“Lazarus”, musical concebido por David Bowie, ganha versão autoral de Felipe Hirsch

Jesuíta Barbosa é o protagonista do espetáculo, que está em cartaz até 27 de outubro de 2019

by redação bazaar
Foto: Divulgação

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Por Marina Monzillo

Era uma vez grande artista que ficou fascinado por uma obra de ficção-científica e, no auge de sua multifacetada carreira, interpretou o protagonista desse livro na adaptação cinematográfica. Quase 40 anos depois, doente e próximo do fim, ele revisitou aquela história que o marcou décadas atrás, compondo músicas e um espetáculo teatral inspirados nela – seu último ato, antes de sair de cena.

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O artista foi David Bowie, o livro, “O Homem que Caiu na Terra”, de Walter Tevis. O filme, homônimo, foi lançado em 1976. A despedida aconteceu em 2015, quando Bowie finalizou o musical “Lazarus”, em parceria com o dramaturgo Enda Walsh, pouco antes de morrer, aos 69 anos. “Lazarus é uma montagem inspirada nessa ficção com ares sci-fi muito instigante, escrita nos anos 1960 e que faz um bom apanhado sobre a humanidade e o futuro dela, por isso é tão atual. Bowie quis revisitar a história por mil questões, muito pessoais. O filme e o personagem Thomas Newton reverberavam ainda na cabeça dele”, explica o ator Jesuita Barbosa, que vive esse mesmo papel que Bowie fez no cinema, na versão brasileira do musical “Lazarus”, que está em carta até 27.09, no Teatro Unimed, em São Paulo.

Felipe Hirsch está à frente da encenação do espetáculo que já foi sucesso no off-Broadway, em Nova York, e em cidades europeias. Entretanto, não se trata de uma franquia, e a escolha de Hirsch, um diretor de teatro extremamente autoral, são sinais de que as diferenças entre as montagens serão grandes. Outro aviso é que o musical não conta a vida do músico inglês e suas diversas fases. “Não há um Bowie no palco. Existe sim uma série de relações, às vezes críticas e profundas, outras um pouco mais claras”, explica o diretor.

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A peça tem camadas e não à toa que morte e a forma de lidar com sua inevitabilidade é uma delas. “Não sei se Bowie criou um epitáfio, mas esteve nesse limite entre a vida e a morte, a Terra e o espaço. A obra é bastante influenciada pela situação dele. Você consegue sentir nos personagens, no texto, um pouco dessa sensação de fim”, opina Hirsch.

Lazarus remete à passagem da Bíblia em que Lázaro morre e é ressuscitado por Jesus Cristo. No espetáculo, Thomas Newton é um alienígena visitando a Terra. Ele está aqui para conseguir recursos para o planeta dele, entra em contato com o humano e começa a se degradar, a morrer. “A gente oxida em tantos sentidos, né? Mas acho que, além disso, tem uma referência forte ao mau tratamento que a gente dá a si, ao lugar onde a gente vive. Acho que o Newton passa por esse caminho de se tornar humano e por isso se percebe corrompido”, diz Jesuita.

Para ele, a peça trabalha a ideia de que morte e nascimento estão interligados, não podem diferir tanto quanto a gente quer, tanto quanto a sociedade pede. “Temos um medo grande do que vem depois e uma ansiedade de adiantar as coisas. A gente acaba esquecendo o agora. Acho que esse é o caminho que o Newton faz no espetáculo”, completa o ator.

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Hirsch contribui com ainda mais paralelos que o enredo traz. “Um homem vindo de outro planeta pode remeter a um imigrante. Uma das personagens cita uma poetisa chamada Emma Lazarus – daí também o nome – que escreveu o soneto que está gravado na Estátua da Liberdade, que recebe os imigrantes que chegam aos Estados Unidos. Basicamente é uma peça sobre a relação maldosa que o ser humano tem com pessoas que vêm de fora.”

O diretor, que tem a música como um forte elemento de seu trabalho, optou por buscar atores que cantassem e não cantores que atuassem, e mesclou gente experiente em musicais com estreantes, como Jesuita. “É engraçado, porque eu acho que as coisas vão acontecendo naturalmente. Eu saí de um trabalho com música, que foi a série “Onde Nascem os Fortes”. Ali eu fazia uma drag que cantava em um ambiente hostil, o sertão nordestino, já nesse universo andrógino”, analisa o ator.

Novo teatro
Lazarus inaugura o Teatro Unimed, no Edifício Santos Augusta, em São Paulo, com a arquitetura assinada por Isay Weinfeld. “É um teatro pequeno, muito acolhedor. É um espaço para obras complexas, que estão ali para desafiar seus sentidos. Há uma atenção muito grande à curadoria da programação. A gente não poderia estar do lado do Conjunto Nacional, a uma quadra da Avenida Paulista, muito próximo de grandes instituições de arte, com algo que não fosse relevante e fizesse jus àquela esquina”, diz Hirsch.