Nathan Englander - Foto: Reprodução/Harper's Bazaar
Nathan Englander – Foto: Reprodução/Harper’s Bazaar


por Noemi Jaffe

Alguém deveria se de­dicar a estudar o fenô­meno da quantidade e qualidade de escrito­res americanos judeus. Talvez isso já tenha sido feito. Mas, para nós, brasileiros, é sempre um mistério ver como é possível surgir sempre mais um e, inexplicavelmente, diferente de seus pa­res, embora sejam as semelhanças de lin­guagem e temas que os aproximem. É o caso de Nathan Englander e seu Do Que a Gente Fala Quando Fala de Anne Frank (Companhia das Letras, R$ 39).

Como é possível ler de novo a mesma autoironia, os mesmos diálogos à la Woo­dy Allen, a mesma ridicularização das fa­mílias à la Philip Roth e, mesmo assim, tudo soar tão novo? Pois é o que aconte­ce. O livro traz oito contos, todos envol­vendo questões judaicas, mas que, meto­nimicamente, representam a família média americana. Ortodoxos viciados em maconha, brigas entre gangues de crianças judias que frequentam a yeshiva, um peep show em que o advogado judeu bem-sucedido enxerga ora prostitutas, ora sua mãe e ora os rabinos de sua infân­cia – tudo com um humor que, mesmo fazendo rir, também fere nas camadas mais nostálgicas e reprimidas da psique.

O conto Colinas Irmãs reinventa, em chave mítica, a criação de uma grande cidade, a partir de 1973 (ano da guerra de Yom Kipur), pelos colonos ortodoxos e mostra o estado em que ela se encontra 40 anos depois. Ainda não tinha lido nada que recompusesse, com tanta veros­similhança e contundência, a situação atual dos territórios ocupados.

O primeiro conto, que dá nome ao li­vro, mimetiza o título e a situação de um conto de Raymond Carver, Do Que Fa­lamos Quando Falamos de Amor. Dois ca­sais, um secular e outro religioso, depois de fumar um baseado, resolvem se per­guntar o que fariam se o nazismo retor­nasse e um dos parceiros não fosse judeu. À parte as descobertas inesperadas e frus­trantes que surgem dessa conversa entre absurda e reveladora, o que ressalta é a própria discussão sobre até que ponto ainda se pode – e como se pode – falar sobre o Holocausto. Ou seja, do que es­tamos falando quando falamos sobre ele? Dele ou de nós mesmos? Nada aqui é verdadeiro, mas tudo, sem exceção, é ver­dade. Ou, como diz um dos personagens, “não verdadeiro do modo que a ficção é mais verdadeira que a verdade.”.