Foto: Divulgação
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Desde o começo da história do Brasil, a França sempre fez parte do imaginário coletivo do País. Mesmo com duas tentativas frustradas de colonização, nosso vizinho europeu conseguiu dar as caras de várias outras formas, sem se impor de forma autoritária, tudo no melhor estilo “Vivre et laisser vivre” (Viva e deixe viver, tradução livre). A tal “atração francesa” se manifestou na presença da Guiana Francesa em plena floresta Amazônica; na assimilação das ideias positivistas de Auguste Comte na bandeira nacional; na Semana de Arte Moderna, que bebeu em fontes francesas para criar o conceito de antropofagismo; no Corcovado, que foi criado por um artista francês, Paul Landowsky, entre tantas outras conexões. Mas, calma. Você, que leu até aqui, não vá pensando que se deparou com um texto escolar e didático… Prometo que o buraco é bem mais embaixo e bem mais interessante!

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Nesse ano, em que comemoramos os 204 anos da vinda da Missão Artística Francesa no Brasil – grupo de artistas franceses que vieram ao País para criar uma Escola de Belas Artes a pedido do rei Dom João VI – o questionamento é mais que natural e bem-vindo. Passados dois séculos desse momento de relação quase íntima dos dois países (alguns artistas da delegação ficaram em terras brasileiras por mais de 15 anos, contribuindo para a criação de obras fundamentais da época), qual o legado dessa cooperação, e, afinal de contas, o que é essa “tentação” francesa?

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Quem responde é Mathias Kiss, artista parisiense dos mais bem cotados e respeitados de sua geração. Desde a abertura da porta de seu estúdio em frente à Place des Voges, Mathias ciceroneia, no melhor sentido do termo. Desde a maneira de discorrer generosamente sobre o passado de artesão e restaurador de monumentos nacionais nos “Compagnons du Devoir” (associação centenária francesa destinada à formação e ao aprendizado de vários métiers), até sua libertação e reconhecimento como artista independente, há 20 anos.

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Ou mesmo quando procura uma obra na biblioteca apinhada de livros (“queria te mostrar o Palais de Santos, embaixada da França Portugal, lugar que ajudei a restaurar em 1996!”). Com uma agenda lotada de convites para expor em galerias e museus, além da criação de obras que contestam a ordem estabelecida pelo academismo francês – sua escola, mas também seu antagonismo -, seu tempo é curto e precioso.

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Suas últimas exposições, uma “carta branca” no Musée du Mobilier National para reinterpretar o ouro, um de seus temas favoritos, no percurso Créer pour Louis XIV; e uma instalação in situ no Palais des Beaux-Arts de Lille, intitulada Besoin d’air, – uma piscina de espelhos que refletia o teto do átrio do museu, recheado de quadrados de céu e nuvens, com um efeito pixelizado – , mostram sua paixão pelo trabalho.

Mesmo com esse tempo que urge, o artista de 47 anos se debruça sobre a questão franco-brasileira. Como interpretar esse “namoro artístico” que já dura vários séculos entre os dois países? “A começar por Niemeyer, que criou a sede do Partido Comunista francês e a Maison de la Culture do Havre, por exemplo. O que é interessante é que o trabalho dele não era admirado nessa época (entre os anos 1960 e 1980), exatamente o que aconteceu com Serge Gainsbourg, Daniel Buren e Auguste Perret, arquiteto que reconstruiu a cidade de Havre no pós-guerra”, afirma o artista à Bazaar.

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“Na França, o que detestamos no passado, como forma de repulsa à modernidade, se torna um clássico décadas depois. Afinal de contas, somos um velho país conservador”, explica Mathias. “Somos prisioneiros de uma espécie de herança dos velhos tempos. Quando os estrangeiros vêm para cá, eles têm a impressão que ainda dirigimos calhambeques!”, diz Mathias.

Ouro e corda
Para ilustrar a diferença ou o complemento artístico entre os dois países, nada melhor que a exposição que Mathias fez em parceria com a artista brasileira Janaina Mello Landini para a exposição Double Je no Palais de Tokyo. Mathias criou in situ Golden Snake, uma enorme cornija coberta com folhas de ouro, totalmente libertada de seu enquadramento, enquanto Janaina interagiu com seu Ciclotrama, 220 metros de corda em polietileno preta, em forma de raízes primitivas que “invadem” o academismo francês, mesmo que desenquadrado de seu propósito clássico. “Mostrei o classicismo da sociedade francesa, mesmo que ‘ultrapassado’ a partir de materiais nobres como a madeira e o gesso com as técnicas milenares de folhagem do ouro e Janaina o interpretou com um material quase orgânico e vivo, ‘selvagem’, como se fosse o pulmão da terra”, explica. “O diálogo entre os dois é superforte e representa bem o diálogo entre a dança espontânea brasileira com os códigos restritos franceses”, acrescenta. “Virei fã da Janaína”, revela.

Aliás, essa “conversa” de Mathias com outras culturas e domínios se dá também na moda. O artista com ascendência húngara já está na sua décima segunda parceria com a Hermès, para a qual cria instalações espetaculares para as apresentações dos sapatos do designer Pierre Hardy. “A da próxima temporada (fevereiro, durante a semana do prêt-à-porter) de moda vai ser um estouro!”, conta. Igualmente, para a Boucheron, ele criou “Clouds” em 2015, uma instalação feita com esculturas de nuvens pixelizadas cobertas de folhas de prata para abrigar um dos anéis da coleção de alta joalheria da marca. Um universo onírico que propõe ao espectador a possibilidade de sensações diversas.

Nada impossível para esse artesão-artista que começou como aprendiz de pintor-vidraceiro nos aos 14 anos, época que foi expulso da escola. Aos 17, entrou para o círculo dos Compagnons, onde aprendeu e se aperfeiçoou no restauro de monumentos nacionais como o Louvre, a Notre-Dame, a Comédie Française, o Opéra Garnier, o Conseil d’État (Conselho de Estado), entre tantos outros. Com essas grandes obras, de grande importância para a tradicional cultura francesa, ele se formou como artesão de primeira linha. Dezesseis anos depois, veio o grande estalo: o desejo de fazer diferente, de sair do enquadramento, fugir do protocolo do academismo francês, de descodificar o classicismo cheio de regras, e, ao mesmo tempo de prestar homenagem ao seus “pais” e “pares” adotivos, seus mestres, seus professores de canteiro de obras. Uma tarefa corajosa e libertadora.

Para enlaçar essa relação apaixonante entre França e Brasil, Mathias lembra de um de clientes, o jogador de futebol Neymar, que adquiriu recentemente um “Miroir Froissé (Sans 90 degré)” (Espelho amarrotado – Sem 90 graus, tradução livre), espécie de obra emblemática do artista. “Uma peça criada em reação aos meus anos nos Compagnons. Uma obra que liberta a técnica, as regras e os ditames, amarrotando o academismo que me sufocava…Em resumo, o fruto de um trabalho sobre a deformação de materiais rígidos para quebrar os códigos”, afirma Mathias.

E para finalizar, nada melhor que as repostas de Mathias para um bom “Questionário de Proust”, conjunto de perguntas aplicadas desde a Era Vitoriana destinado ao autoconhecimento (não poderia deixar de fazer um apelo a nosso caro literário francês Proust, bien sûr)!

Merci, Mathias!

A virtude que mais valorizo
A generosidade

Qual é a característica que mais detesta nos outros?
Pergunte aos outros

Meu traço de personalidade mais revelador
Generosidade e personalidade forte

O que mais gosto nos meus amigos
Fidelidade

Minha principal força
Minha personalidade forte

Minha principal fraqueza
Minha personalidade forte

Minha ocupação favorita
Trabalho

Minha ideia de felicidade
Amor

Minha ideia de infelicidade
O amor que dá errado

Se eu não fosse eu, quem gostaria de ser?
Mohamed Ali

Onde eu gostaria de morar?
No meu ateliê

A cor que mais gosto
A do céu

A flor que mais gosto
A que me oferecem

Meu pássaro favorito
Aquele que é livre

Meu prato favorito
Aquele que terminou

Minha bebida favorita
Aquela que vai chegar

O som / ruído que mais gosto
O silêncio

A palavra que mais gosto
Aquela da pessoa que me ama

A palavra que mais odeio
Traição

Meus nomes favoritos (feminino / masculino)
Eu gosto de pessoas, não de nomes

Meus escritores favoritos
Não tenho autores favoritos, prefiro aquele que falta ser lido

Meus heróis favoritos na ficção
Columbo

Minhas heroínas favoritas na ficção
Mulher Maravilha

Meus músicos / cantores favoritos
Existem tantos … mas eu diria AIR

Meus heróis na vida real (vivos ou mortos)
Benevolentes

Minhas heroínas favoritas na vida real (viva ou morta)
Benevolentes

A reforma / evolução histórica que mais admiro
O direito ao aborto, tão recente na França, tão óbvio, a liberdade dada às mulheres para fazerem o que bem entenderem

Os personagens que mais odeio na história humana
O homem

O que odeio acima de tudo
Sair da cama contrariado

Minhas falhas mais indulgentes
Tudo é uma questão de contexto e de pessoa…

O dom que eu gostaria de ter
Ser bom em idiomas

Como eu gostaria de morrer
Não gosto nem de imaginar

Como eu gostaria de reencarnar
Não tenho certeza do conceito de reencarnação

O meu lema
Menos blá blá blá e mais resultado!

Meu estado de espírito atual
Speed!