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O que fazem hoje as mulheres na faixa dos 60 anos permanecerem com uma cabeça jovem e disposição física capaz de acompanhar qualquer pessoa de 20? Ou melhor: o que faz essas pessoas, como disse Aldir Blanc na música “Cinquenta anos”, insistirem na juventude? Esses e outros dilemas da chamada terceira idade pontuam o espetáculo “As Meninas Velhas”, que acaba de reestrear no Teatro São Cristóvão Saúde, no shopping Mooca, em São Paulo, até 28 de agosto. No palco, Lucinha LinsSônia de PaulaBárbara Bruno e Nádia Nardini também questionam o que faz a velhice não chegar, apesar de os cabelos embranquecerem e a pele mostrar sinais da passagem do tempo. Será que, para essas pessoas, ele, o tempo, não conta mais? Afinal, que magia é essa que acontece com os nossos “idosos”?

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Com direção de Tadeu Aguiar e texto de Claudio Tovar, as atrizes dão vida a quatro mulheres sessentonas de espírito libertário. Corina (Nadia Nardini), Zuleika (Lucinha Lins), Norma (Barbara Bruno) e Edith (Sônia de Paula) são amigas da vida inteira que se encontram todos os dias na casa de uma, de outra ou no banco da praça vizinha. 

Dependendo do dia, tem jogatina ou lanche coletivo. Nesses encontros, as meninas, na faixa-etária em que se encontram, discutem a vida e compartilham alegrias e tristezas. A vida das quatro vai se modificando até que chegam a um momento crucial. Mas, para elas, tudo não passa de uma transformação.

A comédia trata dos “novos 60”, ou seja, da nova forma de viver essa fase madura da vida – com produtividade, alegria, desejos e projetos a realizar. Não à toa, o autor, diretor e as quatro atrizes têm mais de 60 anos e são donos felizes do “lugar de fala” nessa narrativa.

Para falar do espetáculo e sobre o etarismo, Bazaar conversou com a atriz e cantora Lucinha Lins, 69. Leia a seguir entrevista na íntegra.

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Como nasce a Lucinha Lins lá atrás?

Eu fiz parte de um grupo chamado MAU (Movimento Artístico Universitário), onde  eu era uma das mascotes do time, era um grupo de gente muito jovem que se reunia para tocar suas músicas, a meta de todos nós eram os festivais, eu descobri que cantava bem, aí os festivais vieram, eu, na época, era namorada do Ivan Lins, que se tornou uma pessoa famosa. Eu fiz backing vocal, tocava pandeiro, percussão de instrumentos leves e achei que ia ser cantora. Um dia, à custa de um espetáculo que eu inventei tempos depois, eu usava muito a minha voz, gravei muitos jingles, fazia o coro no disco de todo mundo, então a minha voz passou a ser o meu campo de trabalho. Depois, já separada do Ivan, eu inventei um espetáculo chamado “Sempre, Sempre Mais”, que depois de um festival em que eu cantei MPB da TV Globo, e que ganhei uma vaia espetacular. O “Sempre, Sempre Mais” fiz ao lado do bailarino, coreógrafo e artista plástico Claudio Tovar [marido de Lucinha]. Esse espetáculo foi um grande sucesso. Naquela época, o Walter Avancini, grande diretor TV e cinema, assistiu ao espetáculo duas vezes e cismou comigo. A essa atura eu já estava fazendo alguns comerciais de televisão,  já tinha feito alguns contratos por conta de publicidade como atriz. E ele [Avancini] me desafiou a fazer parte de uma minissérie que se veio a se chamar “Rabo de Saia”, eu acabei topando, e tenho no Walter Avancini a possibilidade de perceber em mim que eu tinha chance de ser uma atriz. Essa minissérie me deu o prêmio Apetesp de Melhor Atriz e as coisas não pararam mais. Mais tarde eu me casei com o Claudio Tovar, estamos casados há 39 anos, eu já tinha três filhos, e ele ainda me deu uma filha linda. O resto foi consequência, vieram as novelas, muito teatro, os musicais, não parei mais. 

Como surgiu a ideia do espetáculo “As Meninas Velhas”?

Essa peça surgiu durante a pandemia, estávamos sem trabalhar, sem saber o que fazer, o dinheiro acabando. Meu filho Cláudio [Lins], dando uma geral no computador dele, sem querer achou um texto do Claudio Tovar, e foi ler. Quando ele acabou, ligou para o Tovar e disse que tinha lido a peça, “As Meninas Velhas”. Nisso o Tovar disse que não se lembrava desse texto, no que o Cláudio disse, então leia, porque é deliciosa e a gente tem que montar isso. E fomos para o computador para relembrar essa peça que o Tovar tinha escrito sei lá quantos anos atrás, e adoramos. Depois batendo um papo por telefone com um grande amigo, que é o Tadeu Aguiar, falamos disso, e ele disse: “Manda para mim”. Depois de ler ele disse que era uma delícia e que queria dirigir a peça. Bem, resolvemos fazer uma leitura, porque éramos pessoas de confiança dentro do procedimento da Covid, fizemos uma leitura de texto e disse para marcarmos uma data. Ensaiamos e montamos, a primeira a chamarmos foi a Bárbara Bruno, depois foi Nádia Nardini, depois foi Valéria, que ficou um tempo e foi substituída por Sônia de Paula. Ensaiamos na sala da minha casa, que é uma sala-varanda, com tudo aberto, de máscara, foram dois meses, na esperança de que quando os teatros viessem a abrir suas portas nós já teríamos alguma coisa pronta. Fomos agraciados com a Lei Aldir Blanc, que surgiu no Rio de Janeiro, há dois anos, que nos deu R$ 100 mil. Com isso nós levantamos o espetáculo, porque estávamos pagando para trabalhar. Meu marido que é o grande artista dessa casa fez tudo: ele fez o cenário, o figurino, nós ensaiamos, tudo isso dentro da nossa casa, e conseguimos estrear em setembro de 2021, tendo meia dúzia de pessoas mascaradas na plateia, porque só podia 30% da capacidade. A nossa alegria de estar no palco valeu tudo. Pagamos para trabalhar muito tempo, mas as coisas foram melhorando, começamos a mudar de teatro, até que a Foco assistiu ao espetáculo no Rio e nos convidou para representar em SP. Fizemos o teatro Vivo, que foi um sucesso, depois fomos para o teatro Itália, que estava abrindo suas portas, e agora a gente estreia na Mooca, no teatro São Cristóvão, que fica dento do shopping Mooca, e não paramos mais. “As meninas velhas vieram para ficar.”

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Como é tratar sobre esses temas, como sexo, etarismo, amor, tudo a partir dos 60 anos?

Olha, o espetáculo tem uma coisa muito parecida com a minha maneira de pensar. Porque o momento mais importante da sua vida é o hoje, o hoje é o melhor dos tempo sempre, o passado a própria palavra já diz, passou. E o futuro diz o ditado a Deus pertence. O seu hoje, se você lida com ele bem, você tem uma possibilidade de um futuro muito melhor, seja ele qual for. E “As Meninas Velhas” tem isso, nós somos quatro mulheres, amigas de infância, que começam o espetáculo na faixa dos 60 anos. Uma delas é viúva e se apaixona novamente; uma vive e dá força para a outra o tempo todo, e são cúmplices, na alegria e na tristeza. Cada vez que acontece uma cena, tem um passagem de tempo. Elas têm um ponto de encontro que é uma praça, que é onde o espetáculo se desenvolve, toda vez que acaba uma cena e começa outra, passaram-se alguns anos. Então elas começam aos 60 anos; uma delas completa 70 anos na praça; depois tem a faixa dos 80 anos; e assim o espetáculo vai, até que há um momento em que uma delas diz: “A vida demora a passar, a vida demora a vida inteira para passar”, e elas estão, a essa altura, na faixa dos 90 anos. E nisso tudo pensando no hoje, cuidando umas das outras, a fidelidade e amizade que existe entre elas é coisa bonita de se ver. A plateia vai se identificando com isso e é uma supresa porque nós achamos que pela nossa idade e bagagem profissional, e pelo título “As Meninas Velhas”, nós teríamos uma plateia grisalha, e isso não acontece, nós temos uma plateia que vai desde os 15 anos até os 80. Tem sido muito surpreendente a reação das pessoas das idades mais diversas, é emocionante ao final do espetáculo, quando saímos e cumprimentamos as pessoas. Tem sido um presente muito grande fazer parte desse espetáculo, lidar e falar a verdade sobre a idade. Nós não somos conformadas com a nossa idade, muito pelo contrário, esse lado meninas, a nossa juventude mental existe no espetáculo inteiro, que é extremamente engraçado e que não deixa  de emocionar, porque os problemas da idade também aparecem. 

E na sua vida pessoal você leva isso da mesma maneira? 

Eu acredito que sim. Tem uma semelhança muito grande, como eu disse antes, de viver o hoje. Hoje é o melhor dos tempos, e o hoje é verdadeiro, e ele precisa ser vivido da melhor maneira possível sempre. Então eu acho que a minha vida é muito parecida com o que a gente mostra nessa peça. E eu espero continuar assim à medida que envelheço.

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Você tem projetos de música?

Não, por enquanto não. Depois de uma pandemia, estamos nos dedicando de corpo e alma a esse espetáculo. Eu estou fazendo parte de uma longa-metragem chamado “Perdida”, eu estou filmando, mas não sei quando deve ir ao ar, estou muito feliz com esse convite que me fizeram, é um filme lindo, que eu não posso dar spoiler ainda. Durante a pandemia eu também fiz parte de uma série para Amazon Prime, chamado “Sentença”, fazendo uma mulher com mais de 80 anos, com uma maquiagem perfeita. Está sendo um sucesso e eu espero que venha a segunda temporada, quem sabe terceira e quarta. Então as coisas estão querendo voltar a acontecer na vida dos artistas desse País. 

Teatro São Cristóvão – Rua Capitão Pacheco e Chaves, 313, São Paulo, São Paulo. Telefone: (11) 99885-0022.
Temporada: até 28 de agosto de 2022 / sextas e sábados, às 21h; domingos, às 19h. Ingressos: R$ 80.