Foto: Gal Oppido

Por Matheus Evangelista

Parece só uma sátira com paródias manjadas, inspiradas em bloggers e suas redes sociais, repletas de vídeos mostrando cada pedacinho da casa, do closet, o lanche da tarde regado a flores e porcelana inglesa e os recebidinhos.

Mas essa é a fonte de inspiração para uma crítica bem mais afiada: “Costumo dizer que a essência da Blogueirinha do Fim do Mundo é principalmente a política. Sou extremamente crítica ao governo de Jair Bolsonaro e a minha motivação maior foi essa. Mas também há um incômodo no universo das blogueiras, que pode gerar muita ansiedade, pode ser muito problemático para quem assiste sem a gente perceber”, explica a atriz Maria Bopp, que dá vida à hilária personagem, em conversa com Bazaar via Zoom.

E se a Blogueirinha não trata apenas de bloggers e sua infinidade de looks do dia, a atriz faz questão de inserir assuntos mais densos em formatos divertidos e tolerados pelo grande público. “Geralmente, vejo um assunto que quero falar sobre política ou alguma coisa cultural e só depois vou ver vídeos das blogueiras para tentar encontrar um fio condutor entre os dois”, conta.

Ela tem a seu favor a arte de saber absorver como uma esponja os trejeitos, as repetições exaustivas de palavras e até mesmo as posturas de suas musas ao avesso. Foi assim, por exemplo, que conseguiu criticar com maestria a desastrosa entrevista de Regina Duarte, então secretária da Cultura, à CNN Brasil, simplesmente com um tutorial de como fazer as malas para dias de descanso e relaxamento em plena quarentena. Bombou!

Aos 29 anos, a paulistana tem uma curta mas impactante carreira na TV. Sua estreia foi em 2011, na série “Oscar Freire 279”; em 2016 ficou conhecida por interpretar a personagem de Bruna Surfistinha, pseudônimo da empresária Raquel Pacheco, na série de televisão brasileira “Me Chama de Bruna”.

Esse ir e vir, somado à vontade de falar o que pensa, mas de um jeito inteligente e sagaz, resultou no sucesso de sua interpretação nas redes sociais. A boa nova? Ano que vem ela começa a filmar “TPM”, novo longa da diretora Eliana Fonseca. “Minha personagem será uma crosssfiteira e por isso preciso emagrecer, tanto que precisei começar a fazer dieta na quarentena e olha, é difícil, puxado”, diverte-se. Ela também acaba de estrear um podcast chamado “Só acho engraçado que” na plataforma de streaming Deezer, espécie de humor news.

Quando perguntada se seria amiga da Blogueirinha do Fim do Mundo, caso a personagem existisse na vida real, Maria solta uma gargalhada intensa, afinal, a pergunta não havia passado pela sua cabeça. “Olha…eu acho que não. A Blogueirinha é muito sem noção, teria muita dificuldade”, entrega. “Adoraria poder e vou falar a verdade: eu tenho dificuldade em dialogar com o lado de lá, e como hoje está tudo polarizado, estamos dizendo muito o lado de cá, o lado de lá. Gostaria de ter mais tolerância, mas, enfim, isso é algo que preciso conquistar. Seria muito difícil ter ela por perto, sabe?”.

Descolada, livre e desimpedida, Maria Bopp usou o período de isolamento social para se equilibrar. “No início da quarentena eu estava querendo manter a produtividade, fazer vídeos da Blogueirinha com assuntos quentes, escrever e tirar da gaveta projetos próprios, mas depois me vi um pouco intoxicada por essa necessidade de sempre estar online. Vi que essa produção incessante poderia ser uma armadilha para minha saúde mental”, conta ela que, a partir dessa reflexão, resolveu dar alguns passos para trás, dar um tempo nas redes sociais e colocar o pé no freio diante do imediatismo.

E por mais que Maria dê vida à Blogueirinha sem noção, no mundo real, o bom senso é palavra de ordem. Tanto que às vésperas de uma das eleições municipais mais atípicas de todos os tempos, a atriz ainda não sabe como seu alter ego irá enfrentar mais esse drama. “Estou construindo internamente como me posicionar nessas eleições. Será a primeira eleição dela (Blogueirinha) e, por um lado, dá um medo de ter a minha imagem associada a certos políticos que posso não confiar tanto, ou até a alguns que eu confie”, reflete. “É um assunto que vai vir à tona, mas eu ainda não sei como me posicionar nesse furacão”, finaliza. Mal podemos esperar.