Foto: Divulgação
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por Gustavo Abreu

Downtown, Los Angeles. Trancadas num estúdio de gravação, elas dedilham baixos e guitarras, brincam com um sintetizador Korg velho e falam sobre cantoras de r’n’b dos anos 90. TLC, Aaliyah e Brandy estão entre as favoritas. Aos poucos, a música começa a sair pelos monitores. As garotas do Warpaint estão juntas há mais de dez anos e conquistaram o indie em 2014 com seu álbum homônimo. Mas no disco Heads Up (lançado no dia 23 de setembro), o grupo está a fim de virar o jogo. O art rock sombrio e o dream pop psicodélico dão espaço para uma banda um tanto mais pop e consideravelmente destemida. “Queríamos algo mais dançante, com BPMs mais rápidos. Neste disco, nós basicamente não tivemos regras”, diz à Bazaar a vocalista e guitarrista Emily Kokal, de 35 anos. Theresa Wayman (guitarra), Jenny Lee Lindberg (baixo) e Stella Mozgawa (bateria) completam a banda.

Primeira faixa lançada, New Song traduz bem esse novo momento, mais alegre e menos reflexivo, como Kokal analisa. “Ela é diferente de tudo que já fizemos. Foi divertido escrever uma música assim, porque nós realmente gostamos de disco music e de pop.” No ano em que Beyoncé e Rihanna lançaram discos “conceituais”, é quase irônico ver uma banda como o Warpaint dirigindo na contramão. Mas Emily vê na indústria atual o momento certo para esse tipo de manobra. “As pessoas estão se arriscando mais. No pop, os artistas querem ser avant-garde e isso leva à experimentação. Eu quero poder experimentar e mudar de direção a qualquer momento.”

A gravação de Heads Up aconteceu de forma mais orgânica que seus antecessores, The Fool (2010) e Warpaint (2014). Depois do sucesso estrondoso do segundo, que as levou a tocar em megafestivais como Coachella e Primavera Sound, as quatro seguiram caminhos distintos, para se dedicarem a projetos paralelos. Theresa aventurou-se em uma nova banda, BOSS, com Sarah Jones, do Hot Chip; Jenny lançou o álbum solo right on!; e Stella saiu em turnê com o cantor e guitarrista Kurt Vile. “Não trabalhei em um projeto solo, então coloquei toda a minha energia neste disco”, lembra Emily. “Quando voltamos, estávamos mais preparadas com músicas trabalhadas fora da banda.”

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No estúdio, a dinâmica do reencontro das quatro foi muito influenciada pela forma como se apresentam ao vivo. “Passamos a maior parte do tempo em turnê, então, essa é uma evolução natural”, continua Emily. As músicas já haviam sido rascunhadas em pedaços e o trabalho foi desdobrar novas camadas sonoras. Elas usaram um computador, muitos pedais, um engenheiro de som e o produtor Jake Bercovici (da banda The Voidz, que acompanhou Julian Casablancas em 2013). “O último disco levou anos para ficar pronto. Desta vez, a gente queria trabalhar e produzir mais rápido. E também fazer músicas que fossem divertidas de tocar ao vivo.” As referências, ela lista, são as divas do r’n’b mas também To Pimp A Butterfly, de Kendrick Lamar, e Aphex Twin. O excelente resultado são faixas como a animada So Good
e a espacial Dre. A banda soa como o Warpaint pelo qual o mundo se apaixonou – a trilha perfeita para um filme de Sofia Coppola -, mas agora está ainda mais preparada para sair detonando no palco. “É importante escrever músicas que eu possa cantar todas as noites e com as quais as pessoas sintam uma conexão”, explica Emily sobre as letras de Heads Up. “É um disco menos insular e sobre ideias universais”, diz, apontando essas novas nuances. “O Warpaint sempre foi sobre reflexão, amadurecimento e autocompreensão. Essas coisas ainda percorrem o álbum, mas também quisemos trazer uma mensagem positiva.” Para Kokal, que namorou John Frusciante, do Red Hot Chilli Peppers, a música mais íntima é Don’t Wanna, que fala sobre autoaceitação. “[A letra] é sobre não se prender à ideia de que você precisa ser algo, ou ligar para o que as pessoas pensam de você. É sobre permitir-se mudar e não ter medo.”

Se o sucesso mudou o Warpaint, só vamos descobrir mais para frente. Mas elas estão, definitivamente, aproveitando o momento, como uma das bandas mais queridas da década. Recentemente, em um show, o grupo recebeu uma visita que deixaria qualquer músico tremendo na base. “Conheci a Björk, você consegue imaginar? Foi a coisa mais louca que já aconteceu”, lembra Emily. A guitarrista explica que a islandesa apareceu de surpresa numa apresentação, a convite de um amigo em comum (o diretor de clipes Chris Cunningham, que trabalhou com Björk em All Is Full of Love e é casado com a baixista Jenny). “Às vezes, você não quer conhecer seus heróis, porque eles podem te desapontar, mas ela foi divertida e engraçada. Tivemos uma pequena troca.” Se Björk abençoou, a nós basta ouvir Heads Up no repeat.