Fotos: Julia Rodrigues

Lázaro Ramos começou o ano querendo voltar a atuar depois de um período como diretor. Quando foi convidado para dirigir “Falas Negras” (Globo), não aceitou de bate-pronto. O especial consiste em pequenos monólogos on camera de atores caracterizados, dando voz a personalidades pretas eternizadas pela História.

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“O assunto tem um ingrediente emocional muito forte”, conta à Bazaar. Em seus projetos, estava buscando lidar mais com a ficção do que com a realidade, por isso negou em um primeiro estágio. Mas foi essa coletânea de momentos que o fisgou. “Os depoimentos estão exatamente como foram ditos ou escritos.”

Para trazer mais veracidade, os atores precisavam ser bons contadores de história, além de ter alguma semelhança física que se aproximasse dos figurões, além do figurino. “Mesmo os que não eram tão parecidos, olhando no vídeo, o rosto se encaixava em alguns momentos na figura real”, recorda.

“Como a maioria dos personagens já faleceu, me arrepiava todo, tomava susto, dava risada. Falava: gente, eles estão aqui perto, brincando com a equipe”, ri. “Dá aquela arrepiadinha, mas dá aquela satisfação também. De entender que isso é um tipo de benção.”

Desde o primeiro ensaio, Lázaro registrou os takes iniciais. “Acontecia de os atores e atrizes estarem muito nervosos e acabarem já fazendo seu melhor no primeiro, de tanto que queriam criar esse registro”, explica. Com tanta gente talentosa, Lázaro achou melhor ocupar apenas a função de diretor. Mas, se tivesse do outro lado da câmera, toparia dar voz a James Baldwin. “Conheci por causa do filme ‘Eu Não Sou Seu Negro’. Nas pesquisas do projeto, à medida que fui me aprofundando na sua história, escrita, literatura, fiquei com muita vontade de interpretar.”

Em tempos de produções à distância e equipes reduzidas, o maior impacto desse registro presencial para o diretor foram os equipamentos de proteção, que iam de roupas especiais a máscaras. “Muito estranho não ver o rosto das pessoas com quem se está trabalhando. A maioria delas, consigo identificar os olhos, mas adoraria saber como é o sorriso”, desabafa.

“Esse fator emocional é muito diferente, muito importante para mim quando vou fazer um trabalho.” Ele entende que terá de se habituar com essa nova cultura porque as pessoas continuam querendo ouvir histórias e isso não pode deter seu ofício.

A ideia e organização do telefilme partiu de Manuela Dias (“Amor de Mãe”) e causou alvoroço nas redes sociais, quando anunciada, pelo fato de a autora ser branca. “Ela me convocou e me convenceu por entender que precisava ter uma voz próxima e que tivesse uma relação como a que eu tenho com o tema”, defende Lázaro, que a conhece desde os 15 anos (ambos são da Bahia).

Para o projeto, ainda foram escaladas a antropóloga Aline Maia e a jornalista e pesquisadora Thais Fragozo, além de todo um cuidado acerca de representatividade não só no elenco, mas em todos os envolvidos. “Esse especial é um documento, mais do que qualquer coisa é uma oportunidade de reflexão para nós que fizemos e para quem vai assistir.”

Contados de forma cronológica, o especial narra reflexões, lutas e histórias dos povos afrodiaspóricos, a partir de figuras como Nzinga Mbande, Martin Luther King, Malcom X, Angela Davis até, mais recentemente, Marielle Franco. Com 22 depoimentos, a produção elencou Babu Santana, Fabricio Boliveira, Guilherme Silva, Ivy Souza, Naruna Costa, Taís Araújo, além de outros atores. Estreia nesta sexta-feira (20.11), Dia da Consciência Negra.

A seguir, o ator e diretor discorre sobre sociedade, bloqueio criativo e futuros projetos.

Como você enxerga datas comemorativas como o Dia da Consciência Negra:

Pra mim, cada ano tem um novo sentido. Para 2020, é uma oportunidade para pensar no nosso futuro. Esse especial, como trata justamente da história, contada em ordem cronológica, revendo coisas que foram ditas e muitas vezes repetidas, podemos ver que em muitos casos a gente está andando em círculos. É um dia de reflexão, mantendo o foco no futuro. Pensando em que modelo de país, de convivência, de sociedade a gente quer. E a partir daí, agir, né? Cada um fazendo sua parte.

A pandemia mexeu com seu jeito de trabalhar?

Muito. O “Amor e Sorte” (série gravada por casais durante a pandemia) foi muito difícil porque era gravado em noturnas. Só eu e Taís (Araújo, sua mulher) em casa. Então, fisicamente e mentalmente era exaustivo. Mas emocionalmente foi muito prazeroso porque a gente achava que ia demorar muito para exercer a nossa profissão, que tem a ver com aproximação, aglomeração, toque, contato e isso deu uma motivação.

Deu tempo de produzir algo seu, já que estava se dividindo na função de pai de Maria Antonia, 5 anos, e do João Vicente, de 9?

No começo da pandemia, não consegui produzir muita coisa. Me obrigava e foi angustiante. Quando parei de me obrigar, relaxei e consegui caminhar com dois livros (ainda sem nome: um para adolescentes, outro para crianças). Já estava trabalhando antes da pandemia, mas consegui finalizar. Estamos organizando para lançá-los no início do ano que vem.

Quais são seus outros projetos, seja no cinema, TV ou teatro?

Tem alguns filmes que fiz e devem estrear como Silêncio da Chuva, em que atuei e fui dirigido pelo Daniel Filho. Fiz o filme infantil DPA 3 – Uma Aventura no Fim do Mundo, também, coisa que eu adoro. Quero muito voltar com os projetos de teatro. Tinha dirigido duas peças: a comédia O Método Gronholm e um monólogo da Mariana Xavier, Antes do Ano que Vem, que não pudemos estrear. Um dos objetivos é esse. Encontrar um formato de levar esses espetáculos para o público. E, naturalmente, o Medida Provisória, filme que dirigi e está agora passando em festivais, com uma carreira muito boa – ótima recepção, ótimas críticas, que a gente vai estrear no Brasil em breve.