Sob o tema “Como viveremos juntos?”, 17ª Mostra Internacional de Arquitetura segue até 21 de novembro de 2021 no Giardini, no Arsenale e no Forte Marghera

Por Lissa Carmona

As Bienais, tanto a de Arte quanto a de Arquitetura, são sempre muito interessantes, pois seus temas são bastante provocativos e fomentam diferentes correntes de pensamento. Este ano, em especial, a 17ª Mostra Internacional de Arquitetura, que acontece em Veneza (Itália), traz a grande questão do momento: How do we live together? (Como viveremos juntos?, em tradução livre). O tema foi considerado “profético”, pois foi escolhido muito antes da pandemia de Covid-19. A mostra segue até 21 de novembro de 2021 no Giardini, no Arsenale e no Forte Marghera.

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Posso dizer, também, que a Bienal traz também dialoga com o tema da última edição da de Arte, intitulada May You Live in Interesting Times (Talvez você viva tempos interessantes, em português). Este ano, está dividida em cinco etapas. Por ordem, entenda as cinco etapas que a Bienal foi dividida este ano e embarque comigo no evento por meio das imagens!

How do we live together – Como vivemos juntos ?

‘Among Diverse Beings’, traduzindo: Entre Outros Seres
‘As New Households’ (Como novas habitações)
‘As Emerging Communities’ (Como Comunidades Emergentes)
‘Across Borders’ (Transpondo fronteiras)
‘As One Planet’ (Como um Único Planeta)

Ficou muito evidente nesta Bienal duas correntes de pensamento sobre como viver/morar no futuro: de um lado, propostas super tecnológicas, pós-humanas com vidas em outros planetas e interação com robôs e todos os gadgets/devices possíveis. Por outro lado, um retorno ao vernacular, ao essencial, aos materiais e formas de construir tradicionais, com presença muito marcante da África, Ásia e América Latina.

A Bienal é bastante extensa e muito interessante, difícil selecionar cinco atrações must-see, mas aqui vai a minha seleção para entender melhor o tema “profético” e seus desdobramentos. Meu olhar foi bastante conceitual e menos estético desta vez. Lembrando que esta edição é ainda mais especial, pois tem a nossa Lina Bo Bardi como a grande homenageada com o Leão de Ouro, que, segundo o curador Hashim Sarkis, se existe algum arquiteto que melhor incorpora o tema deste ano, sem dúvidas, é Lina.

“Sua carreira como designer, editora, curadora e ativista nos lembra o papel do arquiteto como organizador e, mais importante, como construtor de visões coletivas”, afirma Sarkis. “Ela também exemplifica a perseverança da arquiteta em tempos difíceis, sejam guerras, conflitos políticos ou imigração, e sua capacidade de permanecer criativa, generosa e otimista o tempo todo.”

CO-Existir

Interação com outras espécies Among Diverse Beings. Como vivemos com outras espécies? Entendendo, respeitando e conectando-se na teia emaranhada que é a vida na Terra.


Abelha Rainha

Beehive Architecture, de Tomas Libertiny (Eslovênia, 1979) do Studio Libertiny (Holanda est. 2007) – estes pavilhões de cera são um belo testemunho do poder da natureza e tradução poética de como poderia ser a arquitetura no futuro. Abelhas e suas colmeias são exemplos de construção em larga escala, um casamento entre a precisão da tecnologia e o orgânico. Somente com uma comunicação de mão dupla com os demais seres, um processo de simbiose da tecnologia com a natureza, nós humanos poderemos voltar a viver em equilíbrio com nosso entorno.

Fungos

Estão entre as plantas e os animais, criadores e facilitadores da vida, resilientes como pedras, conectores das árvores através de suas redes, recicladores de materiais orgânicos. Sem eles, a vida na terra não existiria. A instalação apresenta colônias de fungos, retirados do próprio prédio Arsenal de Veneza, e cultivados no Departamento de Micologia da Universidade de Atenas, com belíssimos jardins de fungos, um convite à reflexão sobre a complexidade, beleza, invisibilidade e a onipresença destes seres.

Foto: Acervo Pessoal

Pós-humano e era pós-digital


Todos nos tornamos ciborgues. As novas tecnologias se incorporaram aos nossos corpos para melhorar nossa performance e aumentar nossa consciência. Uma necessidade de se desenhar para novos corpos e uma série de artefatos que aparecem à disposição nesta nova realidade distópica. Com a provocação do Catalog for the post-human (Catálogo para o pós-humano, em português), o questionamento: como será construído o futuro? A proposta da Pesquisa como Arquitetura – Laboratório para casas, lares e robôs apresenta o projeto da NEST, uma casa completamente projetada e construída digitalmente, de Fabio Gramazio e Mathis Kohler (Gramazio Kohler Architects, Suíça, 2000). E também alguns exemplos que remetem aos Jetsons. Mas, desta vez, em outro planeta. Marte, talvez…?

Retorno ao Vernacular e os desafios da sustentabilidade


Pavilhão do Bahrein, projeto em Muharraq, UNESCO World Heritage; espaço questiona se pérolas, ostras, corais, carros e humanos conseguem coexistir, exposição linda poética com materiais preciosos como a integração da madrepérola na construção.

Foto: Acervo Pessoal

‘Ego to Eco’


Propõe ideias para viver e construir de maneira a revitalizar os ecossistemas que somos parte e dependentes. Materias tradicionais, com usos contemporâneos e benefício da tecnologia em terras, telhas etc. Entre as criações, as Flocking Tejas, projeto de Barbara Barreda e Felipe Sepulveda (Base Studio, Chile, 2016) e São Paulo x Veneza, escalas opostas: acessibilidade para todos, exemplos da infraestrutura arquitetônica de São Paulo, excelente lembrança do genial projeto do Sesc 24 de Maio, de Paulo Mendes da Rocha (que nos deixou esta semana) com MMBB Arquitetos

Pavilhão da Itália

O Pavilhão da Itália trouxe muitos temas urgentes e importantíssimos, mas destaco a manifestação pelo justo reconhecimento à relevante participação das mulheres na arquitetura e no design não só na Itália, como no mundo. A instalação dos painéis em prol deste reconhecimento com a paródia do filme italiano Me Chame Pelo Seu Nome, aqui Call me by MY name (Me chame pelo MEU nome), e a listagem de uma dezena de importante arquitetas e designers italianas como Patricia Urquiola, Cristina Celestino, entre outras.

Foto: Acervo Pessoal

Um pouco mais da presença brasileira no pavilhão do País: Utopias da Vida Comum, título da participação brasileira, com curadoria do escritório mineiro Arquitetos Associados. Em conjunto com o designer visual Henrique Penha, a mostra – que ocupa o pavilhão do Brasil no Giardini – busca mapear a presença das utopias em solo tupiniquim, da cosmovisão “Guarani da Terra sem Males” até a contemporaneidade, destacando alguns momentos singulares na história. A exposição, concebida antes da pandemia, ganha novos significados com o atual contexto de distanciamento físico entre as pessoas, especialmente se pensada a partir do tema central da Bienal.


Fotos do Pavilhão Brasileiro gentilmente cedidas por Luciana Penaforte.