Luiza Nobel usa luvas da Jiboya Corporation – Foto: Jorge Silvestre, com styling de Benia Almeida, assistência de styling de Jefferson Rocha e cabelo e maquiagem Pró Afro

As experiências de Luiza Nobel nas artes são múltiplas. Aos 27 anos, a cearense sempre teve um desejo muito forte de se expressar. Fez teatro e estudou audiovisual depois de ter sofrido bastante bullying na escola. A música a libertou do olhar preconceituoso e foi moldando sua identidade enquanto mulher preta.

Depois de algumas versões no YouTube – ela faz questão de frisar que estão mais para interpretações do que para covers – lançou no ano passado seu primeiro trabalho totalmente autoral. O lead single “Estamos Bem” ganhou vida em meio à quarentena e contou com produção da consagrada cantora e produtora Mahmundi.

Faz parte de um projeto maior, chamado “Preta Punk”, um compilado de singles que vai pavimentando sua plataforma musical, um patchwork de estilos, falando sobre corpo, autocuidado e síntese da quarentena. “Perspectivas visuais, construção, background e referências”, conta à Bazaar.

As faixas fazem alusão à musicalidade, mas contam o que gosta de ler, assistir e consumir. E, como ela é multi, além de cantar, também compõe, dirige, pensa em figurino e maquiagem. “Estou em um momento que quero experimentar, sempre cantei de tudo e componho do rap ao forró. Não queria me privar de um estilo em um disco. Criei esse mundo em que posso ser quem quiser e lançar o estilo que quiser”, analisa. “É muito interessante essa coisa de você trabalhar com o que você tem. Lidar com o pior e dar o seu melhor”, explica sobre a estreia de visual colorido com quê de kidcore e cadência que mescla um reggae pop e R&B mais melancólico. “Queria experimentar.”

A primeira música estava gravada desde o início do ano passado, após tutoria na Porto Iracema das Artes, e passou por ajustes para se adaptar à nova realidade ao lançar conteúdos digitais.

A próxima faixa de trabalho chama-se “Let’s Burn”, que compôs durante a pandemia e reverencia a família – não apenas a consanguínea, mas a artística. Nela, haverá participações de Negro Galo e Negra Voz. Nasceu no auge do “Vidas Negras Importam”, com a hashtag pululando nas redes sociais, exaltando identidade e negritude. “Fala sobre não se comparar a ninguém, beber em comunhão, fazer oração, pedir passagem para seguir. Espero que em breve (e vacinados) possamos fazer shows, sair. Para mim, é a anunciação desse novo momento em que a gente vai poder estar mais junto.”

Adolescente dos anos 2000, não teve tantas referências pop na cena negra brasileira a não ser a vanguarda da black music, que na época era ouvida por uma galera mais velha. De fora, não tem como negar a contribuição do trio Destiny’s Child. “A música da Beyoncé é um salmo. Se estou em dúvida ou na bad, abro o Spotify e boto pra tocar. Tiro muitas forças dali. E, lógico, Elza Soares”.

Suas referências são contemporâneas ao seu tempo. “Me inspiro muito em quem está fazendo arte agora porque essas pessoas me dão fôlego”, diz, citando Sandra de Sá, Emicida, Criolo e Baco Exu do Blues como forças-motriz. Pansexual (que envolve sexualidade em diferentes formas), coloca-se no lugar de artista preta e LGBTQIA+ para inspirar. “Se não fosse assumida, meu trabalho não seria metade do que é. Por que não falar sobre isso, sobre quem eu sou. Até para ser naturalizado”, endossa. “Se eu estou compartilhando a minha história, por que esconder uma parte dela?”.

Enquanto artista independente, Luiza busca equilíbrio entre o fazer artístico com o gerenciamento de carreira. Ao mesmo tempo, busca dar atenção aos fãs nas redes sociais porque eles ajudam a contar um pedacinho dessa história. Não gostou? “Não posso fazer nada. Quero aprender e aprendo a amar e a não ter vergonha.” Em sua narrativa, a mistura é fina, a voz estridente e a mensagem carregada de amor.