Maha Mamo narra em livro luta para conseguir um lugar no mundo e provar sua existência
Foto: Fernando Gutierrez Aliaga

Quando chegou ao Brasil em 2014, a então refugiada Maha Mamo viu no País a esperança de mudar de vida, ter acesso a serviços básicos, como saúde e educação, e até mesmo obter um simples documento que comprovasse sua existência. “Por 30 anos vivi apátrida”, reforça a ativista dos direitos humanos e dos sem pátria em conversa com Bazaar.

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Nascida no Líbano, até a adolescência ela não conhecia o significado da palavra stateless, apesar de falar quatro idiomas (árabe, alemão, inglês e francês). Também não entendia por que era privada de atividades típicas da idade, como viajar, acampar com os colegas de escotismo ou jogar basquete profissionalmente. Questionamentos como estes eram sempre motivo de discussão em casa.

Filha de um cristão e de uma muçulmana, a união de seus pais não foi reconhecida na Síria, onde nasceram, porque lá o casamento inter-religioso é inaceitável. Eles então fugiram para o Líbano para se casar. Pelas leis locais, no entanto, não basta nascer em solo libanês para obter a cidadania local. É preciso ter laços sanguíneos, o que nem Maha nem seus dois irmãos, Soud e Eddy, tinham.

A saga do trio, que por décadas buscou um país que os acolhesse, já que não eram reconhecidos como cidadãos, é narrada em um livro que lançado em dezembro. “Maha Mamo – A Luta de uma Ex-Apátrida pelo Direito de Existir”, de co-autoria do jornalista Darcio Oliveira, é a realização de um sonho que a ativista tem desde os 16 anos.

“O jeito de ele escrever não é técnico, é mais um romance. Não é uma biografia porque ainda não morri”, brinca, dizendo que, embora pautado pela vida real, até mesmo pessoas próximas questionaram a veracidade de algumas passagens, tamanho o drama. “Lendo, você consegue se sentir nos lugares. Chorei em muitas partes, ri em outras.” Ela frisa que Oliveira conseguiu dar o “cheiro” do Líbano às páginas.

“Acabo a história em 4 de outubro de 2018, quando consegui a minha nacionalidade no Brasil. Falo que renasci. O Darcio viajou para o Líbano, encontrou a minha mãe, esteve onde morei. Não consegui ir, mas ele visitou até a minha escola”. Trata-se de uma instituição armênia, a única que aceitou ensiná-la sem um documento.

O registro também dedica um trecho ao trágico episódio da morte do irmão, que não sabia falar português e morreu vítima de um assalto em Belo Horizonte. “A vida não espera ninguém. É tão cruel, que a primeira coisa que lhe foi tirada, depois de um mês de eu ter conseguido a nacionalidade, foi sua vida”, diz. “Falo que perdi meu irmão, sim, mas o Brasil deu a vida para ele por um ano e meio, tempo que havia passado no País.”

Apesar de passagens tristes e de muita luta, a vinda para os trópicos serviu para reforçar sua fé em Deus. “Minha cabeça e coração abriram muito mais. Fui para a umbanda, candomblé, conheci muitas religiões. Achei linda essa energia, não importa no que você acredita. Ter algo para crer é maravilhoso”, filosofa.

Outro encontro que abriu fronteiras para Maha foi uma entrevista ao Fantástico, que colocou Sônia Bridi em sua vida. “Ela me olhou nos olhos e falou: você tem uma história incrível. Mas como está vivendo?”, recorda. A repórter pegou o telefone e a colocou em contato com uma amiga, que a ajudou a se tornar palestrante – o que já lhe rendeu dois TED talks.

“É incrível e a postura dela diante da vida, tão forte e positiva, que ficamos amigas na hora”, lembra a jornalista, que assina o prefácio do lançamento. Sônia fala que a história de Maha começou muito antes de ela nascer: “os pais não tiveram direito de escolher com quem se casar. Depois, veio a falta de documentos que a privou do direito de ir e vir, e, por fim, uma sucessão de violações que acabaria trazendo ela e os irmãos Mamo ao Brasil.”

Hoje, a história de Maha, também integrante do movimento mundial I Belong (eu pertenço, em português), do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), inspira outras pessoas a irem atrás de um direito básico. Seu triunfo no Brasil foi fundamental para que a lei brasileira servisse de exemplo para outros países. Seu lema é “Everyone has the right to belong” (todo mundo tem o direito de pertencer, em tradução livre), frase escrita na camiseta que sempre usa junto à bandeira do Brasil enrolada no pescoço.

11Maha agora corre atrás das outras conquistas e o desejo maior de erradicar a população apátrida do mundo. Sabe que é quase impossível. Estima-se que hoje existam cerca de 10 milhões de pessoas que não pertencem oficialmente a lugar nenhum. Mas dialogar é sua principal ferramenta. Está mais do que pronta para novos capítulos da sua biografia.