Foto: Reprodução/Instagram/@linocasouza

Quando conversei com Linoca Souza, me senti fisgada por sua história e dedicação, mas outra coisa me chamou a atenção: o carinho com o qual ela fala sobre a importância de cada elemento – sua mãe, a cidade de São Paulo, as pessoas com quem cruzou, entre outros exemplos – que interferiu sua trajetória. Fragmentos que passam despercebidos ao nosso olhar corriqueiro se tornaram, e se tornam, inspiração e arte em suas mãos.

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“Com mais ou menos 18 anos, fui fazer um curso técnico longe da onde morava. Saia do Campo Limpo e tinha que ir para a região central, porque o que me interessava nunca era oferecido em minha região. Foi muito importante esse processo de me deslocar pela cidade e entender as dificuldades para acessar as coisas”, lembra Linoca do momento em que sentiu importante começou a falar sobre as coisas que sentia.

No mesmo período, a artista iniciou um curso de grafite que às ruas e intensificou o processo de troca com outras pessoas. “Quando conheci pessoas que trabalhavam com esse tipo de arte foi que vi que tinha essa possibilidade. Via que meus amigos trabalhavam na área de criação, design de produtos e percebi que era possível trabalhar com isso. Até então, entendia minha necessidade de criar e desenvolver coisas, mas não sabia ou conseguia como direcionar”, conta.

O papel da internet

Foto: Reprodução/Instagram/@linocasouza

“No início, fazia tudo à mão, muito trabalho manual, desenho na parede. Depois que fiz um técnico em comunicação visual, comecei com as ilustrações digitais. Foi aí que tive acesso aos aplicativos, criei uma página e levei tudo para a internet”, explica Linoca Souza sobre sua migração para a internet.

O primeiro passo para a artista foi criar uma página no Facebook, que cresceu organicamente e acabou seguindo como um portfólio para que outras pessoas perguntassem sobre encomendas. Em 2014, Linoca decidiu começar a buscar maneiras para criar prints e vendê-los. Com o passar do tempo, a qualidade de seus trabalhos só melhorou, mas a ilustradora acredita que foi a troca nas redes sociais que a impulsionou a aprender cada vez mais.

“Dou muito importância para essa troca que elas proporcionam. Mas acho que tem uma questão muito importante: entender que é dinâmico e não algo eterno. Assim como sentimos saudades do Orkut, em algum momento vamos ter saudades do Instagram. Entendo a importância e acho que 90% do que faço hoje – incluindo parte editorial, capa de livros, revistas e os prints – vieram desta troca. É um lugar de muita troca, mas você tem que estar por dentro do que está acontecendo. Não dá para jogar lá e não monitorar”, aconselha.

Moda

Foto: Reprodução/Instagram/@linocasouza

Quando Linoca era criança, sua mãe parou de trabalhar fora e passou a se dedicar à costura. Além de prestar serviços para seus clientes, ela fazia roupas para sua filha e, até mesmo, para suas bonecas. “Uma coisa que também me impulsionou a desenhar, a começar, foram as revistas que minha mãe tinha. Ela guardava várias dos anos 1960, 1970 e eu achava engraçado. Então usava muito para desenhar”, lembra.

Além desta lembrança, Linoca também reflete sua relação com a moda ao fato de sua família não ter acesso a roupas caras ou ao que estava na moda. “Íamos muito a brechós e tínhamos muitas roupas que vinham de doações. Conforme fui crescendo e trabalhando, levei isso comigo. Então tenho essa relação com brechó, gosto até hoje, principalmente esse lado de ‘peguei o limão e fiz a limonada’, conta.

“Gosto das peças da Gucci, acho que tem coisas muito legais e que deram para mesclar. Pude pensar nas coisas que desenvolvo, nesse jogo de estampas, levar essa pegada que é um tanto tropical e que acabo imprimindo no que faço. Me diverti fazendo, foi gostoso poder experimentar”, conta Linoca Souza sobre a ilustração que criou à convite da Bazaar.

Momento atual

Foto: Reprodução/Instagram/@linocasouza

“Dentro de uma situação como a gente está, com tantas coisas coisas acontecendo, cada dia acontece alguma coisa, quando não são várias no mesmo dia… Acho que a arte entra em um ligar de respiro, mas ela também entra com essa possibilidade de pensamento, de trazer uma denúncia, ajudar a desenvolver pensamentos e narrativas sobre o que está acontecendo”, analisa Linoca Souza sobre o papel da arte.

A artista não acredita na possibilidade de se adotar uma imparcialidade quando se cria. “Isso já está dizendo em que lado de cada cada coisa você está. Neste momento, a arte está muito mais forte como um lugar de imparcialidade, de estar do lado, de expor quem precisa, quem é mais oprimido, quem tem necessidade e que às vezes não tem a possibilidade de se expressar. Acredito que a arte tenha este papel de assumir estas expressões”, acrescenta.

Linoca Souza foi uma das artistas convidadas pela Bazaar para mesclar suas pinceladas com peças da Gucci. O resultado – que também conta com ilustrações de Lela Brandão,  Di Couto e Bruna Romero – você encontra na nossa edição de agosto.