Foto: Divulgação
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por Ana Ribeiro

Se você tem fascínio pela família real inglesa, deixe a agenda livre para a estreia de The Crown. A nova série da Netflix é um golpe baixo para todos que não resistem a ver o que acontece entre quatro (ou quatrocentas) paredes do Buckingham Palace. A temporada inicial, de dez episódios, mostra a primeira década do reinado de Elizabeth II. Com um orçamento estimado em US$ 150 milhões, seria a produção mais cara na história da TV. Também um investimento do serviço de streaming para atrair um público mais velho. Aviso: os órfãos de Downton Abbey vão se refestelar.

No capítulo inicial, a cena do casamento de Elizabeth Alexandra Mary e Philip Mountbatten traz uma recriação perfeita do evento ocorrido em 20 de novembro de 1947, quando 200 milhões de pessoas ao redor do mundo acompanharam a cerimônia via rádio. No papel da futura rainha está a atriz britânica ainda desconhecida Claire Foy. Ela faz uma Elizabeth contida, firme e convicta de seus deveres como monarca. Philip é interpretado por Matt Smith (talvez o mais querido dos Doctors Who), como o marido charmoso e brincalhão que tem de se adaptar à força ao papel de príncipe consorte da rainha da Inglaterra. O figurino da série, assinado por Michele Clapton (Game of Thrones), é impecável – o vestido da noiva é uma réplica do original. Os looks da princesa Margareth (Vanessa Kirby), irmã caçula de Elizabeth, também chamam atenção. Em posição pouco menos visada que a da futura rainha, ela podia ousar mais, brilhar mais, se decotar mais. E até se envolver com um subordinado – casado.

Pai da princesa, o rei George VI (Jared Harris, de Mad Men) é popular e querido, mas sofre, em segredo, de câncer no pulmão. Com a sua morte, Elizabeth torna-se a rainha da Inglaterra, aos 25 anos, e tem de aprender a se relacionar com a solidão e as responsabilidades da vida sob o peso da coroa. É a avó, rainha Mary, quem dá o recado: a partir daquele momento, alegrias e tristezas devem ser tratadas de modo privado. “Elizabeth Alexandra foi substituída pela rainha Elizabeth II. As duas Elizabeths estarão sempre em conflito, mas a coroa deve sempre vencer.”

O autor e showrunner Peter Morgan é grande conhecedor do assunto. Escreveu o roteiro do filme A Rainha (2006), que deu o Oscar de melhor atriz a Helen Mirren, e repetiu o tema e a parceria com Mirren na peça A Audiência (2013). O diretor Stephen Daldry (As Horas e Billy Elliot) filma os dois primeiros episódios de forma delicada e tocante, e repleta de emoção. A cena da morte do rei George VI, mostrada no segundo episódio, é de arrepiar. The Crown é irresistível porque abre um buraco de fechadura para a gente espiar o interior do Palácio de Buckingham, talvez o único lugar do mundo onde a “vida real” é mais cheia de ordem e glamour.