Por João Victor Marques e Maria Laura López

A mulher do fim do mundo cantou e brilhou até o fim. Ícone da música popular brasileira, Elza Soares se despediu de todos nesta quinta-feira (20.01), aos 91 anos, com uma morte tranquila em casa, no Rio de Janeiro. O trono que ocupava no palco agora fica vazio, mas a memória de Elza e tudo que ela significa para a música brasileira estão, para sempre, gravados na história.

Famosa pela voz rouca, a cantora se tornou um dos maiores nomes da MPB, reconhecida internacionalmente, tendo sido eleita pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio, em 1999. Ela também integrou a lista das cem maiores vozes da música brasileira, elaborada pela revista “Rolling Stone Brasil“, e venceu diversos prêmios como o Prêmio da Música Brasileira, Prêmio Multishow de Música Brasileira, Grammy Latino e o WME Awards.

Nascida no Rio de Janeiro, na favela onde hoje fica a Vila Vintém, em 1930, Elza da Conceição teve uma trajetória marcada por diversas dificuldades, tragédias e reviravoltas. Filha de um operário e de uma lavadeira, a menina começou a cantar com o pai, que gostava de tocar violão nas horas vagas. Porém, isso durou apenas até os seus 12 anos, quando foi obrigada a se casar com Lourdes Antônio Soares, de quem herdou o famoso sobrenome.

A união durou pouco menos de uma década, deixando Elza viúva aos 21 anos. Ao todo, o casal teve sete filhos, embora dois tenham morrido de fome ainda crianças e uma tenha sido sequestrada, a mãe só a reencontraria anos depois. Naquela época, a música era apenas um sonho para Elza, que trabalhava como encaixotadora e faxineira.

Elza Soares se apresenta em Nova York, em 2017 – Foto: Getty Images

Primeiros passos da carreira

O primeiro passo para a carreira artística veio em 1953, no programa radiofônico “Calouros em Desfile”, que era apresentado pelo compositor Ary Barroso, na Rádio Tupi. Com roupas de segunda mão ajustadas no corpo e um penteado qualquer, a cantora foi ridicularizada no auditório antes mesmo de começar a cantar. “De que planeta você veio, minha filha?”, chegou a dizer Ary. Ao que ela respondeu: “Do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary. Do planeta fome”.

Elza terminou o programa de calouros de Ary em primeiro lugar. Depois disso, conseguiu um emprego na Orquestra Garam Bailes, se apresentando em festas, bailes, casamentos e outros eventos sociais. Embora nem sempre pudesse subir no palco, já que alguns clubes não admitiam uma cantora negra.

Em 1959, a artista participou de um outro concurso que terminou ganhando e sendo contratada para trabalhar na Rádio Vera Cruz. Foi então que Elza começou a conquistar todo o Brasil, sendo convidada também para trabalhar na TV, fazer sua primeira turnê internacional, e participar do Festival Nacional de Bossa Nova, em 1960. 

Música e seus principais sucessos

Ao todo, a artista tem 34 discos de estúdio lançados. O início de sua carreira musical foi justamente na década de 1960 dentro do samba, gravando com Miltinho e o baterista Wilson das Neves, dois importantes e potentes nomes do ritmo, naquela época. Entre os principais lançamentos da época, estão os hinos “O Samba é Elza Soares” (1961), “Sambossa” (1963), “Na Roda do Samba” (1964) e “Um Show de Elza” (1965).

Seguiu na década seguinte, de 1970, fazendo samba ainda mais tradicional e conquistando uma gama maior de admiradores. Desta fase, vêm os sucessos como “Salve a Mocidade” (Luiz Reis, 1974), “Bom Diia, Portela” (David Correa e Bebeto Di São João, 1974) e muitos outros.

Performance de Elza Soares em Amsterdam, na Noruega, em 2004 – Foto: Getty Images

Nos dez anos seguintes, caiu no ostracismo, sendo esquecida por muita gente, até que tomou coragem e foi em um hotel na cidade de São Paulo pedir ajuda a Caetano Veloso. A forma que seu amigo de MPB teve de ajudar foi convidar a cantora para uma parceria musical de samba-rap chamada “Língua”, faixa do álbum pop do cantor, “Velô” (1984).

Esta oportunidade a alçou para novos lugares musicais, que resultaram em trabalhos que fogem um pouco do samba nos anos seguintes. Em 1985, estreou o álbum “Somos todos iguais”, que tem faixa com o lendário Cazuza.

Depois de ser eleita a voz do milênio, já nos anos 2000, seguiu fazendo música – mesmo com a idade avançada – e gravou discos mais modernos, como “Do Cóccix Até o Pescoço” e “Vivo Feliz” (que tem uma pegada totalmente eletrônica).

“Marido de Elza”

Sua vida amorosa foi muito comentada por um certo período de sua vida: por 17 anos, ela se relacionou com o jogador de futebol Mané Garrincha. Por coincidência do destino, o bicampeão pela Seleção Brasileira e craque do clube carioca Botafogo também faleceu no dia 20 de janeiro, em 1983, há exatos 39 anos.

O relacionamento dos dois foi amplamente julgado pela sociedade pois começou quando o atleta ainda era casado. Após o divórcio, continuaram juntos mas seguiram muito comentados, com episódios de violência doméstica.

Do relacionamento, os dois tiveram um único filho, chamado Manoel Francisco dos Santos Júnior, apelidado de Garrinchinha. Infelizmente, a criança faleceu aos 9 anos de idade, vítima de um acidente de carro.

Em uma entrevista ao jornalista Pedro Bial no programa global “Conversa com Bial”, a cantora contou que Garrincha dedicou à ela a Copa de 1962. “Ele me prometeu e disse: ‘Olha criola, essa Copa eu vou dar pra você, vou fazer gol pra você (…) Eu nunca gostei de ser mulher de fulano. Eu sou eu. Não era preciso ser mulher do Garrincha pra ser a Elza Soares. O Garrincha era marido da Elza Soares.”

Ícone da música popular brasileira, Elza Soares se despediu de todos na último dia 20 de janeiro – Foto: Getty Images

Trabalhos póstumos

Em reportagem publicada pelo jornal “Folha de S.Paulo”, nesta sexta-feira (21.01), em sua edição impressa e digital, o empresário de Elza Soares, Pedro Loureiro, e o percussionista da estrela há cinco anos, Mestre da Lua, revelaram que a cantora gravou um DVD dois dias antes de morrer.

A cantora que soltava a voz dizendo que cantaria até morrer escolheu o Theatro Municipal, em São Paulo, como palco de um novo DVD com uma coletânea de seus maiores sucessos. Serão 16 faixas e tem previsão de lançamento para março deste ano.

Também deixa um álbum de inéditas, gravado desde 2020, que tem previsão de chegar aos ouvidos em agosto deste ano e terá caráter político, segundo o empresário. “Elza queria lançar este álbum antes da eleição presidencial, e a vontade dela será cumprida”, contou ao jornal paulista.

Além destes dois produtos, Elza também deixou pronto dois documentários sobre sua vida e obra. Um, sem previsão de estreia. Já o outro, um produto Globoplay com cenas captadas no Municipal, quer estrear em junho deste ano. Veremos e ouviremos Elza Soares muito ainda neste ano e sempre. Ainda bem.