Foto: Rodolfo Magalhães

Empoderada, dona de si e certa do que do que quer fazer. Essa é a nova Negra Li, que aos 40 anos – hoje com 42 –  descobriu-se como uma mulher madura e feliz com seu corpo e sua sexualidade. Aliás, isso ela exprime bem em seu novo clipe, “Malagueta”, lançado no início deste mês ao lado de Rincon Sapiência.

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O single faz pare do álbum que ela lança ainda em 2022 e que trará muitas parcerias, entre elas Fábio Brazza, Vitão, Carol Biazin, Bivolt, entre outros, e que vai contemplar músicas que falem muito da história de Negra Li. É um trabalho em que ela pretende mostra essa nova mulher. “Ainda não tem data, e o nome [do álbum] também vai ser definido. Enquanto isso, a gente vai lançando singles, como eu lancei “Era Uma Vez Liliane” e “Malagueta”, que está sendo um sucesso e que tem uma pegada bem pop. 

Aliás, para ela, o rap virou pop, e isso já pode ser visto tanto em “Era Uma Vez Liliane”, que flerta bem com este estilo musical, como em “Malagueta”. “Virou pop sem precisar de TV, porque fala isso, não pode, fala aquilo, não pode. Então a internet deu voz, e acho que ficou pop sim”, comenta.

Mas não só pop de popular entre o público, com a maior facilidade de os rappers comporem e exibirem seus trabalhos na internet, mas porque ganhou liberdade para falar de tudo, seja de ostentação, de amor, e não só de problemas sociais. “Esse álbum fala da minha vida, é o meu legado, porque todas as músicas eu abordo alguma coisa que eu sinto, algo que eu vivi”.

Leia a seguir entrevista que Bazaar fez com Negra Li via Zoom. 

Como está sendo a receptividade de “Malagueta”, que você gravou com Rincon Sapiência?

Está sendo incrível. Meus fãs antigos estão se surpreendendo comigo porque estou sempre trazendo um refresh, algo diferente, algo que eu ainda não tinha feito. “Malagueta” eu fiz para isso mesmo, para as pessoas sentirem essa minha virada de chave, minha maturidade. Eu precisava colocar isso na minha arte, essa intimidade que eu criei com o meu corpo… Está sendo incrível, as pessoas receberam muito bem. 

Quantas faixas vai ter seu álbum?

Eu acho que por volta de 11 fixas, é que está tão difícil, porque tem tanta música boa, que a gente está selecionando as melhores. As outras vamos soltar como singles.

Negra Li no ociple de “Malaguera” com Rincon Sapiência – Foto: Rodolfo Magalhães

E com que frequência você pretende lançar os singles do álbum?

Temos lançado com um mês e meio cada uma delas. Então vocês já podem esperar a próxima.

Como é seu processo de composição, tanto individual como com parcerias?

Individual, eu adoro anotar ideias no bloco de notas e usar o gravador para criar. Por incrível que pareça, essas ideias vêm na madrugada, por volta da 1h, quando estou me preparando para ir para a cama, então pego o gravador e gravo. Em composições com outras pessoas tem rolado um camping criativo, a gente separa uns três dias dentro de um estúdio, com salas diferentes, e vai separando por turmas, a gente escolhe o tema, a batida, e eu vou circulando por essas salas falando para as pessoas o que eu quero falar. Eu sou sempre a pessoa que dá o start na música. Eles usam o que eu falei para criar. Neste álbum todas as músicas eu compus com a galera. Tem muita gente batendo o martelo e colocando opinião, por isso dificilmente não vai sair uma coisa boa, porque são muitas mentes. E isso é um cuidado que o meu público merece. 

Com quem mais você compôs?

Com o Fábio Brazza, que eu adoro e com quem eu compus várias músicas no meu último álbum, o “Raízes”. O Vulto também é um cara muito legal, que compõe muito. O Vitão, que compôs “Era Uma Vez Liliane” e algumas outras faixas. Ele é muito sensível, um geniozinho musical. A Carol Biazin, com quem eu quero compor mais coisas, essa menina é uma pérola, uma coisa que Nossa Senhora. O Luccas Carlos, que eu adoro também, adoro a linha dele, o Hodari, a Bivolt, a Day também compuseram comigo, o Zappi, ah, são muitas pessoas incríveis.

Esse seu álbum vai ter uma pegada feminista, de empoderamento?

Eu não tenho um assunto só não, viu? Esse álbum fala da minha vida, é o meu legado, porque todas as músicas eu abordo alguma coisa que eu sinto, algo que eu vivi. Eu comecei com isso com “Era Uma Vez Liliane” para representar esse álbum, para lembrar as pessoas que fazem parte da minha história. Contar como foi, como me tornei Negra Li, como foi esse processo. “Malagueta” me deu a oportunidade de mostrar a arte da sedução, uma mulher de 40 anos que descobriu sua sexualidade, que tem muita experiência, muita coisa para falar. Tem situações que falam de crushs que eu vivi, tem música que falo basicamente de masturbação, que foi uma coisa que eu descobri. Estou utilizando meu disco para falar daquilo que eu sou. É um momento em que estou vivendo minha arte de uma maneira mais visceral, verdadeira e autoral, por isso estou tão ansiosa com o lançamento.

O clipe de “Malagueta” ficou lindo, tem seu dedo ali na produção?

Tem, sempre tem em todos os meus clipes, sou virginiana, detalhista, então eu gosto de mexer na edição, de estar junto. Havia a ideia de dançar livremente, dançar livre, porque são movimentos que eu faço dentro da minha casa. Eu adoro me olhar no espelho, colocar uma meia luz, uma vela aromática, sabe, me curtir. Depois que eu me separei descobri a solitude, vi que não era solidão quando as crianças iam com o pai, mas solitude. Esse tempo eu investi em mim, cuidei do meu corpo, da minha mente, passei a fazer terapia à base da física quântica, a lei da atração, está sendo incrível, comprei brinquedinhos, passei a frequentar sex shop. Tudo isso tem feito nascer uma nova mulher, eu penso: “onde você estava?”, porque estava esperando para ser quarentona, ô idade gostosa, viu? Eu estou amando. 

Todas as músicas vão ter clipe?

Quem me dera… É um sonho meu, mas é bem trabalhoso. Esse último clipe, “Malagueta”, foi uma decisão conjunta de fazer algo bem simples. Nem sempre a gente acredita que tem que ter uma superprodução para apresentar uma música. Tem também os visualizers, quem sabe eu vou investir mais nisso e tal. Eu adoraria fazer audiovisual de todas as músicas, mas não é nossa realidade, e está tudo bem. 

Negra Li no ociple de “Malaguera” com Rincon Sapiência – Foto: Rodolfo Magalhães

Como você o rap no cenário atual?

Eu adoro, gosto muito, porque acho que era isso que a gente queria quando começamos. Quando eu comecei em 1990, o rap já tinha começado há dez anos, em 1980, então acho que se tornou no que a gente queria, de ter essa liberdade de falar as coisas, de ostentar, de falar de amor, dos problemas sociais também. Com a tecnologia melhorou bastante, porque era bem precário. Hoje ficou mais fácil para as pessoas fazerem suas músicas em casa e ganharem dinheiro com isso. Tem vários caras do trap brasileiro que conseguem fazer suas coisas sozinhos, em casa, e eu acho isso incrível. Politicamente falando, já que a gente não tem esse incentivo para a arte, meninas conseguirem em vez de estar nas ruas estar fazendo música, fazendo rap, passar sua visão do mundo, sobretudo quando você tem seus 20 anos, pensando o que vai fazer e tal, é muito importante. Acho maravilhoso a quantidade de mulheres e homens fazendo rap e ganhando muito dinheiro.

Você acha que o rap virou pop?

Acho que sim, e era isso o que gente queria, que ele virasse popular, e olha que legal, ele não depende de televisão, ou seja, virou pop sem precisar de TV, porque fala isso, não pode, fala aquilo, não pode. Então a internet deu voz, e acho que ficou pop, sim, o rap está presente nos festivais, nas premiações, só faltava dinheiro e investimento, e acho que a gente está se virando muito bem.