MC Tha lança EP que mistura regravações de Alcione, pop e batidas de terreiro
Foto: Rodrigo de Carvalho, com ilustração de Arthur Marques

“As pessoas me perguntam se canto funk ou MPB e digo que canto MPB, porque funk é uma música popular brasileira. Mais popular que ele, nos dias de hoje, não sei o que é.” O posicionamento forte e expressivo de Thais Dayane da Silva, que responde pela alcunha de MC Tha, transmite a bagagem da artista que desponta hoje como uma das principais vozes do funk vindo da periferia, que mistura traços sonoros do pop e dos sons afro-religiosos.

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Depois de presentear o mundo com o primeiro álbum de estúdio, “Rito de Passá”, de 2019, a cantora apresenta, em maio, seu mais novo trabalho musical: o EP “Meu Santo É Forte”, que chega em áudio e vídeo e “celebra a música de terreiro”, segundo a própria artista. “Não tem como desatrelar eu e o meu som da religião, da mulher livre que sou. Eu sou isso. Vai muito além da minha música.”

Nascida e criada na Cidade Tiradentes, região da periferia de São Paulo, seus primeiros passos na música foram nos bailes funk de lá. Ainda adolescente, criou laços e referências musicais, começou a compor e a se jogar neste universo, chegando a ser a única MC mulher que fazia acontecer na cena musical por ali. Teve um hiato longo até ser incentivada por seu amigo e também artista Jaloo a seguir no mundo das partituras.

Novo EP de MC Tha mistura regravações de Alcione, pop e batidas de terreiro
Foto: Rodrigo de Carvalho

Morando agora em Salvador e perto dos 30 anos, Tha entende como é intenso e complicado refletir sobre as fases da vida e sobre a sinceridade em relação ao mundo sendo mulher. “É cruel chegar perto dos 30, fazendo funk, não tendo corpão, buscando fazer uma música sensível dentro de um mercado pop em que tudo é descartável e rápido demais, sem entender o que queremos ser”, dispara, e completa: “Mas, hoje, me sinto mais madura e pronta, depois de todo esse tempo pandêmico, principalmente. As pessoas precisam de uma artista que reflita sobre a sinceridade da transição de menina para mulher”.

O trabalho que nasce agora veio da brincadeira de fãs nas redes sociais: enquanto divulgava fotos e videoclipes de sua primeira era musical, alguns apontavam a similaridade com Alcione, quando mais nova. “Cheguei até a pensar sobre como seria legal regravar músicas dela e utilizar da mesma estética. Passou como um sopro e foi embora.”

No entanto, em setembro passado, a ideia amadureceu e se tornou real: ela e seu companheiro, o produtor e artista transmídia, Mahal Pita, mergulharam no vasto e rico repertório da artista em atividade desde os anos 1970. Escolheram a dedo cinco canções para regravar e completar a pesquisa musical que fazem sobre a ligação entre o funk e a música afro percussiva, entregando releituras que mesclam batidas de terreiro com o ritmo.

Novo EP de MC Tha mistura regravações de Alcione, pop e batidas de terreiro
Foto: Rodrigo de Carvalho

“No EP, buscamos entender o funk e como ele seria se, talvez, as pessoas de periferia tivessem mais consciência de raça. Se o próprio funk fosse mais ligado com o terreiro do que com a igreja evangélica.” Para chegar a este EP, Tha e Mahal foram buscar referências no que é feito hoje em dia em diferentes lugares do País: no funk minimalista e recheado de agudos, de São Paulo; nos beats frenéticos cariocas, traduzidos por eles por meio das batidas de atabaque; e no funk e na cena de rap de Minas Gerais, com artistas que bebem das batidas do Miami Bass, popular na década de 1990. “Misturamos tudo.”

O trabalho vem, ainda, com um produto audiovisual em que a artista apresenta e canta as cinco faixas do EP com referência direta aos programas musicais de TV dos anos 1970 e 1980, principalmente o “Alerta Geral”, em que Alcione convidava músicos para cantar e discutir temas relevantes à época.

Novo EP de MC Tha mistura regravações de Alcione, pop e batidas de terreiro
Foto: Rodrigo de Carvalho

Para Tha, o sonho de cantar suas músicas de orixás e entidades em uma emissora de televisão ainda é algo distante e utópico. Para isso, então, é preciso inventar realidades. “Se não tem um programa para cantar, crio um. Acredito no novo, na possibilidade de gerar espaços e uma nova realidade. Isso aconteceu comigo até hoje: não me moldei ao mercado. Tenho meu som, meu cabelo, minha roupa e meu corpo”, arremata, completando: “O EP e meu próximo álbum vêm para firmar essa bandeira branca naquilo tudo o que eu conquistei e que é meu. Trabalho para deixar estes espaços ainda mais abertos”.