Novo álbum de Criolo, "Sobre Viver", marca retorno do artista ao rap
Foto: Helder Fruteira

Insegurança, medo, mágoa e dor ecoam o abismo social com toques de crueldade, no Brasil de 2022, presentes nas estrofes do novo álbum de Criolo, “Sobre Viver”, que marca seu retorno ao rap, depois de uma incursão pelo samba. Durante esse processo, seu alento foi ter sua família e amigos próximos ao seu redor, respaldando essa montanha-russa de emoções, que perpassa pela perda da irmã mais nova para esse vírus silencioso, em junho do ano passado, e cuja força ecoa nesse trabalho.

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“Embora não tivesse condição alguma de escrever, fui abraçado pela música. Escutava tudo, assistia a todas as lives que possa imaginar – das bombadas àquelas que tinham 15 pessoas”, recorda o rapper à Bazaar. Resolveu colocar para fora toda essa angústia em letras pautadas pela vivência na periferia, intolerância religiosa, poder e black money para que “certas coisas” não se repitam.

Ainda nesse processo de reconstrução, e com um relógio que começou a girar mais lento, se viu ainda mais interessado em aguçar histórias e a mente, além de provocar encontros, criando um ambiente afetivo e acolhedor para dar vazão à escrita. “O rap é o corpo que acolhe todas as roupas que a música do mundo possa oferecer para essa troca. É o corpo que aquece, comunica e se move ou cria. É o alicerce. Não apenas estético, mas de elo com pessoas e histórias”, conta, agradecendo as conexões que fez através desse gênero desde que lançou “Nó na Orelha” (2011), trabalho que o catapultou ao grande público.

Quando recebeu o “quero gravar” de Milton Nascimento, lágrimas rolaram de amor e de gratidão. “Muito generosa e incrível essa a participação mais que especial desse mestre”, resume a potente “Me Corte Na Boca Do Céu A Morte Não Pede Perdão”. No álbum, ainda aparecem Mayra Andrade, em “Ogum Ogum”, e Tropikillaz, em “Diário do Kaos”.

Com uma enxurrada de participações, “Pequenina” (com Liniker, Jaques Morelenbaum, MC Hariel e Maria Vilani, mãe de Criolo) é uma ode à sua falecida irmã Cleane Gomes, de 39 anos, vítima da Covid-19. “Nossa família não vai se recuperar, sabe que tem que seguir, mas nunca vai ser a mesma coisa. Estamos vivendo essa sensação inédita, que a gente não deseja a ninguém”, desabafa. Para ele, os versos potentes tinham que ser ditos pela mãe para emanar toda sua força através da voz. “Você não pode tirar das pessoas a dignidade”.

No ápice da reclusão, Criolo ficou dez meses produzindo conteúdo de casa, com transmissões ao vivo pela plataforma de streaming Twitch, onde tinha uma grade de programação, indo de leitura de poesia ou horóscopo à audição de vinis antigos. Foi uma forma de seguir aprendendo, assim como o rap o ajudou a pesquisar, estudar história, ancestralidade e o que está acontecendo à sua volta. “Pessoas que vêm de outras histórias ou de outras construções estão muito distantes do que é esse Brasil”, reflete. Essa hiperconexão também aponta a fragilidade econômica diferente em cada esquina do País.

Para Criolo, a arte, a literatura e tantas outras formas de expressão são um caminho de transformação para jovens que cresceram em ambientes extremamente hostis. E é por isso que é possível pensar em um futuro no qual rappers e outros nomes que conseguiram furar a bolha possam ser eternizados pela pela Academia Brasileira de Letras. Se há pouco Gilberto Gil – com mais de 50 anos de carreira – foi o segundo negro a sentar nas fileiras da ABL, por que não aventar a possibilidade de outros rappers, que pavimentaram o gênero que nasceu nas perferias, se sentarem ao seu lado? Criolo discorre uma série de nomes que merecem estar lá, como o rapper e escritor GOG (Genival Oliveira Gonçalves), Mano Brown ou Emicida e seu irmão Fioti.

Por enquanto, fica feliz quando seu Corinthians vence, o público vai ao seu show ou quando oferece uma viagem de presente para os pais, que têm familiares no Ceará. “Não é gasto, é investimento”, brinca ele. Aos que gostam de sua arte, o novo disco é sobre luta, resiliência e muita fé de um artista independente que sabe ser grato a todos aqueles que auxiliaram a pavimentar sua trajetória. “Sem essas pessoas me ajudando e ensinando, não existiria ‘Sobre Viver’”, pontua. Se o termômetro desse novo trabalho pudesse medir verdade, medo e insegurança, mágoa, dor e amor, certamente já teria explodido, tamanha visceralidade.