Hamilton e O’Keeffe na National Gallery of Art, em 1980 - Foto: divulgação
Hamilton e O’Keeffe na National Gallery of Art, em 1980 – Foto: divulgação

Por Charlotte Cowles

Juan Hamilton tinha 27 anos, e estava falido quando entrou pela primeira vez no reservado estúdio de Georgia O’Keeffe, no Ghost Ranch, Novo México, na esperança de que ela lhe desse um emprego. O ano era 1973 e O’Keeffe – cujas criações vibrantes e impecavelmente destiladas permanecem uma das pedras fundamentais do modernismo americano – era há muito renomada por suas pinturas em grande escala, de flores curvilíneas e cores brilhantes, e suas paisagens desérticas sob o céu azul. Aos 85 anos, ela ainda possuía sua beleza felina (clicada por seu falecido marido, o fotógrafo Alfred Stieglitz, que causou furor quando expôs dúzias de retratos nus dela em 1921 – enquanto ainda era casado com outra mulher), mas sua visão estava abalada pela degeneração macular.“Foi uma experiência poderosa vê-la pela primeira vez”, recorda Hamilton, que chegara ao Novo México vindo de Vermont alguns meses antes, fugindo de um divórcio doloroso e em busca de um novo começo.“Logo atrás dela estava um grande vaso indígena quebrado, que continha um crânio, um crânio humano. Lembro-me de pensar: ‘Meu Deus, é assim que estou me sentindo – um crânio exposto e um vaso quebrado’.”

Mas O’Keeffe não estava disposta a receber visitas espontâneas. Hamilton acompanhara seu amigo Ray McCall para consertar o encanamento da casa de adobe de O’Keeffe, e a artista reclusa se incomodou quando apareceram dois trabalhadores em vez de um.“Depois que fomos embora, ela chamou Ray e disse:‘Nunca mais traga ninguém aqui sem antes me perguntar’”, conta Hamilton, hoje com 70 anos.“Então, pensei: ‘Bom, parece que não vou conhecê-la’.”

No fim, O’Keeffe acabou por dar um emprego a Hamilton, e não só isso: ele agora vive em Abiquiú, o segundo lar de O’Keeffe, escondido entre rochedos calcários e choupos batidos pelo vento, a cerca de 20 quilômetros de Ghost Ranch.Ao morrer, em 1986, aos 98 anos, ela lhe deixou as duas casas em testamento, juntamente com a maior parte de seu patrimônio de US$ 70 milhões – gerando processos judiciais movidos por parentes dela, alguns dos quais acreditavam que Hamilton se insinuara no testamento (e, segundo algumas acusações, na cama) da artista.“Corriam boatos de que Georgia e eu havíamos nos casado em segredo, mas ela achava aquilo engraçadíssimo, adorava”, conta Hamilton ao telefone. De fala suave e desconfiado da imprensa, ele não concedia uma entrevista havia mais de dez anos; concordou com a conversa à luz de uma grande retrospectiva de O’Keeffe, que está a caminho e seré aberta no Tate Modern, de Londres, em julho.“Georgia dizia:‘Todos os artistas homens podem ter mulheres mais jovens, mas ficam chocados por haver um homem mais jovem na minha vida’.” E continua:“É claro que ela tinha superado a sensibilidade – você não iria acreditar em algumas das coisas que eram ditas sobre ela e Stieglitz. Ele era 23 anos mais velho e ainda estava casado com a primeira esposa quando o caso entre os dois começou. Imagine esse comportamento! Tirar fotos dela nua e assim por diante. Eu me incomodava com o que as pessoas comentavam, mas ela só dizia: ‘Pelo amor de Deus, Juan, por que você se importa com o que eles pensam? Concentre-se no seu trabalho e pronto’.”

Abstraction White Rose, O’Keeffe, 1927.  - Foto: divulgação
Abstraction White Rose, O’Keeffe, 1927. – Foto: divulgação

Hamilton também era artista, treinado em cerâmica por Henry Takemoto, na Claremont Graduate School, Califórnia. Tendo sido criado por missionários na América do Sul, sentiu-se inicialmente atraído pelo Ghost Ranch por um conhecido que lhe prometera um serviço de marcenaria num mosteiro beneditino da região. Conhecia o trabalho de O’Keeffe, é claro, mas não nutria qualquer ilusão de que se tornariam melhores amigos.“Em 1968, minha mãe me enviou uma cópia da revista Life com Georgia na capa”, lembra.“A revista trazia fotos dela sozinha no deserto com seu cachorro, e ela parecia uma eremita que adorava estar só e trabalhar só.”

Depois do encontro por causa do encanamento, Hamilton voltou à casa de O’Keeffe alguns meses depois por sugestão de uma ex-secretária da artista, que lhe disse que, se ele queria trabalho, tinha de chegar cedo e bater na porta da cozinha. O’Keeffe atendeu e perguntou se ele poderia forrar um engradado.“Respondi que sim”, ele conta.“Ela perguntou: ‘Você terminou o segundo grau?’. E falei:‘Sim, mais a faculdade e dois anos de pós-graduação. Seria de se imaginar que eu poderia fazer mais do que forrar um engradado.’E ela disse:‘Provavelmente sim, se você quisesse’.”

O engradado foi o primeiro teste de uma série. Depois que ele terminou, O’Keeffe lhe deu um jarro de quatro litros cheio de pregos tortos e pediu que os endireitasse.“Respondi que sim, se ela quisesse, mas que poderia comprar outros novos e sairia mais barato”, recorda.“Ela disse:‘Você não viveu a Grande Depressão. Endireite os pregos.’ E foi o que fiz.” O’Keeffe ficou satisfeita e começou a lhe confiar tarefas mais pessoais. “Ela me pagava US$ 5 por hora para jardinar, seis para ser seu motorista e sete para datilografar”, conta Hamilton. “Não era um emprego bem remunerado, mas não havia mais nada acontecendo na minha vida – eu me divorciara recentemente e estava começando uma vida nova, e Georgia era uma das mulheres mais interessantes que eu jamais tinha conhecido.”Além de organizar o próprio legado, O’Keeffe tinha muita coisa em aberto com o de Stieglitz, e Hamilton começou a ajudar com a papelada.“Quando dei por mim, estava passando de 10 a 12 horas por dia ali.”

O relacionamento entre os dois se tornou mais complicado alguns meses depois, contudo, quando o arquiteto Alexander Girard e sua esposa, Susan – velhos amigos de O’Keeffe –, a convidaram para ir ao Marrocos e disseram que ela poderia levar alguém, se quisesse. “Então, ela me convidou”, Hamilton relata.“E foi aí que começaram os problemas.”

De acordo com Hamilton, a antiga agente de O’Keeffe em Nova York, Doris Bry, já estava alarmada com a presença crescente do jovem companheiro belo e bigodudo, e ficou ainda mais quando ele usurpou o que ela considerava ser seu lugar de direito na viagem ao Marrocos.“Outras pessoas se incomodaram por não terem sido convidadas pela Georgia,mas ela estava apenas sendo pragmática. Queria alguém em que pudesse mandar e que carregasse suas malas, alguém que fosse caminhar com ela”, explica. “Então, visitamos o Marrocos e viajamos quase 5 mil quilômetros juntos durante um mês e meio, ou dois. Íamos a todos os lugares juntos e nos dávamos bem. Eu a ajudava a se sentir independente. Ela podia dizer:‘Ele é meus olhos e meus ouvidos’.” Mas o trabalho não era sempre fácil. “Ela era bem exigente”, acrescenta.“Não era nenhuma florzinha. E quando estava de mau humor, era muito durona! Mas, com o passar do tempo, desenvolveu uma afeição por mim que eu não esperava nem procurava.”

O’Keeffe e Hamilton, fotografia de William Clift, 1983 - Foto: divulgação
O’Keeffe e Hamilton, fotografia de William Clift, 1983 – Foto: divulgação

Hamilton ainda não sabe ao certo por que O’Keeffe o escolheu entre seus muitos admiradores, mas tem algumas teorias a respeito.“Acho que foi porque eu estava livre, era jovem, alto e magro – ela gosta de gente magra. Ela não queria ninguém acima do peso por perto. Sua mentalidade era elevada sobre tudo e não só a respeito da arte. Era muito específica a respeito das dimensões das coisas, da localização de uma janela, do ângulo por onde entra a luz. A mágica de como se põe uma flor num vaso e como se põe o vaso sobre uma mesa.” Hamilton era sensível às necessidades dela e fácil de conviver. “Eu não a punha num pedestal, nem dizia ‘oh, que honra’, nem nada assim”, explica.“Eu era só um faz-tudo que se tornou um aliado. Sempre que eu chegava ela dizia: ‘Ah, Juan, que bom ver você.’ E, depois que minha primeira esposa fugiu com outro, era bom ser apreciado.”

Hamilton também absorvia as histórias de O’Keeffe.“A mente dela era aguda e brilhante, ela se lembrava de todos os detalhes de quando foi pela primeira vez à galeria de Stieglitz – o que disseram, como era o elevador”, conta. “Ela adorava falar do passado. Acho que seu casamento com Stieglitz foi difícil. Ele insistia em se casarem e ela concordou. Mas dizia que tinha chorado a noite toda na véspera e não achava aquilo certo.”

O relacionamento de O’Keeffe com Hamilton ficou cada vez mais íntimo, aumentando as suspeitas dos amigos e vizinhos.“As pessoas tinham dificuldade para acreditar que um homem e uma mulher com quase 60 anos de diferença pudessem desenvolver uma amizade como a nossa. Diziam: ‘Aquele cara deve ter segundas intenções. Deve estar atrás do dinheiro dela’”, relata Hamilton. A cozinheira de O’Keeffe estava entre os inimigos que ele fez e até tentou fazer com que passasse fome quando ele começou a passar a noite na casa.“A cozinheira falava: ‘Srta. O’Keeffe, vou preparar as suas refeições, não as da criadagem’. Mas, como Georgia não aceitou, ela foi embora e disse a um jornal que, quando eu ficava na casa, o chão do meu quarto virava um mar de latas de cerveja. Eu gostava de cerveja – mas não bebia mares dela!” O’Keeffe também recebia telefonemas an6onimos de moradores da região que não aprovavam a situação.“Diziam:‘Aquele seu rapaz estava dirigindo a 120 por hora e quase me atropelou.’ E Georgia respondia:‘É mesmo? Por que eu deveria levar isso a sério se você nem diz seu nome?’. O engraçado era que Georgia tambeém gostava de correr com o carro.”

O’Keeffe era protetora, mas também possessiva.“Uma vez, em Nova York, uma amiga rica dela me pediu emprestado para pendurar quadros na sua cobertura”, Hamilton conta. “Fui até lá e fiz o serviço, não era nada demais, mas Georgia ficou furiosa quando soube. Disse: ‘Que cara de pau. Eu sei que ela tinha segundas intenções’. Não vou especular sobre quais seriam aquelas intenções, mas a mulher tinha acabado de se separar de seu marido, então dá para adivinhar. Mas tudo isso é fofoca, e é disso que as pessoas gostam – de fofocar.”

O’Keeffe também incentivou Hamilton a desenvolver suas esculturas de argila abstratas e ondulantes e, em 1978, ele conseguiu sua primeira exposição em Nova York, na Robert Miller Gallery.“Warhol e Joni Mitchell vieram para o vernissage – eu não acreditava!”, conta. “Mas depois a [ex] agente de Georgia chegou e me entregou ali mesmo uma intimação em um processo de US$ 13 milhões.”Acusando Hamilton de ter causado “interferência dolosa” na relação entre ela e O’Keeffe, o processo atraiu uma atenção indesejada da mídia. “Um repórter me perguntou sobre a ação e acho que eles imprimiram uma citação assim:‘13 milhões, isso dá um monte de vasos’”, conta. “Acho que não foi inteligente dizer aquilo.”

Red Poppy, no. VI, de Georgia O’Keeffe, 1928 - Foto: divulgação
Red Poppy, no. VI, de Georgia O’Keeffe, 1928 – Foto: divulgação

Os boatos sobre O’Keeffe e Hamilton persistiram mesmo depois de ele se casar – com ninguém menos que uma mulher que conheceu na casa de O’Keeffe.“Cheguei lá certa manhã e Anna Marie aguardava na entrada com uma amiga, na esperança de conhecer Georgia”, diz.“Depois de 15 minutos com Anna Marie, eu já sabia que estava encrencado. Contei para Georgia e ela disse:‘Que bom. Você vai precisar de alguém quando eu me for’.”

Depois da morte de O’Keeffe, Hamilton rapidamente doou a maior parte do que ela lhe dera ao patrim6onio da família, hoje controlado por um conselho (ele faz o papel de consultor especial). “Falou-se muito do quanto eu tinha recebido, mas abri mão de um valor enorme para ter minha liberdade. Não estou vivendo do que Georgia deixou; vivo do meu trabalho e da minha inteligência.”

Ainda assim, ele permanece um elemento muito importante em fazer do legado de O’Keeffe aquilo que ela queria que fosse.“Ela estava muito ciente da qualidade do seu trabalho. Classificava as próprias pinturas e era extremamente dura consigo mesma”, relembra.“Muito do que se escreveu sobre ela diminui a importância da pessoa que realmente foi. Ela é reconhecida como pintora e não queria ser uma das melhores pintoras. Queria ser um dos melhores pintores de qualquer sexo.”