Mariana Lima – Foto: Lucas Seixas

A atriz, escritora e produtora Mariana Lima, 48 anos, é uma mulher admirável. Decidida e forte, leva a vida à base do trabalho, senão para, como ela própria diz. E ela não quer parar. Casada há 22 anos com o também ator e diretor Enrique Días, e mãe das jovens Elena, 16, e Antônia, 13, Mariana acaba de ser uma das protagonistas da série global “Onde Está Meu Coração”, da Globoplay, onde fez a personagem Sofia, mãe de Amanda (Letícia Colin), uma médica bem-sucedida que se torna viciada em crack. Na série, que vale a pena ser vista, ela faz par com Fabio Assunção, como pais de Amanda.

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Além da série, Mariana estará em “Um Lugar ao Sol”, próxima novela das 9h da Rede Globo. Sua personagem é uma ex-modelo que engravida aos 50 anos e se envolve com a personagem de Natália Lage. A atriz ainda vai lançar o livro de sua peça “Cérebro-Coração”, pela Cobogó, e rodou os filmes “Ela e Eu”, de Gustavo Rosa, e “A Ruptura”, de Marcos Saboya, além de um longa com João Wainer.

Como se isso fosse pouco, ela ainda está cursando faculdade de história e tem vários projetos de teatro e audiovisuais pela frente, que devem ser lançados, senão neste ano, no máximo em 2022. “É que tem projeto de teatro, de cinema, de série. A gente ficou um ano trancado em casa trabalhando, né? Feito uns loucos para produzir, então, agora, está tudo acontecendo. Mas tem alguns projetos que talvez vão me ocupar bastante nos próximos anos. Um deles é um pouco maior, chamado, a princípio, de ‘Transatlântico’, que é um trabalho com dois diretores e coreógrafos com quem eu já trabalho, Cristina Moura e Renato Linhares, e que reúne um grupo grande de artistas colaboradores do Brasil todo e da África, por exemplo.”

Apaixonada pelas filhas adolescentes, Mariana deixa claro que, diferentemente do que viveu em sua própria adolescência, ela quer as meninas por perto, sempre que possível. Eles são uma família que viaja junto e compartilha a vida. “Sou completamente apaixonada pelas minhas filhas. E agora estão numa fase de sair de casa, eu fui uma adolescente que saiu cedo de casa. Eu gosto muito da presença delas aqui, de acompanhá-las, somos uma família muito agarrada.”

Mariana é feminista, não do tipo ostensiva, mas sabe que a causa merece a luta. Para ela, feminismo e antirracismo têm de ser um modo de vida. “O feminismo e o antirracismo têm que fazer parte do seu cotidiano e da sua vida, como modo de vida. Eu levo como modo de vida, mas talvez menos aguerrida como outras companheiras de luta, como atrizes da minha geração ou de uma geração mais nova, que eu sinto que brigam mais por isso.”

Sobre o governo Bolsonaro [Jair, sem partido], é direta. Questionada se vê alguma saída, diz: “Não. Só o impeachment. E as CPIs, inclusive espero que o centrão entenda o buraco em que a gente se meteu e aí apareça uma terceira via e tal. E que o governo Bolsonaro vá se desgastando até não sobreviver. Eu, de verdade, sonho que a gente não tenha que passar por um segundo turno Lula x Bolsonaro, porque nós já passamos por coisas demais”, desabafa.

Leia a seguir a entrevista que Mariana deu via Zoom à Bazaar.

Voltando lá atrás, quando nasce a atriz Mariana Lima?

Faz muito tempo (risos). Eu comecei com 17 anos. À época eu estava totalmente vocacionada para fazer faculdade de história, cheguei a fazer a primeira fase da Fuvest. Eu também já era bailarina. Então acabei fazendo um teste para um grupo de teatro que ia fazer uma turnê. Eu passei no teste e nunca mais deixei de fazer teatro, porque era um grupo que me iniciou nessa vida de uma forma muito especial, viajamos toda a América Latina, e eu fazendo teatro tão nova. No Brasil também fizemos muita coisa. Só fui voltar a fazer faculdade de história agora. 

Que bacana, você está estudando então, está gostando?

Estou, mas não estou vivenciando o campus. As aulas são online, mas, por outro lado, por conta disso, estou conseguindo fazer as aulas e gravar. Quando perco uma aula, posso assistir depois.

E seu lado produtora, como acontece?

Eu fui pela força das coisas, mesmo. Na verdade, quando eu comecei a trabalhar com o Teatro da Vertigem, com o Antônio Araújo, a gente não fazia só uma função, passávamos pela dramaturgia, eu passei pela experiência de escrever para cenas, e também de produzir. Muitas vezes fiz reunião com secretários de segurança pública, porque precisávamos de autorização para entrar nos presídios e tal. Toda a produção que envolve o teatro eu comecei a fazer cedo, assim como os outros integrantes da companhia, eu fiquei dez anos com eles. Escrevi até projeto para edital. E aí, quando eu comecei a produzir as minhas próprias peças, produzir com o Kike (Enrique Días, ator e diretor), meu marido, porque fomos parceiros de trabalho durante muitos anos, eu comecei a produzir para a minha própria empresa, então foi um caminho bem natural. E agora nós vamos começar a produzir também audiovisual. 

Você tem muitos trabalhos em teatro, cinema e TV, qual dessas artes te encanta mais?

Olha, eu sou multiencantada (risos). Não sinto uma preferência. Eu já fui muito mais do teatro do que qualquer outra coisa, muito mais apaixonada pelo teatro, não que eu não seja apaixonada hoje, mas era uma paixão mais exclusiva, nos meus primeiros anos. Mas com o tempo eu fui namorando e me apegando ao cinema e ao audiovisual. Hoje em dia, virei uma trígama, amo todas as artes, teatro, cinema e audiovisual. Fui chamada para fazer uma novela ou um filme, e fui me envolvendo criativamente com essas coisas. Eu tenho feito mais audiovisual do que teatro, porque com a pandemia, teatro não deu para fazer. Mas eu estou cheia de projetos de teatro para tocar quando tudo voltar.

Me conta desses projetos.

É que tem projeto de teatro, de cinema, de série. A gente ficou um ano trancado em casa trabalhando, né? Feito uns loucos para produzir, então, agora, está tudo acontecendo. Mas tem alguns projetos que talvez vão me ocupar bastante nos próximos anos. Um deles é um pouco maior, chamado, a princípio, de “Transatlântico”, que é um trabalho com dois diretores e coreógrafos com quem eu já trabalho, Cristina Moura e Renato Linhares, e que reúne um grupo grande de artistas colaboradores do Brasil todo e da África, por exemplo. Também estou fazendo a revisão do livro que escrevi, que é o “Cérebro-Coração”, que sai pela Pogobó. Quando os Sescs foram fechados, por conta da pandemia, nós tínhamos uma porção de projetos para acontecer, e essas viagens de “Cérebro-Coração” foram interrompidas. Então, agora, voltando, nós vamos retomar a peça, as viagens e já vou com o livro debaixo do braço. A gente vai fazer um lançamento virtual do livro e depois vender na exibição da peça.

Como criou sua personagem Sofia de “Onde Está Meu Coração”, da Globoplay, em que representa a mãe de uma viciada em crack? O fato de ser mãe ajudou na composição da personagem?

A gente criou muito junto, foi um trabalho de equipe mesmo, desde o início. Como a gente sabia que tinha um terreno dificílimo para atravessar, a diretora e o autor tiveram muito cuidado para que nós estivéssemos muito juntos e amparados, para entrar em searas delicadas para todo mundo. Tanto a maternidade, como a paternidade, que para nós todos era uma questão, eu tenho duas filhas adolescentes, o Fábio (Assunção) tem filho, a Letícia (Colin) estava grávida. E não era só entrar na história, mas na atmosfera que é a dependência química, que é também uma realidade das nossas vidas, do Fábio, da minha, eu tenho essa história familiar também, tenho envolvimento pessoal com isso, além de uma preocupação social, assim como Fábio e a Letícia. Então, a ideia era não só se cercar de dados, estatísticas, de tudo, mas também de um conforto, de saber que a gente ia colocar tudo isso aí para fora, mas que havia gente cuidando de nós. E cuidaram muito bem da gente para que pudéssemos nos derramar daquele jeito. Eu, particularmente, coloquei tudo ali, medo de perder filha para as drogas, tudo o que minha mãe sentiu em relação a mim, e do que eu vivi como adolescente, do que as minhas filhas adolescentes estão vivendo, do que eu posso ou não falar com elas, da estigmatização, da vergonha, a família, a sociedade. Foi um mergulho em tudo isso, tanto que quando acabou eu tive que dar um tempo. Porque não dá para gravar uma história dessas, tirar a roupa da personagem e achar que acabou, porque não acaba. 

Mariana Lima – Foto: Lucas Seixas

Conte sobre seu papel em “Um Lugar ao Sol”, quando fará uma ex-modelo com 50 anos que engravida e vai se relacionar com outra mulher.

É que tem um caminhozinho aí no meio que é meu casamento, um relacionamento hétero, aí tem toda a crise desse casamento, por causa da gravidez acontece essa crise, uma tragédia, que vai abalar a nossa estrutura de casal. Paralelamente a isso, eu sou uma ex-modelo de 50 anos, que já não é aceita pelo mercado, é uma discussão que eu e a Andréa Beltrão vamos carregar durante a novela. É isso, perder a libido, o lugar no mercado, o respeito. Aí acontece essa gravidez tardia, porque ela sempre abriu mão da maternidade por conta da carreira, e o relógio biológico “esmurra” a porta dela, e ela descongela os óvulos. E aí dá uma reviravolta, ao final disso, eu vou me envolver com uma mulher, que é a personagem da Natália Lage. Só que aí vem uma outra crise, porque ela sendo totalmente hétero, se apaixona por uma mulher e não sabe o que fazer com isso. 

Queria que você me falasse dos seus trabalhos no cinema. Tem “Ela e Eu”, do Gustavo Rosa, “A Ruptura”, de Marcos Saboya, além de um longa com João Wainer.

O do Gustavo [Rosa, “Eu e Ela”], eu já vi, ficou lindo. É uma beleza de filme com a Andréa Beltrão, Edu Moscovis e Lara Tremouroux. É uma história linda de uma mulher que entra em coma na hora do parto. E essa família que era constituída por essa mulher, vai ganhar uma outra mulher, que sou eu. Aí, essa mulher que está em coma, vive com a família nova, e um dia ela acorda e desperta essa família para uma nova realidade. É um filme bonito, delicado, filmamos tudo aqui no Rio de Janeiro em uma casinha de classe média baixa, é um outro universo. 

“A Ruptura” já é um documentário sobre a corrupção, em que eu faço uma mistura de personagens, sou Fausto e Mefisto, faço dois personagens, é um registro mais teatral dentro de um documentário de ficção, em um cenário teatral construído dentro de um galpão. Nós filmamos durante três dias, e eu não sei bem o resultado ainda. Mas vou fazer essa ponte ficcional.

Já o do João [Wainer], é um filme argentino, o personagem do Chay Suede assalta um carro e fica preso dentro dele, o carro é do personagem do Alexandre Nero, e eu faço a policial que vai resolver a situação no final. 

E quais são seus próximos projetos, fora o teatro, que você já citou?

Estou desenvolvendo três projetos para TV, séries e documentário. São projetos que alguns deles já têm mais de um ano. 

Como é o feminismo na sua vida?

Eu me coloco diariamente na minha própria reeducação, como mulher, no meu casamento e na educação das minhas filhas, basicamente. Mas eu não pratico o feminismo que eu chamo de ostensivo, talvez falte para mim uma militância maior. Talvez falte em mim essa militâncias, mas acho que vou deixar para as minhas filhas fazerem. O feminismo e o antirracismo têm que fazer parte do seu cotidiano e da sua vida, como modo de vida. Eu levo como modo de vida, mas talvez menos aguerrida como outras companheiras de luta, como atrizes da minha geração ou de uma geração mais nova, que eu sinto que brigam mais por isso. Mas sempre que surge um sinal de machismo ou de patriarcalismo em mim, no Enrique [marido] ou nas minhas filhas eu combato com unhas e dentes, eu viro uma fera. Mas eu não estou querendo ficar cheia de raiva. 

E você é assim ponderada em todas as outras causas, como a causa preta, por exemplo? Em que pessoas abrem suas contas no Instagram para dar espaço a negros e tal.

Não, isso eu faço, e muito. E fico muitas vezes como mulher branca carregada de privilégios, às vezes eu fico muito defendida, então quando eu digo que não sou tão aguerrida, é que eu procuro não brigar com as pessoas por causa disso. Mas eu acho que são causas urgentes, que têm de ser combatidas diariamente, a cada minuto do seu dia. Por exemplo, aí você recebe um roteiro e pensa, cadê a família preta desse roteiro, e não tem, no lugar tem uma família branca. Mas eu estou recebendo roteiro de família branca há 20 anos, quando que vocês vão manda um roteiro com uma família interracial? No Brasil não temos? Podemos falar de uma família de classe média alta que não tenha só brancos, só héteros, mas é o tempo todo. Chega aqui, de repente, uma coletânea de textos sobre pandemia, aí você olha e todos os autores são brancos? Não tem nenhum preto? Eu tentei me colocar de uma maneira mais calma, porque essa briga entre Instagram e Twitter me faz muito mal. Eu entro no Twitter e penso que as pessoas estão em uma arena se digladiando, como é que elas conseguem dormir? É muito agressivo, muito violento. Você lê coisas como: sua escrota, comunista, sua família inteira vai morrer! Eu penso, meu Deus, eu não consigo ler isso. 

Como você vê esse governo que prega a ideia de anticultura?

Bom, você sabe como eu vejo. É um governo antitudo, anti-ideia de governo, inclusive. Se tivéssemos tido algum governo estaríamos melhor do que estamos hoje. Porque é um governo antigoverno, antidemocracia, anticultura, antissaúde, anti-humanidade, pró-guerra, pró-armamento, pró-violência, um governo fascista, do qual eu espero que a gente se livre o mais rápido possível. Na secretaria de Cultura, temos uma pessoa anticultura, na Fundação Palmares, um negro racista, no Ministério da Saúde temos o que estamos vendo. Eu acho os últimos anos de governo Bolsonaro [Jair, sem partido] de horror.

Você vê alguma saída?

Não. Só o impeachment. E as CPIs, inclusive espero que o centrão entenda o buraco em que a gente se meteu e aí apareça uma terceira via e tal. E que o governo Bolsonaro vá se desgastando até não sobreviver. Eu, de verdade, sonho que a gente não tenha que passar por um segundo turno Lula x Bolsonaro, porque nós já passamos por coisas demais. 

Mariana Lima – Foto: Lucas Seixas

Como foi a maternidade na sua vida, mudou tudo?

Mudou tudo. Eu adorei engravidar, adorei parir, adorei ser mãe. Acho que eu teria tido mais filhos se eu tivesse condições financeiras, e também eu tive filho mais tarde, eu fui ter filho com 30, 31 anos, minha mãe me teve com 21 anos. Eu sei que hoje em dia as mulheres estão tendo filhos cada vez mais tarde, e eu já estava com a minha carreira artística estabelecida. Eu tive depressão pós-parto, fiquei muito cansada, quando a minha primeira filha fez nove meses eu perdi meu irmão, em um acidente, então tive que lidar com a vida e o luto ao mesmo tempo. Me desestabilizou muito.

Mas sou completamente apaixonada pelas minhas filhas. E agora estão numa fase de sair de casa, eu fui uma adolescente que saiu cedo de casa. Eu gosto muito da presença delas aqui, de acompanhá-las, somos uma família muito agarrada. 

Você tem algum ritual de beleza?

Ritual, ritual eu não tenho. Eu lavo o rosto de manhã e à noite e passo hidratante. Eu vou à dermatologista, também, ela me passa umas coisas, mas eu só volto depois de um ano. Faço coisas que promovem a produção de colágeno na pele, nada que mexa com o meu rosto. 

E do corpo?

Hoje estou mais saudável de corpo do que há dez anos, porque eu nado no mar, todos os dias, pela manhã, a Andréa [Beltrão] fez essa benesse na minha vida, ela faz isso há mais de dez anos. Ela me levou lá e eu nunca mais parei. Eu faço também uns exercícios de musculação em casa para manter o corpo. Isso realmente é uma preocupação para mim, envelhecer bem, com saúde mental e física.