Foto: Divulgação

Sempre houve um certo frisson da mídia em torno da vida pessoal de Kehlani, tanto ou mais do que por sua própria música. Seu nome circulou pelas páginas de gossip na gravidez da pequena Adeya Nomi, de 2 anos, na perda de uma amiga para as drogas, na separação de Javie Young-White (pai de sua filha), no namoro recente com YG e no fato de ela se identificar como queer.

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Mas a cantora californiana está disposta a contar sua história diferente daqui para frente. Resolveu zombar, ela mesma, dessa obsessão na nova fase: a do álbum “It Was Good Until It Wasn’t” (Warner) – seu segundo de estúdio. A brincadeira em torno do nome surgiu em um papo com Drake, na casa do rapper canadense, antes do período de isolamento social, claro. “Estávamos tendo uma conversa sobre a vida e do nada veio essa frase ‘estava tudo bem até não estar mais’, que ele achou legal e disse que deveria usar como nome do álbum”, relembra a cantora em papo com Bazaar, por telefone.

Dito e feito! Alcançou o segundo lugar no Top 200 da parada americana na estreia (perdendo apenas para NAV e ultrapassando até mesmo o padrinho, que lançou uma mixtape de músicas lado B naquela mesma semana de maio e ficou em terceiro no pódio).

Kehlani não está atrás de números, mas de uma conquista a cada degrau. Aos 25 anos, crê na premissa de se divertir enquanto trabalha. “Não ponho muita pressão, não acredito nisso. É algo que quero fazer pelo resto da vida. Quando você pensa demais no assunto, é algo que começa a se focar e a se importar muito. Quero que todo mundo veja minha carreira não só baseada em números e apenas me importar se estou feliz com a minha arte.”

Kehlani não tem tanta certeza se este álbum ganhou aclamação dos fãs e comentários positivos da crítica porque traz o amor de um jeito menos romântico e mais real, com roupagem pop e temas como relacionamento aberto, sexo e maturidade. “É o que é”, resume.

Mas não por isso é menos autobiográfico, já que fala de corações partidos. A empolgação se arrefece ainda mais quando questionada se seu recente término a influenciou de alguma maneira. “O álbum é sobre términos, então…. Sim, com certeza!”

Por outro lado, está feliz ao ver que as pessoas estão se identificando com sua jornada musical – iniciada em 2011, quando participou do “America’s Got Talent”, reality que revelou a banda Poplyfe, da qual fez parte mas desistiu de seguir em frente e só voltou ao spotlight em 2013, em carreira solo, divulgando música pela plataforma Soundcloud.

Lançar um álbum no meio de uma pandemia não é tarefa das mais fáceis. Ela relutou, falou com o empresário e o selo, até que o trabalho ganhou vida. Ao invés de shows ao vivo ou apresentações em programas de TV, uma audição direto de sua garagem entrou no lugar, com transmissão ao vivo pelo YouTube para apresentar aos fãs o álbum, que estava pronto havia dois meses. “Pessoalmente, gostei muito. Mais divertido, tive a chance de mostrar um lado criativo de fazer as coisas do que sair por aí divulgando.”

Esse lado criativo a que se refere são os clipes “quarantine style”, que ela e a fotógrafa Brianna Alysse se desafiaram a fazer. Online, compraram câmera, estabilizador e programas de edição de imagem. Com acessórios em punho, produziram, gravaram e editaram elas mesmas com apoio do diretor Hyphy Williams à distância.

A sequência com cenas em que ela se maquiou e se produziu toda vão de uma simples jam session no jardim de casa e um banho de banheira (acompanhado de mimosa e de uma inebriante vista no meio da floresta) até movimentos de dança em uma Zoom party e breve passagem pela região desértica de Los Angeles, disponíveis para apreciação em seu canal.

Conhecida no meio do hip-hop e R&B há bastante tempo, ela tem a um clique de distância telefones de gente como Cardi B, Justin Bieber, G-Eazy, Calvin Harris, Eminem, Normani, Ty Dolla $ign, Teyana Taylor e Zayn (o ex-One Direction). Chegou a lançar feats com todos estes. Mas foi recentemente que se realizou. “Fiz minha colaboração dos sonhos nesse álbum, com o James Blake“, comenta ela, citando a faixa “Grieving”. “Música é muito melhor quando você faz com seus amigos. Então, me certifiquei que todas as pessoas que trabalharam (no álbum) me importavam.”

Presa em casa, entre os cuidados com Adeya Nomi e a lavanderia, tenta se manter criativa. “A música em si mudou a minha vida. Minha filha mudou minha vida, minha maturidade mudou minha vida e o álbum é só um complemento disso”, pontua. Com a preocupação de quem tem outras histórias para contar, foi recentemente às ruas americanas nos protestos do Black Lives Matter e anunciou no Instagram outra grande conquista: uma casa para chamar de sua.

Um belo jeito de começar a contar novas histórias. Não é que, no fim, deu bom!?