Lisa Immordino Vreeland e seu olhar sobre os personagens que retrata no cinema
Diana no documentário “Diana Vreeland: The Eye Has to Travel”, o primeiro de Lisa Immordino Vreeland – Foto: Divulgação

Por Duda Leite

Não é qualquer pessoa que pode se gabar de ter no seu closet um cashmere original usado por Diana Vreeland, editora-chefe da Harper’s Bazaar, durante boa parte do século XX. Mas a cineasta Lisa Immordino Vreeland pode. Apesar de compartilhar o icônico sobrenome de uma das editoras de moda mais poderosas do século passado, Lisa nunca conheceu Diana. Ela é casada há 21 anos com Alexander Vreeland, neto dela. A diretora de cinema soube desde cedo que o nome Vreeland abriria muitas portas em todos os sentidos.

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Em 2011, Lisa dirigiu seu primeiro documentário, “Diana Vreeland: The Eye Has To Travel” (exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro) justamente para entender o mito. Dez anos e vários projetos depois, ela acaba de lançar seu mais recente documentário, “Truman & Tennessee: Uma Conversa Íntima”, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano, sobre dois dos maiores escritores norte-americanos, Truman Capote e Tennessee Williams.

A seguir, trechos da entrevista que Bazaar fez com a cineasta, via videochamada, direto de seu apartamento em Nova York.

Harper’s Bazaar – Quando você começou a se interessar por filmes?

Lisa Immordino Vreeland – Nasci em Milão e passei a juventude assistindo a filmes de cineastas como Pier Paolo Pasolini, Luchino Visconti, Federico Fellini e Vittorio De Sica, em um cinema incrível que havia lá. Descobri o cinema assistindo aos filmes desses mestres.

Seu primeiro filme foi “Diana Vreeland: The Eye Has to Travel” (2011). Qual foi a gênese dele?

Sempre ouvia meu marido falar sobre sua avó. Primeiro, resolvi organizar o material que havia sobre ela em um livro. Na verdade, não tinha muito conhecimento, apesar de saber que ela tinha muitos admiradores. Quando estava trabalhando no livro, alguém me disse que meu sobrenome poderia abrir muitas portas. Estava morando em Paris na época, e, como amo cinema e viajar, achei que seria uma ótima oportunidade de juntar essas duas paixões. Acabei entrevistando 50 pessoas.

Lisa Immordino Vreeland e seu olhar sobre os personagens que retrata no cinema
O fotógrafo e diretor de arte Cecil Beaton, retratado em “Love, Cecil”, de 2017 – Foto: Divulgação

O que a tornava uma pessoa tão especial?

Ela tinha um grande joie de vivre. Tinha muitas paixões. Era uma pessoa extremamente positiva e dona de um olhar único. Era alguém muito ligada ao futuro, conseguia fazer ligações incríveis entre o passado e o futuro. Ela pulsava vida. Gostaria de tê-la conhecido.

Entre os personagens que você retratou estão a colecionadora de arte Peggy Guggenheim, o multimídia Cecil Beaton, e os escritores Truman Capote e Tennessee Williams. Como você escolhe seus personagens?

É engraçado, alguém me perguntou certa vez se tenho um caderninho cheio de nomes. Não tenho! Esses encontros aconteceram por meio de muito trabalho e pesquisa. Comecei com Diana, que era alguém com muita personalidade e que, de certa forma, se conectava com os outros. Com Peggy Guggenheim aprendi muito sobre artes plásticas. Costumava ir ao seu palazzo em Veneza quando era pequena. Gosto de filmar personagens que conseguiram se reinventar, que criaram novas narrativas para si mesmos. E, nos casos de Vreeland, Guggenheim e Beaton, havia um riquíssimo acervo de imagens a ser explorado. No caso de Truman e Tennessee, o que me moveu foram as palavras. Não me interessam pessoas que têm uma vida perfeita. Gosto de fortes emoções.

Em Love, Cecil, de 2017, seu personagem foi o fotógrafo, cenógrafo e diretor de arte Cecil Beaton. O que mais chama a atenção é a maneira como ele era um artista multimídia na década de 1940, quando isso ainda não era comum. O que te levou até Cecil?

Havia algo no seu processo criativo que me interessava muito. O quão importante é esse processo, e o quanto ele pode ser destrutivo para algumas pessoas. Cecil era muito inovador em diversas áreas. Mas, ao mesmo tempo, isso o impedia de encontrar um amor verdadeiro. Ele usava sua arte como um escudo. Adoro investigar os processos criativos.

Seu projeto mais recente, “Truman & Tennessee: Uma Conversa Íntima”, é sobre dois dos maiores escritores do século XX. Como surgiu a ideia para esse documentário?

Sempre senti atração por personagens sensíveis. Originalmente, ia fazer um documentário apenas sobre Truman Capote, mas meu produtor me alertou que estavam produzindo um outro documentário sobre ele e sugeriu que fizesse um paralelo entre os dois amigos. Ambos tinham muito em comum: eram homossexuais, nascidos no sul dos Estados Unidos, eram alcoólatras e sofriam de depressão. Ambos haviam ganhado o prêmio Pulitzer. Diferente dos meus outros filmes, esse foi baseado em palavras. Filmei cenas em 16 milímetros, em locais pela Europa, por onde ambos passaram. Além disso, tive a sorte de poder contar com a participação de dois atores para interpretar os textos: Zachary Quinto, como Tennessee e Jim Parsons, como Truman.

Falando sobre moda, como você definiria se estilo pessoal?

Se você perguntar isso para minha filha, ela diria que sou uma mistura de freira com professora. Meu estilo é parecido com a Annie Hall (personagem de Diane Keaton no filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen). Gosto de me sentir confortável. Gosto de usar blazers masculinos e calças skinny. Mas, tenho alguns cashmeres incríveis que herdei de Diana. São maravilhosos!

Isso é como ter uma parte da história da moda no seu closet!

Sim, mas os looks mais icônicos estão guardados no acervo do Metropolitan Museum, em Nova York, onde ela trabalhou por vários anos, e outros estão na fundação Saint Laurent, em Paris.

O que é beleza para você?

Essa é uma boa pergunta. Para mim, a beleza pode aparecer de diversas formas. É algo que está sempre evoluindo. Tem a ver com integridade. Todos temos nossa beleza exterior e interior, mas costumamos dar muito mais importância para a exterior. Tem a ver com autoconfiança e até mesmo com inocência. É difícil definir. No momento, estou lendo poemas de Rimbaud e é inacreditável como são lindos. A beleza pode estar em toda parte, basta saber buscá-la.