Laila Garin – Foto: Nana Moares

Atriz e cantora Laila Garin é uma espécie de ser movido à arte, não vive sem. Fora a atuação, apenas deu aulas de francês e de canto para ganhar dinheiro. Atualmente em cartaz com a peça de grande sucesso “A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa”, ela tem vários projetos em andamento, na música, nos palcos e no audiovisual. Formada em em teatro pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), além de canto lírico, ela também estudou dança. Sua primeira vez nos palcos foi aos cinco anos de idade, com 17 entrou na faculdade e com 18 já atuava profissionalmente, bombou e não parou mais.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Fez muitos espetáculos na Bahia, sua terra natal, e, de Salvador, partiu para a França, onde fez teatro de pesquisa e de depois para São Paulo, onde estudou teatro musical e audiovisual. A lista de trabalhos é extensa, e conta com muitos sucessos e prêmios. Sua primeira novela foi “Babilônia”, na TV Globo, e ali viu sua fama se tronar nacional. Depois vieram séries, como “3%” e “DOM”, que levaram seu nome a fronteiras internacionais, devido ao estrondoso sucesso. “É uma série internacional e mais teen [“3%”], e falo com pessoas do mundo inteiro, que dizem que adoram a minha vilã. E é muito legal, recebo pela internet beijos da Alemanha, da Índia, é muito lindo”, conta. 

Mas o sucesso não é à toa, suas aparições no teatro e no cinema também lhe renderam grandes interpretações, como em “Elis, A Musical”, em que representou Elis Regina, e “Chacrinha – O Velho Guerreiro”, quando deu vida a Clara Nunes, sempre usando a voz paralelo ao corpo.

Aliás, cantar e interpretar é o mundo perfeito para Laila, que diz que unir essas duas artes é algo de que gosta muito, como faz também em “A Hora da Estrela e O Canto de Macabéa”, que após temporada no Rio segue para o importante Festival de Teatro de Curitiba, em abril, quando deve repetir o que aconteceu nas temporadas anteriores – casa lotada e ingressos esgotados. “Estávamos ainda com capacidade reduzida por conta da pandemia [na temporada de São Paulo], não é que lotamos um Maracanã, mas é muito bonito ver como as pessoas estavam loucas para entrar em uma sala de teatro e a intensidade desse encontro, porque o público passava horas aplaudindo, não queria parar de aplaudir.”

Laila também pretende lançar um disco solo, entregando-se mais à música, mas só depois de fazer uma turnê com a peça por cidades do Brasil e de cantar com Chico César, autor das músicas do espetáculo. Eles já gravaram o single “Vermelho Esperança”, disponível nas plataformas de música, e há ainda o álbum da peça. 

Laila conversou com a Bazaar via Zoom, leia a seguir íntegra da entrevista.

Já trabalhou com algo que não fosse como atriz?

Eu já dei aula particular de francês e de canto, fora isso nunca trabalhei com outra coisa na vida.

Como começa sua carreira, lá atrás?

A primeira vez que subi em um palco eu tinha cinco anos de idade. Desde criança eu sempre tive contato com dança, com música, minha mãe era produtora cultural. Com 11 anos eu fui fazer teatro e com 13 canto, porque cantava no teatro e fui estudar canto lírico. Aí quando eu fiz 17 anos fui fazer vestibular e, entre teatro e canto, eu fiquei com o curso de teatro. Com 18 anos já entrei no mercado profissional, fui ver uma peça com José Possi Neto em Salvador e antes mesmo de terminar a faculdade eu já entrei no mercado, foi um boom e eu nunca mais parei. Fiz muitos espetáculos na Bahia com equipes do mundo inteiro, porque o Teatro Castro Alves tem um projeto que traz diretores de vários países. De lá eu fui para a França, onde fiz teatro de pesquisa e de depois para São Paulo, onde fiz teatro musical e audiovisual. 

Laila Garin e Chico César – Foto: Nana Moares

Quais trabalhos de sua carreira você destacaria?

Tem Elis [“Elis, A Musical”], que me deu um reconhecimento nacional, apesar de ser teatro, não ser TV, que chega a muitos mais pessoas, e a partir daí pude fazer mais audiovisual, ganhei muitos prêmios, foi algo fora do mediano. Eu destaco também o meu trabalho com a Casa Laboratório, dirigida por Cacá Carvalho, em São Paulo, onde eu desenvolvi treinamento como atriz, treinamento físico e vocal, então é muito importante, eu considero a minha segunda formação depois da Universidade Federal da Bahia. Tem o “Gota D’água [ A Seco]”, que é uma adaptação de Rafael Gomes, é um trabalho muito importante que fiz também como coprodutora. Com “Elis” eu ganhei um certo reconhecimento e ganhei uma certa responsabilidade de propor. E esse de agora, que é “A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa”, com essas músicas de Chico César, é uma coisa muito linda, e de ter acontecido uma pandemia no meio, está sendo muito intenso. No audiovisual eu gosto muito de “DOM”, que tem muito a ver com o sucesso da série. E minha primeira novela [ “Babilônia”, TV Globo], que na época teve muita repercussão com o beijo de Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro, que foi o início do fim do mundo – pois a gente ainda não sabia que o bolsonarismo existia e que o Brasil era tão reacionário e fascista,  também foi antes do 7 a 1 [referindo-se à derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014], antes do golpe [referindo-se ao impeachemant de Dilma Rousseff, em 2016] -, que eram duas senhoras se beijando, então ali o Brasil mostrou uma cara que eu não sabia que existia.Mesmo assim é muito maravilhoso você fazer uma novela das 21h. Eu disse ao Dennis [Carvalho, diretor], que era muito lindo, eu andava pelo Catete e as pessoas me mandavam beijos. E tem o “3%” também, que é uma série internacional e mais teen, e falo com pessoas do mundo inteiro, que dizem que adoram a minha vilã. É muito legal, recebo pela internet beijos da Alemanha, da Índia, é muito lindo. Acho que destaquei alguns, mas é que cada um traz uma coisa nova, um é a autonomia, o outro o reconhecimento nacional, o contato com o público mundial, outro eu aprendi a relação mãe e filho e as drogas, cada um tem um aprendizado, para além do que ele significa para fora, para o público, para o mercado. 

Recentemente, você apresentou a peça “A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa” no Sesc, em São Paulo, com ingressos esgotados. Como foi isso?

Estávamos ainda com capacidade reduzida por conta da pandemia, não é que lotamos um Maracanã, mas é muito bonito ver como as pessoas estavam loucas para entrar em uma sala de teatro e a intensidade desse encontro, porque o público passava horas aplaudindo, não queria parar de aplaudir, com as pessoas chorando na plateia e nós no palco, então é uma comunhão muito potente, é como um louvor na igreja. Existem coisas que só acontecem entre ator e espectador ao vivo, é a magia do momento e o poder da arte, todo mundo saindo de alma lavada, palco e plateia. 

Como você criou sua personagem?

A primeira coisa que eu fiz foi parar de ver o filme [“A Hora da Estrela”], o clássico de Suzana Amaral, porque a personagem de Marcélia Cartaxo sempre foi uma referência, e fiz um trabalho muito intenso com o diretor André Paes Leme para poder compor essa personagem que é muito diferente de mim, que tenho muita força, muito tônus, sou muito reativa, bélica, até, na minha forma de falar. Mas através do diretor, de uma busca de relaxamento do corpo e de uma passividade e de uma paz interior, que eu nem sabia que existia. Foi assim que eu busquei a Macabéa, pelo amor e pela paz interior. 

Para onde vai a peça agora? Rio e Curitiba, no festival?

Exatamente, a gente está no Rio agora, e a gente vai para o Festival de Teatro de Curitiba, que é muito importante, é internacional, que estava online durante a pandemia, e agora é a primeira abertura dele para o público, então acho que vai ter essa mesma efervescência que a gente sentiu em São Paulo, é um momento bem especial. 

Como surge o single “Vermelho Esperança”, em que você canta com Chico César?

A gente lançou primeiro o single e depois o álbum. Chico criou a trilha sonora da peça, toda original, e conseguiu traduzir de forma fiel e transgressora a obra de Clarice [Lispector]. Essa música, “Vermelho Esperança”, pega muito no público e a gente percebe que ela tem uma vida própria, independente da peça. É um hino de esperança, mesmo. A gente já precisa de esperança sempre, mas nesses tempos terríveis que estamos vivendo, ela ganha uma importância ainda maior. Como o trecho “da lama nasce uma flor, vai ser a minha vingança, vermelho cor do amor”, então é lindo ver uma vingança através do amor, né? E que dessa lama toda vai nascer a flor de lótus, e tem uma hora que o público grita, por isso que eu falo dessa coisa de louvor, é um grito de esperança. É uma coisa tão bonita, as pessoas pediam para ter o álbum todo, e nós achamos que ele tinha seu lugar, porque as músicas, poemas, funcionam totalmente fora do contexto da peça, e são muito especias, diversas, vários estilos que ele criou, com arranjos lindíssimos de Marcelo Caldi. 

Como tem sido a receptividade do público, o que você tem sentido?

Tenho sentido um retorno lindo. Eu acho que a gente está precisando de arte, de literatura e de delicadeza, então é isso que eu tenho recebido de mensagem, todo mundo achando muito bonito, todo mundo muito emocionado. Não são músicas super comerciais, são poemas, mas muitas delas dão até para tocar na rádio, e acho que as pessoas estão sedentas de poesia. 

Conte sobre a série “FIM”, de Fernanda Torres? Quem é você na trama?

Eu sou par de Bruno Mazzeo, a série é uma adaptação da própria Fernanda e que fala sobre o fim da vida, são vários personagens, são quatro casais, mais ou menos, e tem a história deles. Então fala sobre o fim, sobre o tempo, as relações amorosas. É um projeto que está em fase de gravação, nós começamos a gravar antes da pandemia e tivemos que parar. Esse fim é o tema das nossas vidas, essa consciência que a gente tem, o ser humano sabe que vai acabar um dia e isso é muito doido. Não sei se os animais sabem, mas nós sabemos, e mexer nessa finitude é delicado. Mas a minha personagem não faz muito drama com as coisas, então eu estou aprendendo muito com ela. Ela se adapta às transformações que a vida propõe e segue. 

E “Só Se For Por Amor”, é outro projeto, aliás, você não para, hein?

Não quero parar não. “Só Se For Por Amor” sai neste ano pela Netflix, mas eu não posso nem falar ainda nomes de personagens, é uma série que tem muita música, a maior parte sertaneja, eu canto na série. É a segunda vez que no audiovisual vou poder misturar cantora com atriz. A primeira vez foi no filme do Chacrinha [“Chacrinha – O Velho Guerreiro”], onde fiz Clara Nunes, e agora estou cantando de novo como Gorete, é muito legal quando dá para juntar as duas coisas. 

E ainda temos “DOM”, que você já gravou também mas não tem data de estreia. Como foi isso?

A Marisa é mãe do Dom, a gente fez a primeira temporada, que foi um sucesso, também recebo mensagens do mundo inteiro por isso. Agora no final de janeiro, início de fevereiro, terminaram as filmagens da segunda temporada. Não dá para falar muito, mas é uma história muito sofrida, muito necessária também de ser contada. 

Quais são os próximos projetos?

Eu pretendo rodar algumas cidades do Brasil com “A Hora da Estrela”, voltar para São Paulo porque foi tudo esgotado, então a gente vai ter que voltar. Para você ter uma ideia, eu contratei um motoboy para ir à bilheteria do Sesc para comprar ingressos para as pessoas que conheço, e ele nunca conseguiu comprar, quando chegava a vez dele, já tinha esgotado. Eu não tenho ainda coisas para falar do meu próximo trabalho, mas eu quero fazer uma comédia. 

Laila Garin – Foto: Nana Moares

Pretende lançar um disco solo?

Pretendo, mas ele não tem forma nenhuma ainda, então nem tenho como falar. A minha atriz atrapalha um pouco a minha cantora, porque os projetos de atriz então indo e eu acabo deixando um pouco para depois esse disco. Quero sentir como vai esse álbum com o Chico [César], talvez fazer uns shows dele. 

Como você lida com as redes sociais, acha importante se posicionar sobre temas como causa negra e o feminismo, por exemplo?

Eu acho que vivemos em tempos em que temos que nos posicionar, mas eu acho também que temos de saber o lugar de fala, porque tem coisas que não é para você falar. Mas, sim, temos que nos posicionar, porque, afinal de contas, estamos falando das mesmas coisas, que sãos direitos humanos, empatia e igualdade social. Então diz respeito a todo mundo ter um mundo melhor, principalmente com relação à natureza, porque isso também é importante. Mas você tem que saber o momento de falar, ter consistência, porque a a internet virou um balde de bobagens, e principalmente ter muito cuidado com o que vai repostar, temos de parar de dar cartaz a discursos imbecis e de ódio. Porque as pessoas, às vezes, acabam divulgando coisas que devemos deixar morrer.   

Como você avalia o atual momento da arte e da cultura no Brasil?

Está terrível, né? A gente está tentando sobreviver. O desmonte é absurdo, a distorção do que é o artista, uma tentativa de colocar a opinião pública contra o artista, é uma distorção do papel da arte que é, sim, de questionar as coisas para transformá-las, mas é também de entreter, de alimentar a alma. Estamos desmontados por dentro, desde a formação pela arte, que é importante para a construção do cidadão. As pessoas que hoje estão trabalhando são privilegiadas, juntando com essa pandemia foi uma avalanche. Assim como tudo o que tem sido feito com a natureza, nós vamos demorar um tempo para nos reerguermos. A gente nem começou ainda, estamos juntando os cacos, e isso vai se refletir muito forte na educação, na formação ética desses cidadãos que estão vindo agora. Um país sem arte e cultura não tem identidade, humanidade e ética. Esse desmonte da cultura pode formar monstros, temos que correr para corrigir isso. 

Certo. Vamos para um tema mais light, como você cuida da beleza, seu cabelo te dá trabalho? 

Meu cabelo não me dá trabalho. Eu acho que eu compreendi a natureza dele que é ficar para cima e deixo ele solto. Eu até deveria cuidar mais. Tenho uma colorista, de vez em quando eu faço a hidratação e tal, mas não tanto quanto ela gostaria, ela até briga comigo. Eu tenho também uma dermatologista, que é muito maravilhosa, passo meus cremes à noite, de manhã uso muito protetor solar, tenho caso de câncer de pele na família. Mas eu não faço as unhas, não sou uma mulher que se cuida excessivamente, sou mais moleca. 

E do corpo?

Faço exercício, porque sempre fui acostumada por conta do teatro a mexer muito com o meu corpo, então quando fico parada eu sinto muitas dores. Faço treinamento para essas dores crônicas e para o espírito, é meu antidepressivo, é para a saúde mental também. Acaba tendo um resultado estético, mas é muito para a minha cabeça.