Ator interpreta personagem heterossexual homofóbico em “Flush” – Foto: Vinícius Mochizuki

Nicolas Prattes vive um heterossexual homofóbico no curta-metragem Flush (dirigido por Diego Freitas). Sua figura tem a heteronormatividade colocada em xeque quando fica preso em um banheiro com Sara, personagem não-binária interpretada por João Cortês, “Como artista, me coloco em um lugar de desconstrução da imagem que veem em mim, de homem branco, hétero, cis e privilegiado. Meu lugar de escuta, enquanto ator e atuante, me permite usar a voz a favor dessas pessoas, como instrumento”, opina o ator em entrevista à Bazaar.

A produção, que vem sendo destaque em festivais internacionais, e teve cuidado em selecionar mais de 50% da equipe como parte da comunidade LGBTQI+. O próprio ator fez laboratório, pesquisa com pessoas e documentários, para que não criasse algo que não viveu. “O receio de rejeição precisa ser transformado, principalmente quando você sabe que há um respeito pelas pessoas que você, como intérprete, está representando”, defende o ator, que pela primeira vez também assina como produtor.

Gravado em português e em inglês, o curta vem concorrendo no idioma-nato para entrar na categoria de estrangeiro nos festivais internacionais. Vem ganhando destaque pela temática LGBTQIA+, como no Queer X Film Culture Festival, no LA Brazilian Film Festival, e no Art 200 International Queer Film Festival, todos nos Estados Unidos. O filme também foi bem recebido no Festival de Vancouver, no Canadá, e no Indie Short Fest (de Los Angeles), no qual Freitas foi indicado a Melhor Diretor. Leia a íntegra com o ator:

Houve medo de a equipe ser confrontada por movimentos que defendem que para personagens LGBTQIA, os atores deveriam fazer parte da comunidade? Até para não serem acusados de estar de olho no Pink Money (poder de compra dentro da comunidade)?
Com este trabalho eu me sinto honrando meu compromisso com o público e com as pessoas que me ajudaram a construir o personagem. Como artista, eu me coloco num lugar de desconstrução da imagem que veem em mim, de homem branco, hétero, cis e privilegiado. Meu lugar de escuta, enquanto ator e atuante, me permite usar a voz a favor dessas pessoas, como instrumento. Se quem se identifica com meu trabalho olhar para a comunidade LGBTQIA+ com mais empatia e generosidade, eu vou me sentir um pouco mais próximo do mundo que eu desejo viver.

Como foi a construção do Tom? Você precisou conversar com pessoas que passaram por esse dilema de “largar” uma vida heteronormativa?
Como o personagem apresenta uma realidade muito diferente da minha. Precisei, sim, buscar muitas fontes externas. Conversei com pessoas que passaram por situações parecidas, ouvi atentamente suas histórias e assisti documentários para que começasse a entender esse “lugar de fala”, que não é o meu. A escuta é essencial para o trabalho de construção de todo ator, principalmente quando não temos referências pessoais para o que precisamos interpretar.

Como foi a preparação? Diálogos nas duas línguas foi a maior dificuldade dessa personagem, uma vez que você precisava demonstrar emoções de um nativo?
A preparação foi um processo mais intenso e demorado do que as filmagens. Passei um mês e meio em Nova York estudando, preparando meu corpo e trabalhando neste roteiro (nos dois idiomas). Atuar em inglês foi muito interessante. Embora seja fluente na língua, foi um desafio experimentar essa outra “voz de comando” de emoções na minha cabeça.

Sara (personagem de Cortês) confronta Tom a respeito de felicidade, que para ela é liberdade. Para ti, qual o conceito de felicidade? Você se lê como uma pessoa feliz?
A gente não é feliz só quando consegue algo grandioso, né? Felicidade, para mim, é a sensação de contentamento repetida, vivida com as alegrias das pequenas coisas. Para sentir isso, a gente não pode estagnar nunca. Procuro sempre evoluir, então, quando não estou “tão feliz”, ainda assim estou aprendendo, e crescendo. Sendo assim, eu me considero uma pessoa satisfeita com o que a existência me traz.

Curta ainda não tem previsão de estrear no Brasil – Foto: Vinícius Mochizuki

Este filme também marca sua estreia como produtor. Como foi a experiência?
Quando eu me vi tendo que pensar em contratação de catering, definindo transporte de equipe e calculando gastos com locação de equipamento, me dei conta de quanta coisa e quantas pessoas a gente precisa para fazer tudo aquilo funcionar tão bem. Já tinha uma percepção valiosa pela observação como ator, mas, sentir na pele e ajudar a decidir, me trouxe um entendimento mais amplo de responsabilidade em relação à equipe.

Recentemente, o cantor Vitão disse que já teve curiosidade, mas nunca chegou a ficar com outros homens. Sei que você namora (a também atriz Bruna Blaschek), mas como encara o lance da sexualidade?
Acho muito importante que todas as individualidades sejam consideradas, inclusive no que diz respeito à orientação sexual. A gente viveria em um mundo muito melhor se cada um se preocupasse com sua própria felicidade, sem especulações ou julgamentos sobre como se vive o amor.

Como vê a realidade de galãs do passado, que sempre tiveram de esconder a sexualidade por medo de perder papéis importantes na televisão?
As decisões sobre o silêncio, no passado, provavelmente foram pautadas pelo medo imposto por uma sociedade antiquada que escondia o que não aceitava debaixo do tapete, quando, na realidade, o mais importante deveria ser o trabalho de qualidade que estava sendo mostrado por estes atores… Acho tudo isso muito triste. Usando a mensagem trazida pelo próprio filme, esse tema precisa ser abordado pra que os preconceitos sejam derrubados. As pessoas precisam ter o direito e a coragem de viver a vida como desejam sem se sentirem sufocadas ou rejeitadas.

Como é para ti não fazer parte da sigla LGBTQIA + e ainda assim propor questionamentos como esse o de sair do armário?
Minha função como ator é estar disponível para retratar qualquer personagem que eu receba. Quanto mais distante da minha personalidade, mais me sinto desafiado. Já fui serial killer, vocalista de boyband, empresário milionário, filho rebelde… Quanto maior a provocação cênica, mais me interesso.

Filme está correndo festivais de cinema internacionais – Foto: Vinícius Mochizuki