Martha Araújo, Hábito/Habitante (1985) - Foto: Divulgação
Martha Araújo, Hábito/Habitante (1985) – Foto: Divulgação

Por Julia Flamingo

Uma reunião de 120 mulheres, que não poderia ser mais ruidosa, densa, incômoda e inspiradora, toma as galerias da Pinacoteca de São Paulo a partir deste sábado (18.08). A exposição “Mulheres Radicais (Radical Women)” tem doses cavalares de criatividade e um time feminino tão poderoso que deixaria qualquer Guerrilla Girl orgulhosa.

Criada originalmente para o Hammer Museum, em Los Angeles, ela chega para questionar a tradicional história da arte que não dá lugar à produção feminina. Enquanto uma das telas em preto e branco exibe a videoarte em que a baiana Letícia Parente costura com linha e agulha a frase Made in Brasil no próprio pé, uma série de fotos da argentina Graciela Carnevale mostra um grupo de pessoas trancado à força em uma galeria de arte. Ao obrigar os visitantes a participar de sua exposição, ela questiona imposições da ditadura.

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Trabalho da série La manzana de Adán (1982–90), de Paz Errázuriz - Foto: Divulgação
Trabalho da série La manzana de Adán (1982–90), de Paz Errázuriz – Foto: Divulgação

A alguns passos, telas da colombiana Sonia Gutiérrez com estética pop retratam cenas de tortura. Em outra sala, a cantoria da poetisa Victoria Santa Cruz é registrada em vídeo para clamar pelo direito das minorias na sociedade peruana. Em forma de berros ou sussurros, os trabalhos realizados entre 1960 e 1985 por artistas latino-americanas demandavam o mesmo lugar emancipado para a mulher. E elas nem ao menos sabiam umas das outras.

Criada pela curadora de raiz venezuelana Cecilia Fajardo-Hill e pela pesquisadora argentina Andrea Giunta, “Radical Women” nasceu de uma pesquisa de sete anos sobre artistas latino-americanas que, em um contexto de ditaduras e censuras das mais diversas, enxergaram o próprio corpo como ferramenta política de experimentação e liberdade.

“Importante entender o ‘político’ como a libertação e exposição do corpo, erotismo, a relação do corpo com a sociedade e a natureza, o questionamento sobre padrões de beleza e, claro, a militância e resistência”, diz Valéria Piccoli, curadora-chefe da Pinacoteca, à Bazaar.

Entre os cerca de 200 trabalhos estão alguns assinados por nomes célebres, como o da cubana Ana Mendieta, com uma chocante série de fotos que reproduzem a cena de um crime de estupro e morte de uma colega da Universidade de Iowa.

Fotografia da série La servidumbre (Servitude) (1978-79), de Sandra Eleta - Foto: Divulgação
Fotografia da série La servidumbre (Servitude) (1978-79), de Sandra Eleta – Foto: Divulgação

Da argentina Marta Minujín, consagrada na Documenta de Kassel, em 2017, com seu Partenon de livros censurados, serão apresentados registros de La Menesuda, instalação gigantesca e imersiva que propõe situações como um casal seminu numa cama e uma ala para massagem e maquiagem. Lygia Clark, Lygia Pape, Anna Maria Maiolino e Lenora de Barros estão entre as 27 brasileiras presentes na mostra.

Mais surpreendente é conhecer trabalhos de artistas que não ganharam visibilidade merecida. A chilena Lotty Rosenfeld, por exemplo, denuncia em seu vídeo a ocupação dos espaços públicos pelos militares de Augusto Pinochet, ao transformar as faixas de rodagem das estradas em sinais de + (o símbolo era usado por ela nas palavras de ordem “No +”, ou no more).

Homenagem a George Segal (1984), de Lenora de Barros - Foto: Divulgação
Homenagem a George Segal (1984), de Lenora de Barros – Foto: Divulgação

O desejo sexual feminino é tema das esculturas da colombiana Feliza Bursztyn; em “Cama”, ela transporta a intimidade para o museu ao colocar formas que vibram embaixo de um cobertor vermelho. Vale destacar a cubana Zilia Sánchez e suas telas estiradas em formas que lembram seios e vaginas.

Além de influenciar gerações seguintes, esse grupo feminino redefiniu a linguagem artística. Foram pioneiras em criar estratégias para fazer fotoperformances, vídeos caseiros, captar imagens em movimento ou elaborar performances para as câmeras. “Com a censura política, essas mulheres precisavam conciliar atividades em escala doméstica com a produção artística. O vídeo proporcionou isso. Elas podiam criar suas obras sozinhas, em casa, sem precisar de um ateliê”, conta Jochen Volz, diretor artístico da Pinacoteca.

Pinacoteca: Praça da Luz, 2, centro, São Paulo. Tel. (11) 3324-1000. De 18 de agosto a 19 de novembro

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