Foto: María Palacios

Por Thiago Andrill

O livro Parque das Irmãs Magníficas (Las Malas, em espanhol) é o primeiro trabalho da escritora, poetisa e atriz argentina Camila Sosa Villada traduzido para o português do Brasil. A narrativa se desenrola a partir do resgate de um bebê por um grupo de travestis na madrugada do Parque Sarmiento, em Córdoba (distante 695 km da capital Buenos Aires). Deste parto, os caminhos das personagens são revelados, alternando-se em convergência e distinção. “Não é um romance realista, pelo contrário”, afirma a autora em entrevista à Bazaar. “Não são detalhes de magia, essas personagens estão imersas em um mundo que não existe. O registro da violência – que é a única coisa que as pessoas reconhecem como familiar, porque a exercem todos os dias – faz com que se pense que é uma novela realista, que estou falando de minha vida”, continua.

Ganhador do prêmio Sor Juana Inés de la Cruz, da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, a obra é publicada por aqui pelo selo Tusquets, da Editora Planeta. A protagonista inicia a história no auge de seus 178 anos, outra personagem vira lobiscate nas noites de lua cheia e, dia após dia, uma terceira se metamorfoseia em direção ao seu destino: se tornar um pássaro. Muito tem sido dito sobre um possível elemento autobiográfico no livro – principalmente em relação ao retrato de violências nele presentes e pela escorregadia associação dela por ser travesti. Além disso, a obra tem sido informalmente atribuída a classificação de gênero (neste caso, literário) de realismo mágico.

Esta possível interpretação, diz a autora, é mostra uma interpretação de quem não tem experiência em ler um livro que não casa com nenhum gênero literário. Camila é uma das convidadas do Agora é com Elas: Literatura e Sociedade na América do Sul, evento organizado pelo Goethe-Institut que reúne escritoras latino-americanas e alemãs a partir desta semana. A autora, que inaugura esta série de debates, falou à Bazaar sobre o novo livro, a ilusão do amor romântico, ódios carregados nas costas e as dificuldades em conceder entrevistas a jornalistas por vezes enviesados. Leia a íntegra:

Foto: María Palacios

Escrever é mais prazer ou alívio?
Nem uma coisa ou outra. Talvez quando morava com meus pais, a escrita era uma forma de ter uma voz em uma casa onde estava completamente silenciada. Mas logo isso deixou de ser assim, pois já faz 21 anos que moro sozinha. É inevitável. Algo que vem comigo. Não diria que é prazer. Minhas costas doem, tenho as articulações das mãos destruídas por má postura, editar livros é um pouco passar por um triturador de autoestima e está tudo bem, pois é a única maneira pela qual se aprendem algumas coisas. Tampouco é um alívio. Às vezes, as consequências se pagam mais na frente, porque a escrita termina e a gente pensa que tem obrigação de ser fiel à ela. É inevitável como comer.

O quão difícil foi escrever “O Parque das Irmãs Magníficas” e em quais aspectos ele difere de trabalhos anteriores?
Não foi difícil. O difícil foi responder ao Jornalismo. Encarar outra vez todas as formas sutis de violência e transfobia por parte dos jornalistas, enfrentar o que eles pensam que sabem sobre o livro, embora em 90% das vezes estejam absolutamente equivocados. O difícil é suportar perguntas do tipo: “Existia a Tia Encarna? Me explica?”. Lhe exigem uma ficção para dar conta de uma verdade, algo que sempre fazem com as escritoras mulheres.

A narrativa se desenrola a partir do resgate de um bebê por um grupo de travestis, que passa a cuidar dele. É destacado, na obra, o incômodo da associação com a infância. Para além da marginalização, que causa tal separação, a que ponto te incomoda a violência do bem e mal?
Bom, são formas elementares de ler o mundo. Isso funciona em um quartel militar, em um colégio de monges, em lugares onde a lógica medieval sempre funciona para explicar algumas coisas. Eu respeito Las Malas (título do livro em espanhol, que se refere às “Irmãs Magníficas”), a perseguição à Tía Encarna e ao seu filho. Assim foi escrito este livro.

O olhar sobre travestis é socialmente engessado em sofrimento. No livro, você não nega as violências (pelo contrário), mas parece mais preocupada em reclamar contornos não estáticos – a famigerada humanidade. Qual é o seu cansaço em pincelar o que deveria ser óbvio, mas para a maioria não é?
Não sei se escrevi reclamações, ou evidências, da m… que nos afoga. Escrevi um romance honestamente, um romance nu. Como não vou escrever sobre esse horror também? Porém, não estou aqui para demonstrar nada. Não é didática, não é política, não é nada disso. É uma ficção. Os que leem saberão onde os tocará.

Foto: María Palacios

Te incomoda a associação, culturalmente muito em alta, da artista de “minoria social” com uma suposta obrigatoriedade de também ser educadora?
Além de tudo que foi tirado de mim, toda a violência, toda a m… jogada em mim, tenho que ter paciência e explicar as coisas? Não. Eu quero descansar. Quero fazer ficção.

Você diz que a travesti carrega o ódio do mundo nas costas. Em certo momento, a protagonista percebe que jamais conseguiria dar tudo por uma pessoa. “O amor não viria, porque sabia que eu não poderia responder-lhe com bondade”, diz…
Esse momento em particular do romance é como o fulgor de quem o escreve, que se dá conta que aquele amor exige muito, que só atinge aqueles dispostos a se dissipar em favor de um sentimento que vem programado, que pedem e dão como, se fosse possível, um amor recíproco e estável.

É possível dar tudo por alguém ou é uma ilusão?
Não sei, nunca tive que dar tudo de mim por um homem. Você teria que perguntar a alguém que acreditasse em tal mentira.

O conceito de romantismo estrutura a heteronormatividade, onde o núcleo sagrado de pai-mãe-filhos é valorizado em detrimento de outras relações. Existem críticas à centralização do amor romântico até (principalmente) entre pessoas do mesmo gênero ou não-binárias; de como ele poderia alienar e criar expectativas irreais sobre uma única relação. Como você observa a dinâmica entre amor romântico e um, supostamente, mais amplo?
Nunca tive um amor romântico. Como travesti, isso esteve proibido para mim. Preferi falar de alianças, de amores que não completam nada. Nem vem me completar, nem eu tenho que completar ninguém. Creio na companhia e nas pessoas que não precisam de ‘um outro’ para estar alegres. Acredito na militância sexual, em pessoas que fazem sexo e se divertem e exploram. Sou um pouco loba das estepes, veja bem… no que acredito, sim, é que a família, esta última bandeira do catolicismo, do evangelismo, das direitas latino-americanas, seja um lugar terrivelmente inseguro para crianças e mulheres. Aí, a maioria dos abusos infantis ocorrem dentro das famílias. Aí, os assassinatos de mulheres acontecem pelas mãos de seus maridos, de seus namorados; isso deve ser dito.

Com a segregação, muitas vezes legitimada por instituições públicas, é possível fazer parte de uma nação que, como você coloca no livro, parece um monstro que se alimenta de travestis?
Só posso falar sobre mim, pelo sentimento que tenho com a Argentina. Este país mata as travestis, matou e continuará matando. Esta não é minha pátria. Não tenho sentimentos nacionalistas. Não me importa se ganhamos uma Copa do Mundo, se Messi ou Maradona ou ‘quem quer que seja’ deixa feliz toda uma nação que durante décadas tentou matar as travestis. Mas esta terra, onde sempre existiu travestis, antes mesmo da colônia, está cheia de gente que faz com que eu não vá para outros lugares, que eu não conceba a vida em outro local, porque, afinal, os lugares são feitos por pessoas.

Travestis sempre contaram suas histórias, mas poucos mecanismos estavam dispostos a registrar e divulgar. No Brasil, seu novo livro é publicado pelo selo Tusquets, da editora Planeta. O Brasil é o país que mais mata travestis no mundo. Como percebe o movimento do mercado editorial?
Bom, espero que não me matem. Coloquei minhas tetas ano passado e quero aproveitá-las por pelo menos mais uma década. Por outro lado, pelo menos estou acompanhada por outras escritoras travestis que estão criando leitoras, que vêm fazendo um estilo, um modo de escrever. Espero que em breve chegue ao Brasil Claudia Rodríguez, escritora chilena travesti que acredito ser a melhor escritora viva. Todas e todos nós que escrevemos estamos atrás dela.

Você também é atriz. Qual a diferença entre falar palavras escritas por outras pessoas e traçar as suas próprias?
A diferença é o trabalho. É o estudo. Estudar a letra, ensaiar, conhecer a palavra alheia. Conhecer o autor, sua vida, desvendar a maior quantidade de mistérios possível.

Você traz as travestis de Córdoba como super-heroínas, com rostos cobertos por máscaras – as suas maquiagens. Qual o custo desses poderes?
Veja bem, quase todas terminam mortas.


Livro: O Parque das Irmãs Magníficas
Autora: Camila Sosa Villada
Páginas: 208 (preço sugerido: R$ 49,90)
Selo Tusquets, Editora Planeta