Sonia Braga - Foto: reprodução
Sandra Bréa para a revista Status – Foto: Antonio Guerreiro

Por Vivian Mocellin

Essas imagens me trazem boas memórias, pois foram feitas numa época gloriosa, quando a fotografia ainda era muito romântica. O trabalho priorizava a beleza natural dos personagens em ensaios extremamente planejados, de longa duração e com equipes enormes, que se valiam apenas de luz, ângulos e maquiagem. Não havia manipulação digital”, recorda Antonio Guerreiro.

Dentre modelos, atrizes, músicos dos anos 70 a 90, poucos escaparam das lentes do fotógrafo, que coleciona um dos maiores acervos de retratos de personalidades daquela época – e também muitas histórias para contar. Seu primeiro estúdio, ao lado da TV Globo, era point quente da cena carioca, com um constante entra e sai de pessoas de todos os tipos. Depois de ter feito strike no Jardim Botânico, mudou-se para o Catete, onde abriu o lendário Studium. “O espaço era enorme, com uma marcenaria onde todas as produções eram feitas, laboratório fotográfico e uma cozinheira que fazia almoço todos os dias. Virávamos noites trabalhando lá. Era uma loucura”, relembra.

Noites produtivas, diga-se. Foi em uma delas que nasceu o premiado ensaio da Playboy, A Noite das Mascaradas Nuas, com as divas de então Sônia Braga, Marina Montini, Maria Claudia e Sandra Bréa. Foram dias de cliques, noites de trabalho. Mas Guerreiro não só clicou como namorou ou foi casado com algumas das mulheres mais deslumbrantes e cobiçadas do Brasil. Sônia Braga foi uma delas. Fotografou-a extensivamente, tendo lançado um livro, Sonia Braga Especial, em 1982.

Na foto que ilustra esta matéria, parte de seu acervo pessoal, ela aparece seminua atrás de uma cortina: “Após passarmos por Portugal, por causa do sucesso fantástico de Gabriela (primeira novela da televisão portuguesa), fomos passear em Madri, e essa polaroid foi feita no quarto do hotel, com ela se enrolando na cortina, momentos de descontração”. Depois de Sônia, veio Sandra Bréa, que ele conheceu durante um ensaio para a Playboy, quando ainda era casado com a primeira.

Fotos do arquivo de Antonio Guerreiro
Fotos do arquivo de Antonio Guerreiro

Eles se casaram depois que Guerreiro se separou. As duas viraram amigas, e o casamento rendeu outros tantos nus incríveis. Em uma imagem notória de sua mulher, fotografou-a de patins. Em outra, aparece nua, “a mulher do ano” da revista Status, ambas feitas na casa onde moravam. “Em outro nu, preparamos uma lua de madeira para a foto. Ela ficou muito pesada, tendo de ser amarrada com cabos de aço a uma distância de 30 metros, para ficar no tamanho certo. Época pré-photoshop, e o corpo de Sandra foi preparado com óleo e strass.” Uma superprodução para a época.

Além das mulheres e dos nus, Guerreiro também assinou algumas das capas de álbuns mais importantes de grandes nomes da música popular brasileira. “Gal Costa, Marina Lima, Jorge Ben Jor, Novos Baianos”, lista. “Fiz quase todas as capas de Baby e do Pepeu. Grávida, amamentando, com os filhos. Esta, do disco Sem Pecado e Sem Juízo, foi com o conjunto que tocava com ela, também polaroid, que nós fazíamos antes de fotografar, para testar luz, enquadramento, exposição. Tempos pré-históricos da fotografia”, brinca. Na mesma época, fotografou Zezé Motta, também uma polaroid para testes antes da sessão de fotos para o disco Negritude. “Registrei Zezé de todas as formas: cantora, atriz, modelo, sempre um espetáculo o resultado.”

“Vendo as fotografias de Antonio Guerreiro, grande artista, sinto que a mulher inspirará a um homem, algum dia, o suicídio por amor”, poetizou, certa vez, Nelson Rodrigues. São essas imagens que agora, com quase 50 anos de carreira, Guerreiro mostrará na exposição O Homem Que Amava as Mulheres, na Galeria da Gávea, no Rio. “Continua fotografando, especialmente para amigos e o pessoal daquela época. “É a única coisa que sei fazer.” E como sabe… De 10 de julho a 14 de setembro. :: galeriadagavea.com.br