Adriana Varejão em Fortaleza - Foto: divulgação
Adriana Varejão em Fortaleza – Foto: divulgação

Em meio ao grande acervo da Fundação Edson Queiroz, em Fortaleza, um quadro chama a atenção: O tesouro de um rei que um dia caminhou sobre a terra, que Adriana Varejão pintou aos 21 anos. Na obra, de aparente inspiração abstrata, a grande materialidade e as grossas pinceladas já apontavam questões para as quais a artista viria se voltar em trabalhos posteriores. Para ela, “a obra já fala de uma certa saturação, de uma pessoa com tendências a exageros, de botar muita tinta. Uma certa exuberância onde me reconheço facilmente”. Se o jogo formal estava dado desde 1985, foi nos anos 90, ao flertar com temáticas como colonização e miscigenação que Varejão alcançou o posto de uma das mais importantes artistas contemporâneas. Com uma poética que põe em constante atrito forças de naturezas opostas, seu trabalho lida com discursos de caráter social e antropológico sem nunca abandonar o apuramento estético. São obras criadas a partir deste período que integram a exposição Pele do tempo, em cartaz na UNIFOR, que comemora e põe em análise os 30 anos de produção da artista.

Organizada pela crítica e curadora Luisa Duarte, Pele do Tempo reúne 32 obras produzidas entre 1993 e 2014. Estão expostas famosas séries como Azulejos, Ruínas de Charque e Saunas. A mostra compila os principais aspectos de uma carreira que vem sendo revisitada desde 2010, com o lançamento do livro Entre carnes e mares (Cobogó) e com a realização da retrospectiva Histórias às margens, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2012.

 

“É bom ver obras reunidas, aqui eu olho para trabalhos que não via há vinte anos pois estavam na casa de outras pessoas. É como um filho que retorna a casa. Só que nesse caso ele quase não mudou”. Com montagem e luz mais delicadas que a retrospectiva anterior, a curadoria reuniu alguns trabalhos nunca antes apresentados no Brasil. É o caso de Sauna amarela, uma das maiores pinturas do conjunto. “As saunas representam meu momento minimalista, nessa série eu lido com questões tradicionais da pintura: paleta, perspectiva e investigo as cores até o último grau. A primeira sauna feita está exposta aqui”.

Sauna Amarela - Foto: divulgalção
Sauna Amarela – Foto: divulgalção

A exibição tem uma sala dedicada a remontar influências e estabelecer diálogos da carreira de Varejão através de objetos e obras de outros artistas. “É uma ideia antiga que queria realizar desde a mostra do MAM. Tenho muitas referências, meu sonho era fazer uma exposição paralela só com elas, e aqui conseguimos realizar isso. Tenho formação em pintura, mas sempre fui muito ao cinema, por exemplo. Sou muito influenciada por David Cronenberg e Peter Greenaway. Neste espaço apresentamos trechos de filmes que tem relação com as obras que estão na exposição”.

Sala com objetos que influenciaram a poética da artista - Foto: divulgação
Sala com objetos que influenciaram a poética da artista – Foto: divulgação

Compõe a mostra uma grande videoinstalação que aponta a influência do período Barroco na obra da artista. O vídeo mescla imagens de igrejas brasileiras construídas no século XVII com narração de trechos de obra de caráter histórico, como o livro Casa-grande e Senzala, de Gilberto Freire. “É a primeira vez que trabalhei com som”, aponta.

A exposição é a primeira retrospectiva da artista no nordeste e uma oportunidade para o público brasileiro revisitar suas obras antes de seu próximo destino, Dallas. Varejão apresentará a série inédita Kindred Spirit, onde conjuga elementos do minimalismo e da arte indígena americana em autorretratos. À Bazaar Art, Adriana falou sobre os novos trabalhos, em que uma das pinturas ilustra a capa da quinta edição da revista.

A série de auto-retratos Polvo, uma de suas criações mais recentes, não integra essa retrospectiva da UNIFOR, por quê?

Tínhamos que privilegiar algo. Ficamos centrados na questão da cerâmica, da azulejaria. Os pratos também têm a presença da cerâmica, por exemplo. Foi uma questão de coerência, para termos um fio contudor. Além disso, a série Polvo foi exposta ano passado e muito divulgada.

Em Dallas você apresentará uma releitura de Polvo que une elementos da cultura indígena americana e do Minimalismo. Como você criou essa relação entre duas culturas tão diferentes?

Enquanto o  minimalismo representa o máximo do pensamento racional, o que significa abolir totalmente o ornamento, a questão indígena resgata uma arte geométrica e corporal totalmente baseada no ornamento. A intenção é colocar em uma mesma hierarquia o minimalismo e a arte ameríndia, fazê-la dialogar com a produção de artistas como Richard Serra e Agnes Martin.

A sua série de ruínas com charque junta a assepsia do azulejo e a visceralidade da carne, elementos absolutamente opostos. Essa nova série busca uma aproximação semelhante?

Sim, totalmente!

Você pretende apresentar essa série também no Brasil?

Não, é um trabalho criado para os Estados Unidos e provavelmente só será apresentado lá.

 

+ Leia mais: veja fotos da abertura da exposição Pele do tempo, de Adriana Varejão.

 

Na Bazaar Art de Setembro: Adriana Varejão e as miscigenações: artista apropria-se de narrativas estabelecidas para revelar os seus avessos, com texto de Luisa Duarte.

A capa da Bazaar Art de setembro, com obra inédita de Adriana Varejão na capa
A capa da Bazaar Art de setembro, com obra inédita de Adriana Varejão na capa