Equilibrista: reprodução da foto de capa da nova biografia de Elis Regina - Foto: Harper´s Bazaar
Equilibrista: reprodução da foto de capa da nova biografia de Elis Regina – Foto: Harper´s Bazaar

Por Carol Almeida

Há mais de 30 anos a música brasileira vem, como diria a composição de Milton Nascimento, “resistindo na boca da noite um gosto de sol.”A noite é a sua ausência, sentida por compositores, músicos e fãs que aprenderam a ser súditos saudosos e reverentes. Mas o sol do dia seguinte é a memória viva que resiste toda vez que alguém aumenta o volume quando escuta sua voz. Esse gosto perdura e é nele que o jornalista Júlio Maria se concentra ao escrever a mais nova e completa biografia de Elis Regina: Nada Será Como Antes (Editora Master Books).

Se em Furacão Elis, de Regina Echeverria, publicado apenas três anos após a morte da cantora, ainda pesava no recinto o choque e o ressentimento de uma despedida violenta (a lembrar que o livro começava com a mãe de Elis dizendo que não perdoava a morte da filha), agora, com o distanciamento do tempo, o que ficam são os testemunhos que tentam aproximar o leitor de uma mulher já perdoada, aquela a quem se devem mais sorrisos que lágrimas.

E, ainda que o relato de Júlio Maria também se inicie com a morte da cantora – com destaque para a cena em que um dos filhos dela, Pedro Camargo Mariano, então com 6 anos, se vê aturdido diante da TV que anuncia o falecimento de sua mãe –, fica claro que um dos elementos essenciais à nova biografia é justamente um certo afastamento emotivo dos fatos que desembocaram naquela trágica manhã de 19 de janeiro de 1982. O próprio biógrafo tinha apenas 9 anos quando Elis morreu e,antes de começar sua saga de quatro anos de pesquisa e mais de 120 entrevistas realizadas, mantinha apenas um respeito cerimonioso pelo trabalho da cantora (hoje, ele admite ter sido difícil não se apaixonar por ela ao longo desse trabalho).

A cantora em sua casa na Joatinga, Rio, em 1973 - Foto: reprodução / Harper´s Bazaar
A cantora em sua casa na Joatinga, Rio, em 1973 – Foto: reprodução / Harper´s Bazaar

Com acesso a documentos importantes,tais como o inquérito policial que foi aberto após a morte de Elis (e com ele o livro descarta qualquer possibilidade de assassinato ou suicídio), cartas trocadas entre ela e amigos e conversas com pessoas como Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Jair Rodrigues, Rita Lee e Dona Ercy (mãe de Elis), Júlio Maria costura a história de alguém que conseguia comandar músicos experientes e, com a mesma confiança e atrevimento, pedia ela mesma para cortar sua carne no açougue do bairro.

“Na época em que Elis começou a cantar, os músicos costumavam chamar as cantoras de ‘canários’, termo pejorativo para dizer que elas sempre eram as estrelas que não tinham formação musical. E aí Elis chegou e entortou todo mundo”, diz Júlio. Nesse tópico, seu livro colabora também para que ela deixe de ser lembrada apenas pela alcunha da “grande intérprete”, mas também como uma instrumentista da voz.“Muitos músicos que entrevistei afirmavam que ela tinha formação profissional.”

Como não podia deixar de ser, além dos depoimentos de como Elis influenciou o ritmo e a poesia de toda uma geração de compositores que escreviam para ela, o livro traz os relatos de uma Elis ensimesmada em suas próprias virtudes. Sua rivalidade com Nara Leão, o boicote que ela promovia a outras cantoras no programa que apresentava na TV Record e a recusa em gravar alguns compositores dão corpo ao mosaico em que ela se desenhava. Uma artista entre os extremos da euforia e da fúria.

 

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