Carminha e Nina em cena de Avenida Brasil - Foto: Divulgação/TV Globo

O que seria do imaginário americano sem o cinema de Hollywood? No Brasil moderno, este papel é das telenovelas, que, com a mesma intensidade, se misturam com nossa história coletiva e pessoal dos anos 60 para cá. Mas não as vejo com qualquer interesse sociológico, psicológico ou antropológico, assisto como noveleiro assumido, desses fanáticos que não querem saber nada dos próximos capítulos, embora seja cada vez mais difícil navegar pelos sites na internet e driblar as notícias que antecipam surpresas da novela. E pior, escapar da língua solta dos novidadeiros, que acham uma grande onda se mostrarem os primeiros a saber, como uma espécie de ejaculação precoce novelística.

Desde Paraíso Tropical, de Gilberto Braga, que terminou com os vilões Wagner Moura e Camila Pitanga consagrados pelo público, uma novela não me empolgava tanto como Avenida Brasil. Amo as novelas de Gilberto, nelas ninguém vale nada, e sua especialidade é o mal dando dribles desmoralizantes no bem.

Como também adorei o final de Belíssima, de Silvio de Abreu, com a maligna arquivilã Bia Falcão (Fernanda Montenegro) acabando premiada com o maior gato da novela (Cauã Reymond). Noveleiro é cruel. Em Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro foi além da vitória do mal sobre o bem no confronto entre bandidos e mocinhos: o que eletriza na sua novela é o embate entre bandida e bandida, cada uma no seu estilo e geração, numa guerra do mal contra o mal.

Novelas moralistas são abomináveis, assim como as politicamente corretas defendendo causas sociais. Fica parecendo uma ONG com uma novela em volta. Novela é fantasia, é para divertir, emocionar, surpreender, revoltar, discutir valores, abrir discussões em que as pessoas usam os personagens para falarem delas mesmas com sinceridade psicanalítica.

O dilema tarantiniano de Avenida Brasil é viver o grande amor ou a grande vingança, que Nina chama de justiça, num terrível confronto entre o ódio e o amor no coração de uma menina abusada. Mas não há justiça na natureza, Nina, nem no cosmos, nem nas religiões, nem em Deus há justiça, ou não haveria tanta morte e sofrimento de inocentes e impunidade e fortuna de assassinos.

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