não mesmo! Cuidem da suas vidas. Se é assim que você consegue vencer, então parabéns, vá atrás disso.

Desde 2017, você lançou diversos projetos, entre eles três EPs. Este é o seu primeiro álbum. Houve diferença na mentalidade em seu disco de estreia?
Sim, sinto que quando estava fazendo os EPs, estive bem amarga sobre amor. Vivia corações partidos bem intensos e não sabia se estava pronta para um álbum naquele momento. Acho que precisei amadurecer um pouquinho e sair dessa dor, não aceitando mais migalhas de ninguém. Pela primeira vez, senti “opa, quero escrever sobre você e para sempre”, o suficiente para um álbum.

Em 2019, na faixa Happy, você admitiu que sente por estragar os relacionamentos para ter criatividade na arte. Mais estável e em um relacionamento que te faz bem, tem medo de que sua criatividade seja afetada de alguma forma?
Não, não! Estar apaixonada e feliz não significa que não tenha mais coisas que me atrapalham todos os dias, como ansiedade ou depressão. Não significa que me sinta boa o suficiente. Esse álbum foi um bom desafio, porque sempre achei que precisava fazer música derivada da toxicidade para que ela fosse grande. Até escrever Little Did I Know com a pessoa que amo e sobre nosso amor. Isso me mostrou que posso escrever uma boa canção de um lugar confortável. A sensação foi ótima!

Antes de ter sua carreira e se tornar uma figura pública, você já era amiga de celebridades – como Selena Gomez, com quem tem uma tatuagem da amizade. Você sente que ver a fama de fora te preparou de alguma forma?
Não me considero realmente famosa, só alguém que faz música e pode fazer o que ama todos os dias. E também não considero as pessoas com quem tenho amizade como famosas, apenas são minhas amigas. Não sei… não tenho ideia!

Conversamos há umas semanas com a Bebe Rexha sobre como a música pop está em um momento bem rock e girl power. Você também tem essa pegada rockstar. Você se vê assim?
Eu não sei, acho que não tenho respostas para nenhuma questão, porque essa pergunta é difícil. Não me chamo de rockstar, porque acho que o Post Malone ou o Swae Lee são rockstars, muito cool e únicos. Não me considero como sendo nada, exceto como alguém que espera que as pessoas gostem da minha música, e que ela ressoe. E que eu não soe uma merda, apesar de eu ser (risos).

Foto: Vince Aung

Engano seu… Tudo seu está funcionando muito bem. Em 2016, você esteve no Brasil para o encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio. Tem alguma lembrança especial daquele dia?
Fui para aí apenas uma vez, quando cantei com o Kygo nas Olimpíadas. Foi uma das minhas primeiras apresentações da vida, então fiquei muito assustada. Acho que tive um apagão, não me lembro de estar cantando. Lembro de comer pizza no meio da noite depois do show. E explorei [a cidade] um pouquinho no dia seguinte, mas já tinha que voltar pra casa. Mas lembro ser muito lindo e colorido. Todo mundo foi muito gentil!

Suas composições sempre têm uma honestidade intensa… será que podemos traçar um paralelo com seu signo? Você é de escorpião, certo?
Sou com certeza! SIM, eu não sentia isso há dez anos, mas quanto mais velha vou ficando, vejo algumas características nas pessoas e penso “ah você deve ser desse signo”, e eu acerto. Percebi que algumas pessoas com quem trabalhei por muito tempo têm o mesmo aniversário, pessoas que mudaram minha vida, igualmente. Isso não pode ser uma coincidência!

Com tanta intensidade, você já sentiu que alguém foi um tanto reticente em entrar na sua vida e acabar em uma música?
Ah, eles deviam ter esses medos! Essa é a minha resposta.

Mesmo quando você está colaborando e escrevendo com outros artistas, o resultado ainda tem a mesma efervescência e vulnerabilidade. É difícil criar um ambiente seguro para expressar tudo com algum artista que você acabou de conhecer? Você fica ansiosa?
Não diria que fico ansiosa, mas, certamente, tensa. É diferente. Ainda fico nervosa quando tenho um dia no estúdio com pessoas novas, ou até com quem já trabalhei antes. Sempre quero fazer algo que seja interessante e único, nada que seja medíocre ou blasé… Então coloco muita pressão em mim mesma para fazer algo realmente ótimo. Porque, senão, sinto muita frustração.

Seus dias devem ser uma loucura, entre escrever letras autorais, para outros artistas, ir ao estúdio, dar entrevistas e se comunicar com os fãs nas redes sociais. Você consegue arrumar tempo pra algum ritual de autocuidado?
Não é sempre, mas tento arrumar tempo para isso. Um dia típico pra mim é acordar e tentar tomar um banho, porque amo isso logo pela manhã. Passar um tempinho com meu companheiro, fazer exercícios… mas, sendo honesta, nem todo dia. Geralmente, tenho uma ou duas entrevistas pela manhã. Depois, saio para compor e, com sorte, volto em um horário decente. Aí como e assisto a alguma coisa (na TV), fico nas redes e durmo… e tudo se repete.

Falando em série, você pode dar uma dica do que você assistiu recentemente e curtiu?
Tenho assistido a muita coisa! A nova temporada de Handmaid’s Tale está incrível e tenho assistido. Acabei de terminar Mare Of Easttown, que também é ótima. Estou vendo Cruel Summer, é bem boa. E Hacks, que é hilária!


FYI: Não é à toa que ela tenha assistido Hacks: uma das cenas mais engraçadas, do início da temporada, é uma brincadeira com a faixa Lose You To Love Me, de Selena Gomez, coescrita pela própria Julia. A série está disponível no Brasil pelo recém-lançado HBO Max.