Foto: @FilipeBerndt

Em sua primeira individual na Casa Triângulo, O Bastardo apresenta, com texto curatorial de Carollina Lauriano, uma série de retratos que refletem sobre a necessidade da normalização do sucesso de pessoas negras. A trajetória de O Bastardo muitas vezes se confunde com sua própria pesquisa artística.

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Natural de Mesquita, município da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, o artista começou muito cedo sua incursão pelo campo da arte por meio do grafite, até que, aos 18 anos, ganhou uma bolsa de estudos para frequentar o curso de videoarte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Ali, foi notado por outros professores – como Suzana Queiroga – que o convidaram a participar de seus cursos, até chegar, em 2020, à École des Beaux-Arts de Paris para uma residência de artes plásticas.

Foto: @FilipeBerndt

As pinturas retratam uma série de figuras negras que alcançaram um lugar de destaque em suas áreas de atuação, tais quais ícones do grande escalão da indústria da música como Kayne West, Playboi Carti e Mano Brown, como também figuras desconhecidas, que para o artista representam uma atitude, uma postura que simboliza a ideia geral em torno da exposição “Pretos de Griffe”, com a proposta de expandir a noção da “grife” para além do seu sentido literal.

Aqui, o artista retrata tais personagens de forma livre, mas sempre imputando um lugar de lifestyle a elas, como cabelos coloridos ou descoloridos e roupas descoladas que chamam atenção por seu tom neon. Enquanto as pinturas maiores trazem um plano mais aberto dos lugares de inserção dos retratados, as menores evidenciam traços de empoderamento, sejam eles por meio de adereços, ou pela gestualidade e forma como tal personagem encara seu espectador.

Dessa forma, o artista joga luz sobre a necessidade de rever o papel do negro na sociedade, reivindicando um lugar de existência para esses corpos não mais oriundos de violências e traumas históricos, mas agora sob uma perspectiva de liberdade. Com isso, as pinturas inéditas preparadas para a exposição buscam normalizar o sucesso de pessoas negras por meio de suas conquistas. No entanto, os retratos criados pelo artista evidenciam códigos que colocam tal grupo identitário em lugares os quais sempre estiveram ausentes das narrativas.

Foto: @FilipeBerndt

Com uma pintura de gesto rápido e que valoriza e evidencia o processo do desenho diretamente na tela, em relação ao acabamento final da pintura, O Bastardo coloca em perspectiva a própria inquietude de uma nova geração de artistas racializados que se forma e tem urgência nos processos de justiça e reparação histórica. Essa inversão de sentido na sua pintura também pode ser relacionada a um desejo de repensar a própria fatura do objeto em ser menos acadêmica e eurocentrada, e mais “marginal”, afinal o próprio grafite, assim como outras manifestações da cultura negra, sempre foram rebaixadas em relação à uma alta cultura dominante.

Entre questões da própria história da arte, ou de políticas sociais, O Bastardo nos aponta a necessidade da urgência do revisionismo histórico para que cada vez mais a população negra acredite que é possível ser aquilo que sempre desejou ser: livre para gozar a vida em sua plenitude.

Galeria Triângulo
Rua Estados Unidos, 1.324, Jardins, São Paulo.
De 20.11.2021 a 29.01.2022.