Jonathan Majors dá vida ao personagem Atticus Freeman na série “Lovecraft Country”, da HBO, cuja primeira temporada acaba neste sábado (18.10) – Foto: Getty Images

“Vida é ponto de vista, cultura, modos de viver e ver as coisas, contribuição, sofrimento, dor, amor, riso. Então, sim, as nossas vidas (negras, em menção ao movimento Black Lives Matter) importam, mas nesta série nós mostramos isso de várias formas, não apenas do ponto de vista do ativismo”, conta o ator Jonathan Majors à Bazaar. Ele interpreta Atticus Freeman na série Lovecraft Country (HBO), cujo último episódio da primeira temporada vai ao ar no canal pago neste sábado (17.10).

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

“Contribuímos para os gêneros e também para o pensamento da humanidade. Acho que isso é muito importante neste momento, é um pilar das nossas experiências. As pessoas podem entrar nesse mundo, absorver pelo menos um pouco e gostar. Acho que oferecemos uma experiência”, explica Majors.

A trama expande o gênero da ficção científica e combina terror e drama familiar, acompanhando a saga do personagem , que na década de 1950 viaja pelos Estados Unidos regidos pelas leis segregacionistas, sai em busca do seu pai desaparecido. A viagem é realizada na companhia da sua amiga Letitia Dandridge (Jurnee Smollett-Bell) e do seu tio George (Courtney B. Vance) e exige uma luta pela sobrevivência tanto em frente aos horrores racistas da ‘América Branca’, como dos monstros assustadores que parecem terem saído de contos de terror do gênero Lovecraft.

Para o protagonista, algo que aconteceu há mais de 50 anos permanece muito atual. E a relação do personagem com seu tio é algo que vai para além das telas. “No caso de Courtney, compartilhamos muitas coisas. Ambos nos formamos em Yale (escola de Dramaturgia). Compartilhamos uma linhagem. Ele interpretou o Cory Maxson em Fences (de August Wilson). Fez o papel pela primeira vez e o primeiro personagem que interpretei. Temos uma ligação. Desde que nos conhecemos, cuida de mim como um pai, um tio. O amo muito.” Leia a íntegra a seguir!

Último episódio da primeira temporada vai ao ar neste sábado (18.10) – Foto: Getty Images

O que te atraiu neste projeto? O que sentiu ao ler o roteiro pela primeira vez?
Quando li o roteiro, senti que esta história nunca havia sido contada, então fiquei empolgado. Também fiquei com medo, não tem outra palavra para isso. Nós íamos mergulhar no passado e abordar coisas muito pesadas, então era medo junto com entusiasmo. Estava muito animado e, à medida que o processo continuou, pensava: ‘poderia fazer isso, poderia ser escolhido para o papel’. Sentia que essa história precisava ser contada.

A série se passa na década de 1950, nos Estados Unidos das leis segregacionistas, mas parece muito atual. Por exemplo, quando o tio George coloca as mãos na cabeça assim que vê a polícia. Soa atual para você?
Infelizmente, esse modo de vida existe nos EUA desde 1619, quando chegaram os primeiros africanos escravizados. Essa mentalidade e esse sistema foram perpetuados. A série volta no tempo e mostra como, infelizmente, as coisas sempre foram. Da situação com os policiais ao momento em que o Atticus e a Leti (Letitia Dandridge, interpretada por Jurnee Smollett) se conheceram – aquele amor, aquela timidez, vejo isso onde moro. Você vê um garoto se aproximar de uma garota, o inverso. Por isso não se trata exatamente de uma série de época. É sobre os anos 50, mas também é atual.

O que espera que Lovecraft Country deixe para o público?
Não vou entrar muito em política, mas uma das caras dos EUA (e fora dele) hoje é o movimento Black Lives Matter. Uma das coisas interessantes dessa afirmação é que ela é muito verdadeira, mas tem gente que não entende o que é uma vida negra. Uma vida não se resume a batimentos cardíacos e respiração. Vida é ponto de vista, cultura, modos de viver e ver as coisas, contribuição, sofrimento, dor, amor, riso. Então, sim, as nossas vidas importam, mas nesta série nós mostramos isso de várias formas, não apenas do ponto de vista do ativismo.

Temos a Leti, o tio George (Courtney B. Vance), a Hippolyta (Aunjanue Ellis), a pequena Diana (Jada Harris), a Ruby (Wunmi Mosaku), eu poderia continuar. Todos eles são vidas negras independentes. Não somos um bloco. Vemos todas essas vidas existindo de modo diferente na trama. Agora existe uma conexão quando se diz ‘Vidas Negras Importam’. Sim, elas importam. Muito. Mas essas vidas têm nuances, elegância, nobreza, e também violência, agressões, dores de cabeça, partes ruins. Disso se trata uma vida completa.

É transformador ver o Atticus entrar em contato com as emoções dele, porque não costumamos ver homens negros chorarem na TV. Por que é importante que o público veja isso?
É interessante. Sou um cara extremamente emotivo, e sou afro-americano. Esses momentos íntimos nos fazem dizer “ok, ele é um ser humano completo”. Você quer ver um homem chorar, perguntar como foi o dia. E ouvir a verdade. A Misha Green escreveu, o Matt Ruff mostrou isso ao mundo, nós amplificamos, modificamos, adaptamos à época, ao gênero e ao meio. Isso é uma das coisas mais importantes para os telespectadores: verem que um herói é alguém que permite que seu coração se parta. Gosto de colocar a masculinidade negra na mesa sempre que posso. Além de raça e gênero, somos muita coisa. Não só músculos, rap, carros grandes e música alta. Nós somos tudo isso e também somos Barack Obama, Tupac, Martin Luther King, [James] Baldwin.

Os monstros da série são assustadores, mas podemos dizer que o racismo e a polícia também são monstros. O que esses monstros simbolizam pra ti?
São metáforas. Como o Michael Caine disse brilhantemente: “é o espírito de ódio que representa.” É importante porque é a manifestação do espírito. Não estamos dizendo que todas as pessoas brancas são racistas, nem que os monstros odeiam as pessoas negras. Estamos dizendo que é uma representação de como o ódio se manifesta. Por meio eles, as características podem dominar as pessoas. Ao longo da história, uma certa dose de ignorância e ódio ficou impregnada nos indivíduos, e isso é monstruoso. Representam divisão, ódio e abuso de poder.

Você e a Jurnee Smollett parecem se complementar. Como foi trabalhar com ela?
Nós nos chamamos de raio e trovão. Eu amo essa mulher. Vivemos uma grande experiência juntos contando essa história e fazendo isso com autenticidade. É como trabalhar com uma irmã, com a melhor amiga, ela é uma atriz incrível e tem uma alma linda.

O Atticus tem um vínculo especial com o tio George. Por que esse relacionamento é importante?
Porque mostra a comunidade de onde o Atticus vem e como a família Freeman é bonita. Tenho uma relação complicada com o meu pai biológico e o meu tio Chuck foi minha inspiração, minha conexão com o tio George. O meu tio Chuck me apresentou às artes, ao jazz, à música, assim como o George apresentou ao Atticus os livros, mostrou o que era ser um homem e como usar a cabeça. Tenho uma conexão muito profunda com o arquétipo. A melhor parte da série – e isso é uma declaração em alto e bom som – são o Kim Coleman, o nosso diretor de elenco, a Misha Green e o Yann Demange, que escolheram o elenco. Colocaram as almas certas juntas, então nada é artificial na produção.

Jonathan Majors posa em sua casa em Santa Fe, no Novo México (Foto: Getty Images)