Foto: Divulgação

Por Matheus Lopes Quirino

O livro “Savoir-Vivre é um Jogo” baseia-se no estilo de vida que atravessa séculos. Oriundo da França, a filosofia fundamenta-se em reverências aristocráticas que, como toda norma social, adaptou-se ao longo dos séculos, não deixando para trás os requintes e peculiaridades deste modo de vida, sem deixar de valorizar os alicerces históricos relacionados à emancipação feminina, à autonomia intelectual, à polidez e ao prazer da conversa fluida. Afinal, Geneviève D’Augenstein narra a partir da visão do Iluminismo.

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Ao citar o dramaturgo Moliére, nas peças “As Preciosas Ridículas e As Mulheres Sábias”, a antropóloga transporta o leitor para um salão de baile típico da aristocracia francesa, como naqueles do século XV ou XVI, o auge da monarquia no país. A autora, ao percorrer a história social da alta sociedade, esmiúça normas comportamentais, costurando uma narrativa com pano de fundo histórico. Ela fala dos salões em que trafegavam condes, duques, reis, mas também burgueses e literatos, como Marcel Proust e Honoré de Balzac.

Na linha do tempo traçada pela autora, Geneviève coloca toda sociedade como órbita da figura feminina. Ela cutuca o rei Luís XVI, monarca apelidado como “Rei Sol”, elencando personalidades femininas como protagonistas na história francesa. No século XVII, por exemplo, ela cita escritoras revolucionárias, como Madeleine de Scudéry e Madama de La Fayette, duas pioneiras na emancipação intelectual das francesas.

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Geneviève salta na história, onde destacam-se as mentes mais conhecidas, como Colette e Simone de Beauvoir. Como introdução ao manual que a autora propõe em seu livro, fica clara uma linha histórica embasada no cultivo de autonomia, em que os gestos calculados somam na tomada de decisões e maneiras de porte. Ela dá exemplos que vão do galanteio da Idade Média aos Manifestos de liberdade sexual, até chegar no beabá prático, em verbetes telegráficos com lições de modo de vida.

Ao ambientar situações corriqueiras na vida social, como uma saudação ou uma reunião, a autora entrega dicas simples e precisas na concepção de uma agradável aparência. Quando ela transporta o leitor a uma mesa de jantar, por exemplo, é repudiado o elogio meloso logo de cara, bem como ficar muito tempo analisando a conta do restaurante não cai bem. De lugares comuns como o jantar a dois a detalhes clássicos como a hierarquia na hora de se subir uma escada, o jogo que a autora propõe em “Savoir-Vivre é um Jogo” é requisitado até hoje nos ambientes do jet set. De encontros de negócios a ocasiões despojadas, Geneviève, certamente inspirada em Balzac, escreve um tratado sobre a vida elegante.

Nada passa batido. Com orientações sobre o arranjo do primeiro encontro ao passo a passo de como mandar um e-mail sem insinuações, o guia de Geneviève é leitura obrigatória mesmo aos já iniciados em vernissages. Com dicas rápidas e práticas, a autora respondeu às perguntas da Bazaar por e-mail. Leia a entrevista!

Ilustração: Inès de Chefdebien

Seu livro discorre muito sobre as tradições que a aristocracia francesa preservou ao longo dos anos e seu legado. Como a senhora vê estas mesmas tradições em um mundo globalizado?
Esse livro atualiza certos princípios para as jovens gerações, de forma lúdica e agradável, com os belos croquis de uma jovem ilustradora parisiense, Inès de Chefdebien. Embora sejam aristocráticos, esses princípios também pertencem, hoje, ao nosso inconsciente coletivo, de tal modo que podem ser compartilhados por todo mundo. A noção de aristocracia não pode mais ser considerada, no terceiro milênio, como classe, mas, sim, na sua acepção etimológica de o poder dos melhores, e os melhores sendo os mais virtuosos.

Quais são esses princípios?
Virtudes e ideais cavalheirescos: respeito ao outro, à natureza como criação divina, à mulher; ajuda aos mais frágeis, coragem, cumprimento da palavra dada, um certo desprendimento em relação às coisas materiais em proveito do espírito e da cultura. Um ideal ao alcance de todos, tais virtudes, longe de serem arcaicas, são um antídoto perfeito contra um certo pessimismo que, às vezes, pode nos dominar.

Penso sinceramente que, mesmo não sendo unanimemente compartilhadas neste mundo globalizado, essas virtudes só podem ser benéficas para o convívio em sociedade. Esses princípios nobres, portanto, emanam de uma lógica nada arcaica. Quanto ao protocolo, que recomendo adotar em jantares sociais mesmo nos dias de hoje, ele visa tão somente a evitar embaraços. Penso que, neste terceiro milênio, devemos adaptar nossos códigos sociais à modernidade, mas mantendo esses princípios civilizacionais baseados no respeito.

Quando você fala de emancipação feminina, citando muitas conquistas sociais, a imagem da mulher é colocada na dianteira, isto é, se no reino dos costumes as mulheres mantêm autoridade, qual é o papel do homem, então?
A emancipação feminina deve ser feita em completa harmonia e igualdade com o homem. É claro que a emancipação é mais fácil em camadas sociais mais educadas porque, nelas, as mulheres dispõem de mais recursos para se libertarem. Nosso dever é ajudar aquelas que são menos favorecidas, lutando por salários iguais, educando da mesma maneira meninos e meninas, incentivando, por exemplo, as meninas a optarem pelo ramo das ciências e os meninos a se tornarem artistas. Essa é uma luta que todas as mulheres podem travar, em vez de reproduzirem o padrão de suas mães, que tanto criticaram na juventude. São elas que podem construir um mundo mais justo.

Hoje vivemos em uma sociedade que preza a praticidade. Não seria um contrassenso, então, viver pautado por “boas maneiras”?
Esta é uma questão lexical. As boas maneiras nada mais são do que códigos destinados a criar respeito e harmonia entre as pessoas, sejam elas quem forem: o empregado com seu chefe e vice-versa, o anfitrião com seu convidado, o homem com a esposa, os filhos com seus pais, o jogador com seu adversário, etc. Durante a Revolução Francesa, especialmente durante o Terror, qualquer sinal de polidez era proibido, como o uso do pronome de tratamento formal vous e expressões polidas. Monsieur e madame foram substituídos por citoyen e citoyenne, cidadão e cidadã.

Ali, a vida logo se tornou tão insuportável que a nova sociedade que sucedeu esse período, com a ordem restabelecida, não só resgatou todos os códigos da polidez aristocrática, como também os ampliou e codificou. Os ritos sociais são vitais porque são pacificadores, independentemente de como os chamamos: boas maneiras ou savoir-vivre ou o que quisermos. Eles são encontrados até mesmo em todas as sociedades que pretensiosamente chamamos de primitivas. Os ritos sociais têm componentes universais, como o controle dos instintos, o respeito pelo território alheio, a contenção, que afastam da animalidade e levam à humanidade.

Meu livro apresenta uma arte de conviver para viver em harmonia do século 21. Os conselhos vão além da polidez francesa, porque não são rígidos. E embora as ilustrações possam parecer fúteis, sua mensagem é universal se compartilharmos os valores representados. A caricatura e o humor são maneiras de veicular ideias mais profundas do que se imagina, e, por isso, parabenizo Inès de Chefdebien, uma jovem de trinta que, por meio de suas ilustrações, usa uma linguagem totalmente descomplexada, sem perder a complexidade, para expressar uma visão da vida moderna.

Voltando à sua pergunta, é verdade que nos falta tempo, mas não seria isso que o torna mais valioso? Dedicar tempo para as pessoas não seria essa uma forma de demostrar respeito, amizade ou amor? Dedicamos tanto tempo a nós mesmos e aos nossos smartphones!

Ilustração: Inès de Chefdebien

Uma análise rápida sobre nossos líderes mundiais, eles pecam em boas maneiras?
A polidez nos obriga a superarmos nossos sentimentos. A diplomacia, com a qual convivi durante anos, nos obriga e nos auxilia a continuar conversando com “nossos inimigos”. Esta também deveria ser a ferramenta de nossos líderes políticos. No entanto, nos últimos anos, temos assistido, estupefatos, à escalada verbal de líderes não só de pequenas potências, mas também de grandes potências, sem qualquer senso de medida, tentando agradar ao povo e apelando para seus instintos menos gloriosos, enquanto deveriam se apresentar, ao contrário, como dirigentes soberanos dignos e acima das intrigas. O autocontrole, base da polidez, sempre foi percebido favoravelmente como uma virtude suprema.

Como as novas gerações, tão autocentradas no lema “meu corpo, minhas regras” lida com a filosofia do Savoir-Vivre?
Fechar-se em si mesmo é mortífero tanto para uma comunidade como para o indivíduo. A vida a dois, a vida empresarial, em um open space, a vida entre amigos e familiares, a vida esportiva só é suportável se forem respeitadas as regras do savoir-vivre. Aqueles que querem se libertar disso não só prejudicam os outros, mas, acima de tudo, criam seus próprios infortúnios. Além disso, em minha escola, treino muitos executivos jovens e brilhantes, de origem modesta, que vêm aprender os códigos do savoir-vivre, perfeitamente cientes da função desses códigos como elevador social, e sempre carregam com eles meu pequeno guia.

Geneviève, você é uma mulher bem-sucedida. É uma influenciadora (analógica) nata. Conte-me o segredo da felicidade, se é que há algum.
O que significa uma mulher bem-sucedida? Uma mulher sem sorte e isolada talvez seja tão bem-sucedida quanto eu, ou até mais. Ela pode ter encontrado sua alegria em viver em paz consigo mesma, silenciosamente. Eu conheci muitas pessoas maravilhosas, desconhecidas, muitas vezes heroicas, que não buscavam a glória. Então, não consigo relacionar diretamente o sucesso à celebridade.

Tive – certamente por uma questão de educação – muita dificuldade de me valorizar. Não tenho um blog, não tenho tempo nem disposição, tenho apenas um site. Se tenho alguma visibilidade é por sorte, talvez porque nunca tenha procurado ter. Porém, transmitir os valores da cortesia, do intelecto, da graça, da cultura que recebi do meu ambiente é um prazer para mim. E nada me deixa mais orgulhosa do que quando meus antigos alunos e antigas alunas me dizem ou escrevem que sua vida social, amorosa ou profissional mudou graças ao meu aconselhamento.

A felicidade se constrói: cada um tem de cuidar de si mesmo, sem esperar muito dos outros. Além disso, evitar queixar-se, exceto, é claro, com parentes muito próximos em situações difíceis, faz parte não apenas do savoir-vivre, mas também da felicidade de quem adota esta ética. O segredo da felicidade também está na escuta e na empatia, que fazem nosso interlocutor se sentir feliz por estar em nossa companhia.

Na vida social, devemos evitar relacionamentos por obrigação, hábito, ambição ou interesse. O que poderia ser mais desagradável do que perceber o oportunismo em algumas pessoas? Pelo contrário, o segredo da felicidade é não esperar nada dos outros. Assim, você terá somente boas surpresas. Também é importante variar seus relacionamentos para sair do conforto do “só entre nós”, que logo se torna tóxico, diversificando pessoas, profissões, personalidades, idades, ideias. Tenho muitos amigos mais jovens e de diferentes áreas. Frequento muito museus e galerias e, embora apaixonada por arqueologia, adoro arte contemporânea.

A felicidade é também ter um trabalho, um projeto, defender uma causa, além do casamento e da família, para você ter existência própria. Esta é a razão pela qual considero anacrônico o termo mademoiselle, senhorita, que designa uma mulher apenas pelo seu estado civil, enquanto ela deve existir como ser autônomo, sem referência ao seu contexto familiar, como é o caso do homem. Assim, em caso de ser solteira, divorciada ou viúva, a mulher continua existindo. O segredo da felicidade é, antes de tudo, ter sempre um projeto, em qualquer idade. Sempre olhe para o futuro.

Ilustração: Inès de Chefdebien