Kate Winslet pelas lentes de Peter Lindbergh na Harper’s Bazaar americana, em 2009 -Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Kate Winslet pelas lentes de Peter Lindbergh na Harper’s Bazaar americana, em 2009 -Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Pelas páginas de Harper’s Bazaar (ou Bazar, como foi originalmente grafada nas primeiras revistas), fotógrafos, diretores de arte, stylists, artistas, literários e colaboradores ajudaram a contar – e colocar em perspectiva – o jeito de vestir, pensar e viver desde 1867.

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A publicação presenciou eventos históricos e culturais, revoluções sociais, viu a criação de importantes marcas fashion – desde o século 19 -, além de apresentar new faces ao mundo (foi a primeira a clicar Kate Moss, por exemplo). A exposição “Harper’s Bazaar, Premier Magazine de Mode” resume os 153 anos de história da publicação e será inaugurada em 28 de fevereiro de 2020 em Paris.

Após nove meses de restauração, o espaço dedicado à moda do Musée des Arts Décoratifs (MAD), reabrirá, finalmente, suas portas com a tão aguardada mostra. Com uma identidade construída graças a múltiplos personagens que ilustraram e escreveram sobre milhares de designers e costureiros, sem falar das grandes inspirações do cinema, por exemplo, a Harper’s Bazaar se tornou mítica a partir dos anos 1930, graças a memoráveis editores, como Carmel Snow, Alexey Brodovitch e Diana Vreeland, estabelecendo um parâmetro de modernidade e à frente de seu tempo, que inspira veículos de moda até hoje.

Clique de fotógrafo Hiro (1964) - Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Clique de fotógrafo Hiro (1964) – Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

A exposição também traça o percurso estético inovador de grandes nomes da fotografia, a exemplo de Man Ray, Richard Avedon e, mais recentemente, Peter Lindbergh, e da ilustração, como Andy Warhol.

“A ideia da mostra nasceu depois do sucesso de Christian Dior, Couturier du Rêve, que recebeu 70 mil visitantes. Ali, a identidade criativa foi apresentada em sua continuidade por meio do trabalho de vários estilistas. Desde seu fundador, Christian Dior, até Maria Grazia Chiuri, a exposição mostrou o surgimento da identidade da marca e sua consolidação graças às várias reinterpretações e questionamentos dos códigos da alta-costura”, explica Éric Pujalet-Plaà, curador e adido de conservação do museu.

“Harper’s Bazaar, por sua longevidade, apresentava o mesmo questionamento sobre a identidade no domínio das artes aplicadas ao grafismo. Como definir a identidade de uma revista depois de mais de 150 anos? Ou como a Bazaar sempre foi a Bazaar?”, questiona Éric.

A questão de identidade da revista foi objeto de diferentes debates, até que ficou clara a maneira com a qual ela olha e trata as mulheres, seu assunto favorito e espinha dorsal. “Um olhar cultivado enriquece cada publicação com um novo conceito, tornando-se, imediatamente, ditador de tendência. Montamos uma exposição centrada na silhueta da moda, cuja evolução seguimos como se fosse a própria identidade da revista”, afirma o curador.

Capas dos fotógrafos Hiro (1964) e Gleb Derujinsky (1958) - Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Capas dos fotógrafos Hiro (1964) e Gleb Derujinsky (1958) – Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

A fim de mostrar as mais belas imagens da Harper’s Bazaar, como Dovima e os Elefantes, de Richard Avedon, retratando o vestido de festa de veludo preto Christian Dior – uma das primeiras criações do então novato Yves Saint-Laurent –, os curadores completaram a exposição com 60 looks de alta-costura e de prêt-à-porter, vindos essencialmente das coleções do museu e de empréstimos, em ordem cronológica, com as respectivas aparições na revista.

Cada dupla vestido-ilustração ou vestido-foto foi escolhida para evocar a imagem da mulher em diferentes épocas: desenhada ou fotografada em preto e branco (ou em cores), ela pode, assim, representar, perfeitamente, cada período. Uma das duplas mais importantes da mostra, um vestido dos anos 1880, do costureiro francês Charles Frederick Worth, um dos criadores da haute couture parisiense, com uma Harper’s Bazaar da mesma época, além do orientalismo do ilustrador Erté, com um look de inspiração chinesa de Paul Poiret, fazem parte dos highlights da exposição.

Comparações de estilos de Chanel e Lanvin da década de 1920, com suas respectivas publicações, fotografadas pelo Barão Adolphe de Meyer, também completam as raridades. “Decidimos não nos limitar às capas da revista por causa da beleza de suas páginas internas. O conteúdo editorial da Harper’s Bazaar é magnífico. É preciso lembrar, antes de tudo, que se trata de uma exposição de moda e não é necessariamente na capa que as criações são mais bem representadas”, conta Éric.

Capas dos fotógrafos Hiro (1964) e Gleb Derujinsky (1958) - Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Capas dos fotógrafos Hiro (1964) e Gleb Derujinsky (1958) – Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

“Erté, responsável pelas capas de 1915 a 1936, ou mesmo Cassandre e Vertès, que o sucederam, propuseram capas simbólicas que não mostravam vestidos específicos”, explica. Mas o grande ponto de partida da exposição, em cartaz até 14 de julho, é, sem dúvida, Mary-Louise Booth, primeira diretora de redação da revista. “Feminista, sindicalista, abolicionista, foi uma mulher forte, um personagem fascinante, cuja personalidade vai ao encontro do espírito livre e crítico de Harper’s Bazaar até hoje”, diz Éric.

Capas do ilustrador William H. Broadley (1896) - Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Capas do ilustrador William H. Broadley (1896) – Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Finalmente, uma exposição dedicada a uma revista de moda não limitada a uma simples apresentação de fotografias. “Ela se concentra tanto na questão da direção artística quanto no impacto do grafismo e da fotografia, no papel de homens e mulheres, que, tanto quanto aqueles que a criam, defendem uma certa ideia e crítica de moda”, pontua. O olhar dos grandes fotógrafos e ilustradores, que construíram a reputação da Harper’s Bazaar, resume um século e meio de história da moda. Tudo isso em uma visita à Cidade Luz.

Harper’s Bazaar”, Premier Magazine de Mode, de 28 de fevereiro a 14 de julho de 2020 no madparis.fr