Getúlio Abelha – Foto: Sillas H, com styling de Anuro e Cacau Francisco

Getúlio Abelha, 28 anos, não era uma criança que gostava de Chiquititas nem de RBD. Seu gosto pelo forró eletrônico foi totalmente influenciado pelo pai, que o carregava para serestas e shows desse gênero musical na infância, o que lhe rendeu até uma música gravada naquela época. Como eram outros tempos, o som se perdeu.

Seu caldeirão sonoro vai de Mastruz com Leite e Calcinha Preta até Magníficos, bandas que fizeram sucesso nos anos 1990 para além do axé da Bahia. Piauiense radicado em Fortaleza há quase uma década, foi cursar teatro na universidade federal do Ceará. “Não achava que tinha potência vocal e o caminho, para mim, era ser ator”, explica à Bazaar.

Passou dois anos na faculdade, mas não se formou – se deu conta de que não seria acadêmico. Aproveitou para fazer todos os cursos práticos que podia na construção do seu eu artístico – um clown do forró envelopado por uma extravagante persona andrógina. Caiu fora antes do temido trabalho de conclusão de curso (TCC), mas continuou dividindo os palcos com amigos da capital cearense.

Naquela época, ainda usava o nome de registro. Abelha veio como uma ode à Paulinha Abelha, vocalista do Calcinha Preta, e por ser único na busca do Google. “Achava que ia cantar música eletrônica, mais para Depeche Mode ou Marilyn Manson”, relembra. Preferiu não se arriscar nessa vibe por ser bastante influenciado pelas revoluções identitárias e políticas do nosso tempo, e por ser escrachado e adorar palavrão. “Já sou esse corpo esquisito, experimento visuais. Sou considerado louco. Por que não aplicar isso no forró?”, conta o artista que fez “Laricado”, seu primeiro som, em 2017.

Naquela época, rodou o Brasil na tentativa de conquistar público, não apenas voltado à música, já que abria frentes no teatro, cinema e boate. E foi criando sua colmeia País afora.

Artista múltiplo, Abelha é oito ou 80. Deu outra estética para “Amor de Que” para o “111 Deluxe”, álbum de remixes de Pabllo Vittar, mas também já frequentou a lista de vídeos virais de programas dominicais, como o de Eliana, ao cantar na praça de alimentação de um shopping e, em outro momento, ao ser perseguido por um cachorro.

Getúlio Abelha – Foto: Sillas H, com styling de Anuro e Cacau Francisco

Ele não nega a possibilidade de largar tudo para voltar ao teatro ou se dedicar à carreira de artista visual. Essa dicotomia entre popular e conceitual o persegue, mas não é algo que lhe tira o sono. “Me considero sério e triste, mas ninguém vê isso. Quando me expresso, as pessoas me acham muito engraçado. E entendo por que me jogo, vou fundo e sempre sai uma piada. Estou entrando em um lugar de querer trabalhar coisas mais sérias.”

Queria ter lançado seu primeiro álbum até 2018, o que não aconteceu. Hoje, confessa, já tem outros interesses estéticos. Mas por essa dívida com os fãs, seu disco de estreia não tem escapatória. “Marmota”, com 12 faixas, contando os interlúdios, chega em abril com a promessa de clipes para todas as músicas (que ainda não lançou), como o carro-chefe “Voguebike”. “Falo sobre ter um desejo de viver, dançar e enlouquecer, se expressar, colocar dores para fora por meio da cultura nordestina, sempre com humor.”

Pegou emprestado o nome pelo qual foi chamado a vida inteira pelas brincadeiras, estilo e atitudes extravagantes, que resumem a estética. “Quero que seja um álbum que você ouça e consiga visualizar as ações.” Nele, também há os lançamentos avulsos, de Carnaval, as marchinhas futuristas e divertidas.

A maioria das músicas surgiu de suas andanças de bicicleta sem freio pela cidade. Até mesmo para falar de amor ele ambienta nessa temática. Por ter tom confessional, não chamou nenhum artista para colaborar. Mas não nega a possibilidade de criar narrativas paralelas, chamando amigos para dividir vocais em novos rumos.

O álbum segue o projeto audiovisual “Ao vivo no Madruguinha” (DVD Volume 1), lançado em janeiro. “A gente que é independente, está começando ou não tem dinheiro, tem mania de acreditar que faz sentido se inspirar em lançamentos de artistas grandes. Fica nessa de ‘ah, vou lançar um álbum, dois meses depois vou lançar um DVD’, como se estivesse no topo da indústria”, pontua.

Como cuida da carreira de forma 360, divide-se entre o trabalho de operário e o de abelha rainha. Dirigiu praticamente todos os seus clipes até aqui e é responsável por seus próprios figurinos. Além de escrever as letras e produzir suas melodias, paga os boletos e ainda arranja tempo para os prazeres da vida. “Tudo isso leva tempo”, brinca.

Ciente da construção de seu trabalho, sabe que sua arte fala por si só e o destino é quem decide. Se primeira produção de mel na apicultura pode ser colhida somente depois do 12º mês, com milhares de abelhas trabalhando em uma colmeia, nesse voo solo de polinização, o cantor não tem pressa em esperar seu doce mel, com pitada de deboche e alto astral.