O show da Lady Gaga no Radio City Hall, em 2010 - Foto: Getty Images

por Marcelo Sebá

Foi em 20 de janeiro de 2010, dia de São Sebastião, meu santo padroeiro e ícone gay – a imagem fetichista do soldado seminu, amarrado a uma árvore com o corpo flechado vem inspirando artistas ao longo dos séculos – que vi a estreia de Lady Gaga no palco do Radio City Music Hall, em Nova York, num show que ficará para sempre na memória de quem estava lá. Arrisco dizer que São Sebastião é o santo mais apropriado para o posto de protetor dos Little Monsters, como são chamados os devotos, digo, fãs de Lady Gaga.

A transformação de Stefani Joanne Angelina Germanotta em Lady Gaga foi rápida. Bastaram dois anos para que a garota ítalo-americana de aparência comum saísse dos clubinhos de Nova York para ganhar o mundo com o hit Just Dance, uma música simples que descreve a sensação de quem deu “perda total” na pista de dança.

Aí está revelado o primeiro segredo de Gaga: ela é a legítima representante de uma nova geração que se joga e se diverte, sem preconceitos de credo, raça ou orientação sexual. Frequenta os clubes, tem Facebook e Twitter. Uma estrela que fala sem intermediários, sem censura. Gaga desconstrói o próprio mito postando fotos íntimas, exibindo-se real e acessível. Gaga é artista 24 horas por dia e tem uma devoção religiosa ao seus fãs. Ela se diverte divertindo o público com figurinos excêntricos, elaborados de forma que possam recriá-los, mas também chama a nossa atenção para a importância dos criadores – McQueen, Armani, Mügler, Chalayan e os brasileiros Alexandre Herchcovitch e Pedro Lourenço fazem parte de seu guarda-roupa. E mais, usa o poder que a fama proporciona para defender as causas que abraça: a luta contra o bullying do qual foi vítima na adolescência, a defesa da liberdade de expressão e o direito de ser diferente.

Seis meses depois do show do Radio City, lá estava ela de volta a Nova York, mas, desta vez, dona do palco do Madison Square Garden. Frágil, dividia com o público a emoção de cantar no mesmo palco em que poucos anos atrás assistira ídolos como Madonna, Cher, Rolling Stones, Kiss e Elton John. “Na escola de artes dramáticas me disseram que eu não cantava o suficiente, não dançava o suficiente e não era bonita o suficiente para subir aqui e vejam só, hoje todos os freaks estão trancados… do lado de fora!”.

Está revelado o segundo segredo de Gaga: ela é a voz dos jovens excluídos, das vítimas de bullying, dos esquisitos. No meio do show, olho para o lado e vejo meu amigo Terry Richardson chorando, emocionado com a interpretação de Speechless, música composta pela cantora em homenagem ao pai. Terry teve de sair mais cedo, mas fui levado ao camarim pelo diretor criativo da Harper’s Bazaar US, Stephen Gan, que me apresentou a ela – e ela por sua vez, me apresentou à mãe, ao namorado e ao genial estilista Nicola Formichetti e me fez ficar tão, mas tão à vontade que quis ir embora. A essa altura já era muito fã para querer fazer o íntimo!

Depois disso, participei da produção do livro Lady Gaga x Terry Richardson, um diário visual de sua primeira grande turnê. Foram feitas oitenta mil fotos ao longo de dez meses de viagens pelos Estados Unidos, Canadá, Europa e México. Uma experiência intensa, convivendo com uma artista extremamente jovem, determinada, certa dos seus propósitos, fiel aos seus valores, dedicada à família, aos amigos e sem medo de se expor.