Foto: Deco Cury

Foto: Deco Cury

Por Martha Nowill 

Está tudo bem comigo. Tudo o que me aconteceu de bom e de ruim na vida me constitui e me faz ser quem sou. Esse é um resumo bem simplificado da minha história e ela não pode ser mudada. Só estou contando e me expondo mais do que gostaria, porque isso, sim, pode mudar alguma coisa.

Do 1 aos 4 anos, morei em Paris: pedia a minha mãe um saco de fraises, aquela bala azedinha que imita morango, e insistia em assistir repetidamente à mesma peça todos os domingos. Aos 5, voltamos ao Brasil e ganhei minha primeira festa de aniversário para mais de seis convidados, no jardim da casa da minha avó. Aos 6, vestida em pétalas de crepom, ganhei meu primeiro papel na peça do colégio: o da mãe-natureza. Aos 7, gostava de dizer que meu pai era médico e minha mãe, advogada. Aos 8, sofri meu primeiro assédio sexual.

Assédio, abuso, invasão, violação, iniciação. Não sei qual o termo mais adequado para um sentimento tão inadequado.

Nós tínhamos um motorista que nos levava para o colégio todas as manhãs, num Fusca verde. Ele tinha um carro cheio de adesivos sobre a palavra de Deus. Era mórmon, simpático, grande.

Eu gostava dele. Um dia, pedi que parasse para comprar chocolate. Ele disse que só pararia se eu deixasse ele brincar dentro da minha calcinha. Estava com uma calcinha de algodão branca e coraçãozinho roxo, minha predileta. “Tá bom”, eu disse. Ele parou o carro e enfiou aquela mão enorme em mim. Senti cócegas, ri. Depois, vontade de chorar. Pedi para ele parar.

Compramos o chocolate e engoli minha vontade de morrer junto com os bombons. Não contei para ninguém, e por isso tive de conviver com ele e com aquela sensação de medo e culpa durante os anos em que continuou trabalhando em casa.

Posto este parágrafo, e este episódio, minha vida continuou normalmente. Troquei de colégio, fiz primeira comunhão, descobri a poesia, coloquei aparelho, fiz teatro, virei CDF, viajei, dei uma festa dançante e fiz um monte de amigos. Tive medo de o meu pai e a minha mãe morrerem, tive medo de nunca aprender matemática, me apaixonei por uma pilha de meninos no colégio, que nunca me deram bola. Paralisei no banheiro quando fiquei menstruada.

Engordei, emagreci, fiz natação, aprendi a jogar buraco, fazer brigadeiro, andar a cavalo. Dei o primeiro beijo, bebi cerveja, colecionei perfumes. Comprei uma saia hippie. Tive medo de os meus pais se separarem. Tirei meu CPF, título eleitoral, achei que tinha virado adulta. Comecei a querer roupas, batons, sapatos. Continuei estudando teatro, agora profissionalmente, comecei a fumar, ir a balada, comprei um celular, deixei de ser CDF.

Aí veio o dia em que o cara perguntou se a gente podia ir a um motel. Respondi com um “sou virgem” e voltei para casa, deprimida. Ele não era meu namorado, nunca tinha tido um namorado e já intuía que as coisas iam demorar a dar certo para mim no campo amoroso. Mas não podia ficar virgem até lá, certo? De certa forma, minha iniciação sexual havia acontecido dentro daquele Fusca – e da pior forma possível. Morria de vontade de transar, sabia que era normal, que estava na idade certa, mas tinha uma trava enorme dentro de mim. Então, resolvi da forma mais prática e menos amorosa comigo mesma possível. Liguei para aquele moço e marquei. Ele tentou ser legal, mas eu não deixei. Lembro-me de, no dia seguinte, ir prestar vestibular para a faculdade de Cinema e sentir dor.

Posto este parágrafo, e este episódio, minha vida continuou normalmente. Meus pais se separaram, viajei sozinha, ia a jam sessions em plena segunda-feira e me achava a pessoa mais cool do planeta. Vi todos os Truffauts, Hitchcocks, Antonionis. Dava festas para arrecadar dinheiro para as peças, fiz minha estreia profissional nos palcos, me apaixonei tantas vezes que parece que foi em outra encarnação. Sentava-me no chão do banheiro e ouvia Retrato em Branco e Preto no repeat. Não consegui uma só vez gostar de quem gostasse de mim, e minha vida sexual continuava um desastre: uma mistura de culpa, tesão e vergonha. Fiz terapia junguiana, analítica, espiritual, corporal, mas nunca falei do ocorrido. É como você ir ao dentista e esconder uma cárie. Insistia em dizer para mim mesma que aquele episódio era irrelevante, que não havia me abalado.

Aí me formei e fui morar com uma amiga. Não conseguia ganhar dinheiro como atriz e seguia uma dieta à base de miojo, quibe congelado e abobrinha. De vez em quando, fugia para a casa do meu pai. Ou da minha mãe. Queria desistir de ser adulta e poder jogar as roupas sujas no cesto sem me preocupar com o rumo delas. E a vida explodiu numa série de dificuldades, festas, ansiedades, conquistas, amor, terror, perdas, medos, paixões, livros, mortes, amigos, testes e mais testes. Como todas as vidas. Evoluí, decidi o que queria ser, namorei, aprendi a revelar foto, a encarar a plateia, a pagar as contas antes do vencimento. Continuei com medo de que meus pais morressem, continuei péssima em matemática, continuei me achando a pessoa mais cool do planeta. Mas só uma vez por semana. Entendi que minha maior inimiga era eu mesma e que a batalha seria longa, mas que chegaria lá. “Lá” era minha Pasárgada: viveria um grande amor e seria uma atriz muito boa e famosa.

Hoje, vivo um grande amor e ele me prepara tapioca todas as manhãs. E, de fato, sou uma boa atriz. Famosa é a Adele, não eu. Mas, entre o último parágrafo e esta frase, existe um épico que eu decidi pular para cair diretamente no momento em que abro o Facebook e deparo com as hashtags do #primeiroassédio. “Nem a pau que eu vou contar a história do Seu Joselito”, pensei. Um dia se passou e as mulheres continuavam postando. “Poxa, todas essas mulheres postando e eu aqui me preservando?” Escrevi o parágrafo com calma e com o choro preso. Postei. Trouxe à luz. Anos segurando aquilo. Foi como tomar uma dose única de um antídoto, foi como se eu ganhasse uma série de irmãs. Minha mãe me ligou chorando. Meu pai não está no Facebook. Minha prima me escreveu dizendo que ele também a havia assediado de forma parecida. Tenho 35 anos e nunca havia ficado brava com ele. No momento em que ela me escreveu, fiquei irada. Como aquele filho da puta havia feito isso com ela? Por quê?

O sexo é um campo aberto, sem cercas ou limites. Cada um tem sua fantasia. Com criança, cachorro ou a vizinha. Isso ninguém controla. Ainda bem. Mas existem barreiras sociais que devem ser respeitadas. Deparei com muitas mulheres que têm histórias parecidas com a minha, muitas histórias, histórias demais. E elas precisam continuar sendo contadas, precisam tornar nossas experiências aprendizados coletivos.

Como eu disse, está tudo bem comigo, continuo ouvindo músicas no repeat e comendo miojo de vez em quando. Continuo tendo de me esforçar para ser mais amorosa comigo mesma. Troquei as festas de arrecadação de fundos pelos editais. Voltei a ser CDF. Voltei a usar aparelho. Sigo gostando de chocolate. Sigo com medo de que as pessoas de quem eu gosto morram. Mas isso é inevitável. E, já que grande parte das nossas mazelas são mesmo inevitáveis, vamos, de uma vez por todas, nos esforçar para evitar as que podem ser evitadas.

Um movimento como #primeiroassedio é uma joia no meio da lama.